Fascinante projeto na Antártica passa a preservar amostras de glaciares ameaçados
Eles são registros preciosos da história climática da Terra
No silêncio absoluto da Antártica, acaba de brotar um ruidoso experimento destinado a durar séculos. Escavado na neve compactada a poucos quilômetros da base ítalo-francesa Concordia, o santuário do projeto Ice Memory foi concebido para guardar, a cerca de 52 graus negativos, amostras retiradas de geleiras ameaçadas ao redor do mundo. A lógica é simples e incômoda: se parte desses glaciares vai desaparecer antes que a ciência consiga estudá-los, a saída é salvar o que for possível agora. A pressa não ocorre por acaso. As geleiras estão derretendo a uma velocidade muito maior do que a estimada mesmo pelos cálculos mais pessimistas.
Um estudo publicado em dezembro na revista Nature introduz o conceito de “pico de extinção” — o momento em que o desaparecimento deixa de ser gradual e passa a ocorrer em massa, algo que pode acontecer em meados deste século. Mesmo em um cenário com o aquecimento global limitado a 1,5 grau, o que já é muito preocupante, os pesquisadores calculam que cerca de 2 000 glaciares possam derreter em um único ano. Em ambientes mais quentes, próximos de 4 graus, essa perda anual pode chegar a 4 000, um ritmo comparável a eliminar, de uma só vez, todos os blocos existentes nos Alpes europeus.
Se esses blocos desaparecerem, o impacto irá além da paisagem. Regiões inteiras perderiam reservas naturais de água doce, ecossistemas seriam afetados e o próprio aquecimento tenderia a se intensificar, já que menos gelo significa menos reflexão da luz solar. Se os danos ambientais fossem contidos, quase metade das geleiras atuais ainda poderia existir até o fim do século; em cenários mais extremos, sem um freio ao aquecimento, menos de 10% sobreviveriam.
É nesse ponto que os blocos congelados deixam de ser apenas paisagem e passam a ser documento. “A geleira é como se fosse a biblioteca do clima da Terra”, diz Gabriela Joly, analista de dados ambientais da AtmosMarine, empresa de monitoramento de clima. Camada após camada, a neve que cai e se comprime incorpora sinais do que estava no ar: partículas de poluição, vestígios de erupções vulcânicas. O gelo, enfim, em bela construção da natureza, guarda a química da atmosfera, e entre as camadas ficam bolhas de ar que aprisionam gases e outros traços do ambiente. “Essas bolhas de ar carregam muitas informações, inclusive microinformações do material genético da fauna e da flora”, diz a especialista. Se esse arquivo natural queima, não há reimpressão possível.
Por isso, preservar hoje permite que pesquisadores de amanhã façam perguntas que ainda não sabemos formular. O santuário antártico, criado por profissionais ligados ao Conselho Nacional de Pesquisa da Itália e à Universidade Ca’ Foscari de Veneza, em parceria com instituições francesas e suíças, foi pensado para isso. A estrutura é uma gruta de neve escavada cerca de 9 metros abaixo da superfície, com aproximadamente 35 metros de comprimento e 5 metros de altura e largura. Não há fundação, nem sistema de refrigeração. A conservação é totalmente passiva, sustentada pelo frio natural do continente.
A escolha do local se apoia numa combinação rara de estabilidade e neutralidade. Debaixo da terra, as temperaturas permanecem constantes entre 50 e 54 graus negativos ao longo do ano. A estação Concordia, a 3 233 metros de altitude, oferece infraestrutura científica em uma das áreas mais remotas da Terra. Inserida no Sistema do Tratado da Antártica, aquela região não é reivindicada por nenhum país, e o Ice Memory defende que as amostras armazenadas ali não pertençam a ninguém. São da humanidade. Na frieza possível da civilização, apesar dos estragos, apesar das guerras, a memória do gelo é fundamental, além de ser urgente.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979





