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Estudo reacende a esperança de trazer de volta espécies extintas

Pesquisadores japoneses trazem de volta à vida microrganismos adormecidos há 100 milhões de anos

Por Sabrina Brito - Atualizado em 7 ago 2020, 15h10 - Publicado em 7 ago 2020, 06h00

A saga Jurassic Park se tornou um dos grandes sucessos da história do cinema e da literatura com uma premissa extraordinária: a possibilidade de trazer de volta à vida espécies extintas. Por mais que isso ainda pareça obra da ficção, cientistas japoneses chegaram muito perto de alcançar o feito. Eles “ressuscitaram” microrganismos de 100 milhões de anos capturados no fundo no mar. Esses seres, contudo, não estavam de fato mortos. “Se fosse esse o caso, não teríamos sido capazes de revivê-los”, disse a VEJA o microbiólogo Yuki Morono, pesquisador da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha e Terrestre e coautor do estudo recém-­publicado na revista Nature. “Acreditamos que eles estivessem em algum tipo de hibernação profunda pela última centena de milhão de anos.” Ao analisar os microrganismos com recursos de laboratório, os cientistas constataram que, de certa forma, eles estavam esperando condições ambientais mais adequadas para retomar sua vida. Dada a idade avançada dos tais micróbios, pode-se dizer que foram contemporâneos dos dinossauros — o que faz da descoberta algo ainda mais fantástico.

CONGELADO - Mamute: o experimento reativou células do animal de 28 000 anos – Kazuhiro Nogi/AFP

Para tornar o projeto possível, 31 cientistas usaram uma sonda que procurou sedimentos a 6 000 metros abaixo da superfície do mar. A ideia era desbravar a porção central do Oceano Pacífico, um dos biomas menos explorados do planeta. Depois de esquadrinhar o ambiente marinho e encontrar camadas profundas de rochas, uma espécie de broca perfurou o assoalho, enquanto outro equipamento recolhia detritos com amostras de bactérias e arqueas (um tipo de ser unicelular). Exames em laboratório descobriram que os microrganismos tinham exatos 101,5 milhões de anos. Eles foram incubados, e a surpresa se deu: não só estavam vivos como começaram a se alimentar e a se reproduzir. Os resultados animaram a comunidade científica. “Os progressos na pesquisa comprovaram que os ambientes profundos e as crostas oceânicas compreendem a maior biosfera e a última fronteira do planeta”, diz Vivian Helena Pellizari, professora do Departamento de Oceanografia Biológica da Universidade de São Paulo.

Além de desvendar os mistérios das profundezas oceânicas, o estudo pode ajudar a encontrar vida fora da Terra. De acordo com Steven D’Hondt, especialista em geologia marítima e coautor do artigo publicado na Nature, a pesquisa abre novas portas na busca por vida em Marte, onde a presença de gases e nutrientes é rara — assim como no fundo do mar. Se foi possível despertar micróbios que surgiram há 100 milhões de anos, talvez os cientistas consigam fazer o mesmo com microrganismos marcianos adormecidos. “Dado o sucesso de nossa experiência, parece razoável supor que haja micróbios vivos sob a superfície de Marte e que tenham resistido por milhões ou bilhões de anos depois de o ambiente se tornar inabitável”, afirma D’Hondt. Uma das explicações para o fracasso da ciência em encontrar vida no Planeta Vermelho, portanto, pode estar em um erro de estratégia. Talvez os alienígenas estejam ocultos nas profundezas de Marte, e não na sua superfície.

LABORATÓRIO - Cientistas japoneses: micróbios hibernaram no fundo do mar – Cortesia IODP/JRSO/.

O Japão, de fato, vem liderando projetos que têm a ambição de reviver animais extintos. No ano passado, o Departamento de Engenharia Genética da Universidade Kindai, em Osaka, informou que foi bem-sucedido na reativação de partes celulares de um mamute de 28 000 anos. Apelidado de Yuka, o animal foi encontrado na Sibéria em 2010 e, desde então, se tornou a maior esperança da ciência em experimentos desse tipo. Os cientistas extraíram a medula óssea e o tecido muscular de Yuka e inseriram o material em óvulos de camundongos. Pouco tempo depois, descobriram que as células modificadas apresentaram sinais de atividade biológica. “Muito em breve, avançaremos a pesquisa para o estágio da divisão celular”, diz o engenheiro genético Kei Miyamoto. Se isso acontecer, a ciência poderá, quem sabe num futuro não muito distante, trazer herdeiros do mamute Yuka de volta à vida.

Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

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