‘Geleira do Juízo Final’ pode representar mais risco do que a ciência imaginava
Ciência acreditava que o derretimento da geleira poderia elevar o nível do mar em 1,5 cm; número real é o dobro
Na Antártida Ocidental, a grande geleira Thwaites representa um medo crescente para a comunidade científica: que o aumento das temperaturas faça com que ela derreta e cause um aumento irreversível do nível do mar. A ciência acompanha de perto as movimentações do “corpo” gélido, mas uma nova pesquisa da Nature Communications mostra uma precaução insuficiente. Diferentemente do que se pensava, a geleira pode contribuir para até o dobro da elevação do nível do mar que era estimada.
Desde meados da década de 1990, a porção ocidental da Thwaites, por onde o gelo escoa mais rapidamente, recuou cerca de 25 quilômetros. Parte do recuo ocorre por causa da água relativamente quente que derrete uma zona de “transição” do gelo.
As partes mais profundas da geleira estão apoiadas no solo submarino, mas a região mais próxima da água fica solta, em flutuação. Para simular esse processo, os pesquisadores desenvolveram um modelo computacional que considera uma zona com vários quilômetros de largura.
O estudo também aponta um risco para a estabilidade da geleira: a perda de contato com a Crista Mouginot, uma elevação submarina que funciona como ponto de apoio para o gelo. Caso se desprenda dessa estrutura, a geleira poderá recuar em direção à Crista Sul, outro relevo do fundo oceânico.
Nas simulações que consideraram uma zona de quatro a seis quilômetros de largura, a probabilidade de desprendimento até 2100 chegou a 60%. Em alguns cenários, a ruptura desse apoio poderia ocorrer já em 2038.
Quando o modelo considerou uma área de transição (entre a água e o gelo) de aproximadamente cinco quilômetros, a contribuição estimada da Thwaites na elevação do nível do mar chegou a 3,01 centímetros até 2100. O resultado representa quase o dobro da média de 1,52 centímetro prevista pelo conjunto de modelos internacionais usado como referência para a ciência.
Apesar disso, as simulações mantiveram as condições climáticas médias registradas entre 1996 e 2023, sem considerar um aquecimento adicional. Dessa forma, os cálculos permitem avaliar o efeito do derretimento na base da geleira sem incluir possíveis pioras provocadas pelas mudanças futuras do clima.
Mesmo com a “premonição” preocupante, os autores ressaltam que o modelo apresenta limitações. A representação simplificada da circulação oceânica sob a plataforma de gelo, a ausência de processos relacionados ao desprendimento de blocos e a largura fixa para a zona de aterramento criam incertezas.
Para reduzir as dúvidas, os pesquisadores defendem novas medições diretas da temperatura, da salinidade e das correntes oceânicas sob a geleira. Com esses dados, será possível aprimorar as projeções e compreender melhor a velocidade do recuo da Thwaites e seus possíveis efeitos sobre o nível global do mar.







