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Observatório compõe acervo inédito de milhões de estrelas e planetas

Equipado com dois telescópios, o Gaia tem registrado características de corpos celestes para montar mapa tridimensional da Via Láctea

Por Luiz Felipe Castro, Sergio Figueiredo Atualizado em 15 jan 2021, 08h58 - Publicado em 15 jan 2021, 06h00

“O que seria aquela faixa luminosa e esbranquiçada no céu escuro e distante?”, deve ter se perguntado o primeiro hominídeo que andou sobre a Terra milhões de anos atrás. Para os cidadãos da Grécia antiga, berço da filosofia, mas também da mitologia que buscava explicar o inexplicável, o rastro branco seria o leite derramado por Hera, ressentida por ser obrigada a amamentar Hércules, filho de seu marido, Zeus, com uma mortal. O leite esparramado pela deusa maior do Olimpo teria formado a Via Láctea. Entretanto, 2 500 anos depois da consolidação da lenda greco-romana, o físico e gênio italiano Galileu Galilei conseguiu comprovar, em 1609, munido de seu telescópio, o que Copérnico e outros estudiosos já imaginavam: a Via Láctea era composta de constelações, planetas e satélites naturais, e a Terra, como se descobriria séculos mais tarde, está inserida nela. Trata-se de uma galáxia repleta de estrelas e, pela primeira vez na história, está sendo detalhadamente mapeada.

Catalogar a galáxia é um sonho secular dos astrônomos, mas ele só começou a tomar forma quando, em dezembro de 2013, a Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) lançou e posicionou o Observatório Gaia no espaço sideral, a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, na direção oposta ao Sol — distante o suficiente para não ser coberto pela sombra do planeta e próximo o bastante para manter um fluxo contínuo de dados aos centros de pesquisa. Equipado com dois telescópios, sistema de imagem e outros aparelhos, o Gaia tem registrado a posição, o tamanho, a velocidade, a cor e até a composição básica de milhões de corpos celestes, mais precisamente 1,8 bilhão deles, conforme divulgado há poucas semanas pela ESA em seu terceiro levantamento preliminar de dados. Os computadores das universidades na Europa recebem tantas imagens e dados diariamente que, mesmo trabalhando em rede, eles mal dão conta de processar tamanho volume de informações.

À primeira vista, o observatório parece um misto de antena parabólica com disco voador, mas contém o que há de mais avançado em captação de imagem estelar. Dois telescópios idênticos operam com uma câmera de 1 000 megapixels (um smartphone comum não tem mais do que 12). Gaia também tem um fotômetro para mensurar a distância e a velocidade dos objetos astronômicos e um espectrômetro para investigar o conteúdo dos astros. Seu peso total, com combustível, é de 2 toneladas — irrelevante na imensidão do espaço.

A missão é tão auspiciosa quanto desafiadora: criar um mapa em 3D com mais de 1 bilhão de estrelas e investigar as origens da Via Láctea, estudando planetas gigantes de elevado poder gravitacional, anãs marrons (estrelas que não tiveram tamanho nem força para entrar em fusão) e supernovas (estrelas no estágio final de vida). Além disso, o telescópio está gerando o maior número possível de imagens de objetos rochosos que vagam pelo Sistema Solar e que podem vir a se tornar um risco para a vida em nosso planeta em caso de colisão. O rastreio vai do aglomerado de asteroides entre Marte e Júpiter ao cinturão gelado de Kuiper, além da órbita de Netuno.

O último relatório preliminar dos pesquisadores do Gaia, cuja versão definitiva é esperada para 2022, adicionou ao estudo uma profusão de informações e conclusões fascinantes, que empolgam não só a comunidade científica, mas todos aqueles interessados em entender o universo que nos cerca. Além de incluir 100 milhões de corpos celestes ao catálogo de 1,7 bilhão divulgado em abril de 2018, eles registraram estrelas nas fronteiras da galáxia, a aproximadamente 25 000 anos-luz de distância — vale lembrar que isso significa que a luz desses astros viaja 25 000 anos pelo espaço para chegar ao observatório. A Terra, por sinal, estaria localizada a 25 000 anos-luz dos limites da Via Láctea e a 25 000 anos-luz de seu centro. Se imaginarmos a galáxia como um disco de vinil de cinco faixas, a espécie humana estaria vivendo na terceira. E esse disco, conforme mostram os modelos de computador, continua se expandindo.

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Arte Via Lactea

O observatório da ESA também está proporcionando mais conhecimento sobre nossos vizinhos no Sistema Solar. Trinta anos atrás, eram conhecidos pouco mais de 3 800 corpos celestes no raio de 320 anos-luz de distância da Terra (em termos astronômicos, o equivalente a um passeio no jardim de casa). Hoje já se sabe que o número é quase 100 vezes maior. No lado oposto, além da orla da Via Láctea, existem outras galáxias, com bilhões de estrelas em movimento, e o Gaia também vai entregar muita informação sobre elas quando o projeto estiver concluído em 2025, ano em que o telescópio deve parar de operar.

O Gaia custou à Comunidade Europeia 740 milhões de euros (cerca de 4,7 bilhões de reais), fora as incontáveis horas de trabalho de astrônomos, matemáticos e técnicos associados ao projeto. Esse número, que soa mundano diante das infinitas possibilidades de descobertas científicas, suscita dúvidas de quanto mais será necessário investir para obter o guia definitivo da galáxia e qual seria a real utilidade dele. Estrelas queimam seu combustível no espaço por centenas de milhões de anos, muito mais tempo do que o pensamento imediatista humano consegue projetar.

Estima-se que a Via Láctea tenha 200 bilhões de estrelas e um número ainda maior de planetas e satélites, praticamente todos inatingíveis com a tecnologia de viagens espaciais disponível hoje. Pairando no vácuo, o solitário observatório terá conseguido, ao fim de sua jornada, oferecer subsídios para catalogar talvez 1% desse total, além de propiciar um vislumbre de outras galáxias. Ainda assim, terá sido um trabalho heroico, digno de Hércules, que deixaria até mesmo a deusa Hera orgulhosa.

Publicado em VEJA de 20 de janeiro de 2021, edição nº 2721

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