Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90

Fascinante projeto na Antártica passa a preservar amostras de glaciares ameaçados

Eles são registros preciosos da história climática da Terra

Por Ligia Moraes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 jan 2026, 08h00 •
  • No silêncio absoluto da Antártica, acaba de brotar um ruidoso experimento destinado a durar séculos. Escavado na neve compactada a poucos quilômetros da base ítalo-francesa Concordia, o santuário do projeto Ice Memory foi concebido para guardar, a cerca de 52 graus negativos, amostras retiradas de geleiras ameaçadas ao redor do mundo. A lógica é simples e incômoda: se parte desses glaciares vai desaparecer antes que a ciência consiga estudá-los, a saída é salvar o que for possível agora. A pressa não ocorre por acaso. As geleiras estão derretendo a uma velocidade muito maior do que a estimada mesmo pelos cálculos mais pessimistas.

    Um estudo publicado em dezembro na revista Nature introduz o conceito de “pico de extinção” — o momento em que o desaparecimento deixa de ser gradual e passa a ocorrer em massa, algo que pode acontecer em meados deste século. Mesmo em um cenário com o aquecimento global limitado a 1,5 grau, o que já é muito preocupante, os pesquisadores calculam que cerca de 2 000 glaciares possam derreter em um único ano. Em ambientes mais quentes, próximos de 4 graus, essa perda anual pode chegar a 4 000, um ritmo comparável a eliminar, de uma só vez, todos os blocos existentes nos Alpes europeus.

    CILINDRO - Técnicos extraem porções brancas: preservação do passado
    CILINDRO - Técnicos extraem porções brancas: preservação do passado (Ice Memory Foundation//)

    Se esses blocos desaparecerem, o impacto irá além da paisagem. Regiões inteiras perderiam reservas naturais de água doce, ecossistemas seriam afetados e o próprio aquecimento tenderia a se intensificar, já que menos gelo significa menos reflexão da luz solar. Se os danos ambientais fossem contidos, quase metade das geleiras atuais ainda poderia existir até o fim do século; em cenários mais extremos, sem um freio ao aquecimento, menos de 10% sobreviveriam.

    É nesse ponto que os blocos congelados deixam de ser apenas paisagem e passam a ser documento. “A geleira é como se fosse a biblioteca do clima da Terra”, diz Gabriela Joly, analista de dados ambientais da AtmosMarine, empresa de monitoramento de clima. Camada após camada, a neve que cai e se comprime incorpora sinais do que estava no ar: partículas de poluição, vestígios de erupções vulcânicas. O gelo, enfim, em bela construção da natureza, guarda a química da atmosfera, e entre as camadas ficam bolhas de ar que aprisionam gases e outros traços do ambiente. “Essas bolhas de ar carregam muitas informações, inclusive microinformações do material genético da fauna e da flora”, diz a especialista. Se esse arquivo natural queima, não há reimpressão possível.

    Continua após a publicidade
    ARQUIVO - Gavetas em temperatura abaixo de zero: para a posteridade
    ARQUIVO - Gavetas em temperatura abaixo de zero: para a posteridade (ATCM/Ice Memory Foundation//)

    Por isso, preservar hoje permite que pesquisadores de amanhã façam perguntas que ainda não sabemos formular. O santuário antártico, criado por profissionais ligados ao Conselho Nacional de Pesquisa da Itália e à Universidade Ca’ Foscari de Veneza, em parceria com instituições francesas e suíças, foi pensado para isso. A estrutura é uma gruta de neve escavada cerca de 9 metros abaixo da superfície, com aproximadamente 35 metros de comprimento e 5 metros de altura e largura. Não há fundação, nem sistema de refrigeração. A conservação é totalmente passiva, sustentada pelo frio natural do continente.

    A escolha do local se apoia numa combinação rara de estabilidade e neutralidade. Debaixo da terra, as temperaturas permanecem constantes entre 50 e 54 graus negativos ao longo do ano. A estação Concordia, a 3 233 metros de altitude, oferece infraestrutura científica em uma das áreas mais remotas da Terra. Inserida no Sistema do Tratado da Antártica, aquela região não é reivindicada por nenhum país, e o Ice Memory defende que as amostras armazenadas ali não pertençam a ninguém. São da humanidade. Na frieza possível da civilização, apesar dos estragos, apesar das guerras, a memória do gelo é fundamental, além de ser urgente.

    Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).