Estrelas anãs devoram, aos poucos, os astros que as acompanham
Dois estudos na 'Nature Astronomy' revelam comportamento canibal de objetos cósmicos
Estrelas anãs podem consumir, de forma gradual e estável, os objetos que giram ao seu redor, num processo que se estende por milhões de anos. É o que mostram dois estudos publicados na revista Nature Astronomy por equipes internacionais, com base em dados de telescópios terrestres e espaciais. Em um dos casos, uma anã vermelha acumula matéria de uma anã marrom. No outro, uma anã branca absorve a atmosfera de um candidato a planeta gigante de segunda geração.
No primeiro trabalho, liderado por Aaron Householder, os pesquisadores usaram dados do Zwicky Transient Facility (ZTF) para identificar o sistema binário ZTF J0440+2325. Nele, uma anã marrom, objeto grande demais para ser planeta e pequeno demais para brilhar como estrela, completa uma órbita em torno de uma anã vermelha, astro pequeno e frio, a cada 86,65 minutos. Medições simultâneas de luz em cinco comprimentos de onda registraram uma variação acentuada de cor e um ponto quente na superfície da anã vermelha.
A modelagem indica que a matéria flui de modo direto e contínuo da anã marrom e se choca com a superfície da estrela, o que explica o ponto quente. Segundo os autores, essa transferência pode ser dinamicamente estável por pelo menos 10 milhões de anos, e talvez por bilhões, em vez de provocar a destruição rápida do corpo menor. A equipe também apontou um segundo candidato, o ZTF J1444+4820, parte de um sistema triplo, com período orbital de 67,16 minutos.
O segundo estudo, do grupo de Jamie Williams, reanalisou espectros no ultravioleta e medições de brilho da anã branca jovem HS 0209+0832, obtidos por observatórios como o Hubble e o satélite TESS. As anãs brancas são o núcleo remanescente de estrelas que esgotaram seu combustível. A atmosfera desta tem uma composição incomum: muito zinco, cobre e nióbio, elementos mais pesados que o ferro, sendo o nióbio detectado pela primeira vez numa anã branca. Em contrapartida, há pouco silício e nenhum ferro. Os dados do TESS registraram ainda uma variação de brilho com período de 4,399 dias, compatível com a presença de um planeta gigante em órbita próxima.
Para os autores, a abundância de nióbio e de outros elementos formados por captura lenta de nêutrons indica que o planeta nasceu dos gases lançados pela própria estrela quando ela passou pela fase de gigante. Hoje, a atração gravitacional e a radiação da anã branca evaporam a atmosfera desse planeta de segunda geração, e os gases acabam servindo de alimento à estrela.
As descobertas ampliam a compreensão sobre a evolução de sistemas estelares de baixa massa e sugerem a existência de uma nova subcategoria de planetas de segunda geração em torno de anãs brancas. Novas modelagens teóricas e grandes levantamentos do céu devem ajudar a esclarecer com que frequência essas interações ocorrem e como se formam.







