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O problema da palavra “assintomático”

Uso enganoso do termo pode levar a confusões no campo da saúde pública

Por Sabrina Brito - Atualizado em 12 Jun 2020, 13h37 - Publicado em 12 Jun 2020, 13h15

No último dia 8, a chefe do departamento de doenças emergentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), Maria Van Kerkhove, afirmou, em conferência, que a transmissão do novo coronavírus por pessoas assintomáticas seria “muito rara”. Um dia depois, a infectologista disse se tratar de um “mal-entendido”, reforçando a ideia de que a contaminação por indivíduos que não apresentam sintomas é, sim, motivo para preocupação. Isso mostra que o uso do termo “assintomático” tem gerado muita desinformação pelo mundo.

A fala de Van Kerkhove foi recebida com entusiasmo por políticos que defendem a tese que a pandemia seria, na verdade, muito menos alarmante do que acreditam os especialistas. Afinal, se pessoas sem sintomas não são capazes de espalhar o vírus, não haveria motivo para a quarentena ou até mesmo para o uso de máscaras – bastaria que apenas os indivíduos sintomáticos se isolassem. Contudo, de acordo com a vasta maioria dos cientistas (e, posteriormente, da própria Van Kerkhove), a transmissão por parte de pessoas assintomáticas deve ser olhada de perto. Em quem acreditar?

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A verdade é que o termo “assintomático” é um pouco vago quando se trata de Covid-19. Em princípio, a palavra define o caso de uma pessoa que é infectada pela doença, mas passa por todo o período de enfermidade sem sinal algum de mal-estar. No entanto, há também os casos pré-sintomáticos, ou seja, aqueles em que o indivíduo passa um tempo sem apresentar sintoma, mas eventualmente apresenta algum indicativo de estar doente.

Assim, se uma pessoa contrai o novo coronavírus e passa alguns dias sem sentir nada, mas acaba desenvolvendo sintomas posteriormente, não se trata de um caso assintomático. De acordo com a infectologista Maria Van Kerkhove, não era a esse tipo de indivíduo que ela se referia, e sim apenas àqueles que nunca chegam a apresentar sinal da doença. Estes, sim, apontam as provas, dificilmente seriam capazes de espalhar a Covid-19.

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Existe ainda a possibilidade de uma pessoa apresentar sintomas e não relacioná-los à doença, fazendo com que ela se diga assintomática sem de fato ser. Por exemplo: um sujeito pode sentir a diminuição de seu olfato e paladar, mas não pensar que isso tem algo a ver com o novo coronavírus, e considerar a si mesmo assintomático.

Em uma conversa casual entre amigos, a distinção entre um e outro caso não importa muito. Quando vem da boca de uma autoridade mundial, porém, o uso dúbio do termo pode levantar polêmica – foi exatamente o que aconteceu.

A dificuldade que envolve essa diferenciação impacta as mensurações de dados feitas durante a pandemia. Se muitos casos são relatados de forma errônea (sem que haja qualquer intenção para isso, apenas a ignorância), os números que coletamos acerca da Covid-19 podem ser enganosos. Por via das dúvidas, enquanto não são publicadas pesquisas definitivas, a dica dos cientistas é simples: evite sair de casa e use a máscara.

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