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Como encontrar um sentido para a vida em meio às mudanças da era digital

Pesquisa científica realizada nos EUA mostra que ter uma razão pela qual viver continua sendo fundamental para o ser humano

Por Sabrina Brito - Atualizado em 10 Jan 2020, 10h39 - Publicado em 10 Jan 2020, 06h00

“Os dois dias mais importantes da sua vida são aquele em que você nasceu e aquele em que descobre o porquê.” A máxima, atribuída ao escritor americano Mark Twain (1835-1910), autor de clássicos como As Aventuras de Tom Sawyer (1876), resume com precisão o valor de encontrar um propósito para a própria existência. Naturalmente, nunca é demais sublinhar, a busca por um sentido para estar vivo se confunde com o humano — ou, melhor ainda, com “ser” humano. Há cerca de 50 000 anos, quando, segundo achados recentes, o Homo sapiens começou a pintar nas paredes das cavernas, desenhávamos figuras místicas, como caçadores dotados de superpoderes, que pareciam auxiliar os homens daquela época a situar a si mesmos em meio ao desconhecido. De lá para cá, não existem indícios de que se possa chegar a uma razão única que justifique o viver — porém cada indivíduo pode descobrir a sua. Diante da pergunta “por que estamos aqui?”, feita durante uma entrevista, o escritor Charles Bukowski (1920-1994), alemão radicado nos Estados Unidos, destacou: “Para quem acredita em Deus, a maior parte das grandes questões pode estar respondida. Mas, para aqueles que não aceitam a fórmula de Deus, as grandes respostas não estão cravadas na pedra. Nós nos ajustamos a novas condições e descobertas”.

No rastro desse debate, outra indagação se impõe: afinal, vale tanto assim o esforço de refletir acerca dos motivos de estar na Terra? Um estudo publicado em dezembro no periódico científico Journal of Clinical Psychiatry (EUA) foi pioneiro ao garantir que, até mesmo do ponto de vista da saúde física e mental, vale, sim, a pena. O trabalho, realizado por cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego, compilou relatos de 1 042 americanos adultos e levou três anos para ser concluído. O veredicto: aqueles que revelavam ter descoberto sentido em sua vida demonstravam também melhores condições de saúde, tanto psicológica como física. Enquanto isso, ocorreu o contrário com os que declaravam estar no máximo em um processo de busca. Esses apresentavam, com maior frequência, problemas de saúde.

A pesquisa seguiu uma rigorosa metodologia. Após enviarem questionários aos voluntários, os integrantes da equipe envolvida no levantamento passaram a acompanhar as condições de saúde daqueles indivíduos, atestando desde vício em drogas variadas até problemas como ansiedade, insônia e depressão. Além de indicar a associação direta entre a adoção de um propósito para continuar vivo e o bem-estar físico e psicológico, o estudo chegou a outras conclusões importantes. Descobriu, por exemplo, que o ápice de satisfação com a própria rotina costuma ocorrer aos 60 anos, uma vez que pessoas nessa faixa etária relataram, com o dobro de frequência, sentir-se realizadas.

Antes dessa idade, afirmam os cientistas, os participantes ainda estavam incertos quanto ao futuro profissional e pessoal, o que provocava neles instabilidade. Conforme envelheciam, a vida ganhava estabilidade e a procura pelo sentido se concretizava. Depois dos 60, no entanto, avalia o trabalho, o cenário volta a piorar. À medida que a pessoa se distancia dessa fase, forma­-se um novo cenário, no qual usualmente se exige uma reformulação de qual seria o propósito da existência. Por fim, os pesquisadores são assertivos ao considerar que a pior situação é jamais definir um significado para estar vivo, pois com isso surgem picos de stress, além de uma variada gama de males psicológicos.

O neuropsiquiatra americano Dilip Jeste, o principal autor do estudo, ambiciona que os resultados levem a ações práticas. “Acreditamos no potencial de incentivarmos intervenções na vida das pessoas, sobretudo aquelas que estão na faixa etária hoje mais vulnerável a problemas psíquicos, por volta dos 20 anos”, disse ele a VEJA. “Essa geração tem enfrentado dificuldade em se encontrar no mundo. Exibir a ela a importância de se esforçar para isso, promovendo atendimentos psicológicos, é uma medida urgente”, alerta.

Outros trabalhos científicos recentes indicam ainda por que aqueles que declaram perceber sentido para a existência tendem a ser mais saudáveis. Também publicado em 2019, um estudo da Universidade de Michigan (EUA), por exemplo, demonstrou que pessoas com um desígnio delineado tendem a se exercitar mais, a se alimentar melhor e a apresentar menos stress. Contudo, por qual motivo têm enfrentado maiores empecilhos para chegar lá? “Na sociedade atual, há um número enorme de indivíduos que não se veem satisfeitos com nenhum dos sentidos sugeridos pelas gerações anteriores. Estamos imersos em uma epidemia de perda de sentido”, responde Francisco Rodrigues, doutor em psicologia pela USP e especializado em analisar períodos de mal-estar social.

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Uma tese desenvolvida há mais de um século pelo sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) ajuda a explicar o que se passa nos dias de hoje. Segundo o pensador — um monumento em seu campo de atuação —, em épocas de mudanças drásticas na estrutura social é esperado que leve certo tempo para que os cidadãos se adaptem, antes de encontrarem novas razões para viver. Foi assim, por exemplo, ao longo da Revolução Industrial no século XVIII. O fenômeno, alvo de estudo de Durkheim, deixou profundas marcas na população. Índices de depressão, ansiedade e suicídio se multiplicaram nas áreas sob industrialização. Para o sociólogo, isso criou uma “anomia”, algo que ocorre, conforme escreveu em O Suicídio — Estudo de Sociologia (1897), quando “todos os frutos da ação social ficam perdidos no que se refere a eles, e tem de se refazer a educação moral”. De acordo com essa hipótese, em tais situações nos tornamos propensos a problemas psicológicos ou mesmo a dar fim à própria vida, pois “as atividades dos homens estão desregradas, o que os faz sofrer”.

No mundo contemporâneo, existe um ambiente similar. “Isso se deve à forma majoritariamente científica e tecnológica pela qual passamos a encarar tudo”, teoriza o psicólogo canadense John Vervaeke, da Universidade de Toronto, ouvido para esta reportagem. “A nossa visão de mundo é ótima para explicar muitas coisas, entretanto não consegue abordar o significado da vida, ou como alcançá-lo.” Mergulhado na era digital, o ser humano atual pode ter se tornado apático diante de questões, digamos, metafísicas. Pesquisas mostram, por exemplo, que aqueles que gastam mais de dez horas semanais em redes sociais apresentam probabilidade 56% maior de desenvolver depressão. Os que acessam esses sites e apps ao menos uma vez por dia têm aumento de 20% no risco de sofrer distúrbios relacionados à falta de sono. Tudo isso somado levou a uma assustadora constatação: a geração que já nasceu amplamente conectada enfrenta uma avalanche de doenças psicológicas, com os 56% mais jovens relatando esses problemas, em comparação com o início dos anos 2000. Pior: no período de 2000 a 2015, houve um alarmante crescimento de 65% na taxa de suicídio entre adolescentes. Foi a primeira vez que se constatou risco 40% maior de um jovem se matar em relação a um adulto.

O ápice da satisfação com a vida é aos 60 anos, quando as pessoas relatam, com maior frequência, se sentir realizadas

Há solução? “Preste atenção no presente, em vez de se distrair com múltiplas tarefas. Aplique energia em ações de maior significado”, ensina o neurocientista John Gabrieli, do Instituto de Tecnologia de Massachu­setts (MIT), universidade americana, que falou a VEJA.

Do mesmo modo que, para enfrentar o mal-estar da civilização decorrente da Revolução Industrial, métodos terapêuticos como o psicanalítico prosperaram, hoje em dia práticas como o mindfulness se tornam cada vez mais populares (veja o quadro). Relatos de quem teve sucesso na extraordinária jornada de busca pelo sentido da existência — como os que aparecem ao longo desta reportagem — auxiliam quem está empenhado na mesma procura. A todos vale a sugestão do paleontólogo americano Stephen Jay Gould (1941-2002): “Não podemos ler o significado da vida passivamente (…) Temos de construir essas respostas, a partir da nossa sabedoria”.


Lailson Santos/.

FÁBIO GARGITTER,
57 anos, paulistano, mora em São Bento do Sapucaí (SP)
Arquiteto, é dono da pousada Clorofila

O que o move“Restaurar parte do estrago que fizemos no mundo.” Há onze anos seu objetivo é recuperar uma porção da Mata Atlântica

Como descobriu isso — Ao deixar a capital paulista, em 2008, depois de quatro décadas de atuação no ramo da publicidade, e mudar-se para São Bento do Sapucaí, Gargitter optou por viver perto da natureza. Construiu sua casa e hoje se alimenta do que planta. Decidiu, então, recuperar uma área que comprou, com 42 000 metros quadrados

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Por que lhe faz bem — Além de se sentir à vontade no local que escolheu para habitar — “Aqui encontro a paz” —, Gargitter se realiza ao se empenhar para a sobrevivência, em seu terreno, de animais e plantas praticamente extintos no restante da região


Pedro Garrido/.


JAMES GULBRANDSEN,
46 anos, americano, reside no Rio de Janeiro
Gestor de investimentos

O que o move“Na juventude, minha família passou por dificuldades financeiras. Agora que tenho condições, quero ajudar”, diz ele, que se dedica a causas sociais. Já arrecadava doações na faculdade. Em 2019, lucrou com a venda de ações da Vale antes da tragédia de Brumadinho e doou os ganhos às vítimas. Nos últimos dois natais, coletou toneladas de brinquedos, comidas e roupas para 400 jovens do Complexo do Alemão

Como descobriu isso — Durante a experiência de residir em Cabo Verde, na África, por quatro meses, em 1993, para prestar serviço comunitário enquanto cursava economia numa universidade dos Estados Unidos

Por que lhe faz bem — “Ajudar o outro me enche de alegria. Sinto que estou fazendo a minha parte”


Marcus Desimoni/Nitro

CAROLINA DINI,
32 anos, mineira, vive em Belo Horizonte
Cursou direito, porém hoje se dedica à gastronomia

O que a move“Mostrar a todos a diversidade da comida e a importância da culinária. Dar atenção a essa atividade garante minha própria qualidade de vida”, afirma ela, que ensina a técnica de cozinhar no meio de uma horta própria

Como descobriu isso — Em 2014, Carolina começou a buscar alternativas à rotina jurídica, que considerava cansativa. Após dois anos, ela se “encontrou” em um curso de culinária. Por questões financeiras, conciliou a paixão com o emprego regular. Em 2018, abandonou o trabalho como advogada para virar professora no projeto que criou, o Cebola na Manteiga

Por que lhe faz bem — Carolina assegura que, além de melhorar seu humor, seus relacionamentos e sua saúde, a dedicação à gastronomia dá a ela “algo pelo que acordar todas as manhãs”

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Pedro Garrido/.

JACIARA CARVALHO,
29 anos, carioca, mora no Rio
Estudante de biblioteconomia e youtuber (do canal Jacy July)

O que a move“Ajudar mulheres negras a gerar renda extra por meio do empreendedorismo.” No Jacy July, com 366 000 inscritos, mostra como fazer penteados e tratamentos capilares específicos para as afrodescendentes

Como descobriu isso — Nascida em uma família simples de um dos bairros com menor IDH do Rio de Janeiro, o Pedra de Guaratiba, cresceu, ao lado de nove irmãos, vendo a mãe pentear cabelos crespos. Depois de tentar vários empregos, ao mesmo tempo que fazia tranças em outras mulheres para ganhar um dinheiro extra, criou seu canal no YouTube, em 2011

Por que lhe faz bem — Ela diz sentir que está fazendo seu papel para ajudar a comunidade negra e também mulheres que enfrentam dificuldades — em especial o racismo e a desigualdade

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Lailson Santos/.

WILLIAM CÂMARA,
43 anos, paulistano, reside em São Paulo
engenheiro, abandonou a profissão para virar instrutor de ioga

O que o move“Entendo e vivo meu propósito de vida: ter paciência para manter consistência em seguir um plano, sem me desviar do que quero sentir e de como posso contribuir.” Por essa razão, após doze anos de prática, fundou uma escola de ioga no Morumbi, bairro da capital paulista

Como descobriu isso — Com a ioga, que começou a praticar em 1998 por indicação de uma prima, que lhe sugerira o exercício para diminuir a agressividade. “Quebrei uma porta automática porque ela não abriu rápido”, conta. Em 2010, largou o emprego numa multinacional e abriu seu negócio

Por que lhe faz bem — “Estava numa situação financeira confortável, mas faltava algo. A ioga me preencheu.” A possibilidade de impactar os outros por meio do ensino da atividade é o que o guia “para a felicidade”

Com reportagem de André Lopes

Publicado em VEJA de 15 de janeiro de 2020, edição nº 2669

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