Ele viu o infinito: as revelações espetaculares do telescópio James Webb em 2025
O aparelho emociona, mexe com corações e mentes, ancorado em ciência razoavelmente simples, daí sua extraordinária beleza
Era uma promessa que mudaria para sempre o modo como a humanidade olharia para o céu — ou, posto de modo ainda mais avassalador, transformaria a maneira como enxergamos o universo, de onde viemos, ainda que seja impossível saber para onde vamos. O telescópio espacial James Webb, lançado em 2021, depois de 10 bilhões de dólares gastos numa parceria da Nasa com as agências espaciais da Europa e do Canadá, veria o passado das estrelas para oferecer o futuro da civilização. Cumpriu o esperado e foi além. Confirmou o status de mais poderosa ferramenta astronômica jamais construída pelo ser humano — e fez jus ao nome de batismo, que homenageia um reputado engenheiro dos primórdios da corrida para a Lua no fim dos anos 1960.
Em 2025, o Webb mostrou-se especialmente prodigioso, com revelações espetaculares. O leque de espelho da imensa traquitana identificou uma galáxia denominada MoM-z14, formada 280 milhões de anos depois do Big Bang. Ela está tão distante que, mesmo viajando na velocidade da luz, levaríamos 13,5 bilhões de anos para alcançá-la partindo da Terra. Os astrônomos encontraram também gelo em torno de uma estrela jovem, localizada a cerca de 160 anos-luz da Terra, chamada HD 181327. O objeto está cercado por um disco de detritos — uma espécie de anel formado por poeira e pequenos fragmentos espaciais. A presença de água nesses locais é de grande interesse, porque ela é essencial para a formação de planetas e para possível surgimento da vida. O Webb olhou com atenção nosso próprio sistema solar. Ao examinar o cometa interestelar 3I/Atlas, apresentou um novo herói do espaço, o mais antigo já descoberto, possivelmente com 7,5 bilhões de anos — a Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos. A beleza do feito: o 3I/Atlas é como um mensageiro do tempo, ao permitir o estudo de outras regiões do infinito sem que seja preciso, de fato, visitá-las.
Ao mirar o invisível, o James Webb emociona, mexe com corações e mentes, ancorado em ciência razoavelmente simples, daí sua extraordinária beleza. A sensibilidade do aparelho se deve, em parte, ao seu tamanho. Quanto maior o espelho principal de um telescópio, mais luz ele pode coletar — como um balde maior coleta mais água da chuva. E o Webb tem um espelho de 25 metros quadrados e 6,5 metros de diâmetro, uma enormidade para os padrões que existiam até agora. É natural que, nos próximos anos, ele produza outras descobertas, que podem não mudar o mundo em que vivemos, de guerras e estupidez, mas ao menos nos fará pensar — e então terá valido a pena, ao nos contar segredos e enigmas. É a pesquisa espacial a serviço do fascínio da humanidade pelo que vai acima de nós, no infinito. É alimento para anseio magistralmente resumido por uma frase do evangelizador da astronomia, Carl Sagan ( 1934-1996): “Às vezes acredito que há vida em outros planetas, às vezes acredito que não. Em qualquer dos casos, a conclusão é assombrosa”. Sigamos assombrados.
Publicado em VEJA de 24 de dezembro de 2025, edição nº 2976






