“Segui Darwin até o fim do mundo”
O fotógrafo Marcio Pimenta, 51 anos, narra como foi refazer os passos do cientista, tema de seu primeiro livro
Desde pequeno sonhava em ser explorador. O anseio de desvendar territórios desconhecidos pode ser comum entre muitas crianças, mas só percebi que essa realmente era minha vocação quando estava prestes a completar meio século de existência, ao refazer a trilha de um homem que transformou a ciência ao investigar o desconhecido: Charles Darwin. Durante a pandemia, tive contato com os diários dele sobre a expedição no navio HMS Beagle, nos anos 1830, e descobri que a jornada que resultou na obra A Origem das Espécies teve início na Patagônia. Ninguém, no entanto, havia recriado seus passos, e acabei fascinado pela ideia de percorrer 11 000 quilômetros pelos confins da América do Sul. Agora, essa travessia se tornou meu primeiro livro, Encontrando Darwin, que começou a ganhar forma após a morte do meu pai, no ano passado. Ele sempre dizia que eu era melhor escritor do que fotógrafo.
Quando pensava no naturalista britânico que revolucionou a biologia, surgia em minha mente a imagem de um senhor de barba branca, cercado por tartarugas e tentilhões, os famosos pássaros das Ilhas Galápagos. No entanto, o Darwin que me fez zarpar rumo à Terra do Fogo era um jovem de apenas 22 anos, inseguro e curioso, que fugia da pressão familiar para encontrar um rumo na vida. No extremo sul do planeta, ele achou fósseis incompatíveis com a idade da Terra defendida pela Igreja e analisou espécies irmãs que, por algum motivo, haviam se diferenciado — os primeiros indícios de sua teoria da evolução. Naquele período, eu já tinha dado uma guinada em minha trajetória ao abandonar o trabalho como economista e pesquisador na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), me dedicando à produção de documentários e fotografia. Adquiri a experiência de permanecer longos períodos longe de casa em expedições pelo Iraque e pelo deserto do Atacama, mas jamais havia enfrentado algo tão desafiador.
Antes de partir, me preparei por um ano. Percorria cerca de 200 quilômetros por semana de bicicleta, praticava musculação, estudava mapas e consultava relatos de outros exploradores de maneira quase compulsiva. Durante quarenta dias, viajei sozinho em um veículo 4×4 por estradas de cascalho que fazem os pneus escorregarem. O cenário é um espetáculo árido, de tonalidade ocre, onde guanacos — parentes das lhamas — e emas aparecem inesperadamente. A paisagem também revelou muito sobre mim. Em Ushuaia, onde fiz uma pausa para conversar com professores, comecei a passar mal. Estava convicto de que sofria um infarto, mas, no hospital, descobri tratar-se de um colapso causado por estresse intenso. Compreendi que a inquietação vinha de uma transformação interior: finalmente realizava o sonho de me tornar explorador, algo que nunca havia reconhecido plenamente. A partir desse momento, quando a ansiedade surgia, eu simplesmente parava, caminhava alguns metros e respirava profundamente.
Acredito que foi exatamente por isso que deixei a carreira acadêmica. Durante o doutorado, notei que escrevia sobre sociedades que nunca havia vivenciado, elaborava relatórios sobre lugares onde jamais estivera e fazia afirmações com uma segurança que hoje me soa arrogante. Entender o mundo exige, antes de tudo, saber escutá-lo — um percurso que Darwin trilhou como ninguém. Ele embarcou no HMS Beagle acreditando no criacionismo e retornou disposto a rever tudo o que pensava. Não foi apenas sua inteligência que o tornou um dos maiores cientistas da história, mas sua abertura para mudar de ideia diante das evidências. Essa lição continua atual, já que hoje as certezas parecem surgir antes das perguntas. A curiosidade, a dúvida e a perseverança de Darwin nunca foram tão urgentes.
Marcio Pimenta em depoimento a Amanda Péchy
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007







