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Botar ovos pode ter levado dinossauros à extinção

Extinção dos grandes répteis, há 65 milhões de anos, pode ter acontecido por uma desvantagem adaptativa causada pela oviparidade

Um estudo publicado nesta quarta-feira na revista Biology Letters traz novos argumentos para explicar por que os mamíferos sobreviveram aos fenômenos que deram fim ao período Cretáceo (de 145 a 65,5 milhões de anos atrás), e os dinossauros foram extintos. Os pesquisadores da Universidade de Zurique, na Suíça, acreditam que uma das principais causas da extinção dos grandes répteis é o fato de serem ovíparos.

Segundo o estudo, os filhotes de dinossauros nasciam muito pequenos, justamente por serem ovíparos. O crescimento desses animais era limitado pela estrutura do ovo, que tem restrições de tamanho – a casca precisa ser fina o bastante para permitir que o oxigênio chegue até o embrião em desenvolvimento.

Saiba mais

VIVÍPAROS

Animais vivíparos, como a maioria dos mamíferos, são aqueles cujos embriões se desenvolvem dentro da mãe.

OVÍPAROS

Os ovíparos são animais que botam ovos – ou seja, o embrião se desenvolve fora do corpo da mãe.

O tamanho reduzido desses filhotes provocava desvantagem na competição por alimentos. Alguns nasciam pesando entre dois e dez quilos e chegavam a alcançar entre 30 e 50 toneladas na idade adulta. “Durante o crescimento, os jovens dinossauros tinham que competir por comida com adultos de outros grupos animais e de tamanhos diferentes”, diz o cientista Marcus Clauss, da Universidade de Zurique.

Nessas condições, o estudo mostrou que os animais vivíparos tinham vantagem sobre os ovíparos. Com exceção do ornitorrinco, o restante dos mamíferos é vivíparo. Os cientistas consideram essa característica como um dos fatores que contribuíram para que esses animais sobrevivessem aos fenômenos que devastaram a Terra. Como os embriões são desenvolvidos dentro do corpo da mãe, não sofrem da mesma limitação de espaço para crescimento que os dinossauros. Clauss mostra outra vantagem dos mamíferos.

“Além dos filhotes não nascerem tão pequenos, se comparados aos dinossauros, eles não precisavam competir por comida com outras espécies, já que eram amamentados por suas mães.”

Opinião do especialista

Luiz Anellipaleontólogo, professor do Instituto de Geociências da USP e autor dos livros O Guia Completo Dos Dinossauros do Brasil e Dinos do Brasil (Editora Petrópolis)

“Após o nascimento, os filhotes de dinossauros tinham que atravessar vários nichos devido às proporções de tamanho pelas quais passavam durante o desenvolvimento. Nasciam com o tamanho de um ratão, cresciam para o tamanho de um cachorro, depois de uma vaca, um elefante, dois elefantes, e assim até se tornarem adultos enormes e então começar a vida reprodutiva. Tudo isso significava ocupação de nichos distintos em cada estágio, o que caracterizava muita sobreposição até a fase adulta reprodutiva, e sobreposição significava competição.

“Com a vinda do asteroide e intenso vulcanismo no final da era dos dinossauros, veio a ruptura dos ecossistemas em toda a Terra, eliminando especialmente as linhagens gigantes, de vida complicada, cuja vida reprodutiva incluía a passagem por uma juventude complexa. O resultado é que os mamíferos que já sustentavam uma diversidade bastante alta de pequenos animais, e isso significava a ocupação de diferentes ambientes, se apoderaram definitivamente dos ecossistemas terrestres. Neste cenário, os grandões viram seus filhotes serem subjugados em diferentes tentativas de recomposição das populações. Sem novas gerações, as espécies minguaram até desaparecerem completamente.

“Uma grande lição que podemos tirar deste cenário é que quando buscamos as causas dos vários períodos de extinção ocorridos na história da Terra, sempre nos concentramos mais nas características do evento extintor, imaginando ‘quão grande deve ter sido o asteroide’, ‘o vulcanismo deve ter sido muito poderoso’ ou ‘doenças terríveis afetaram as espécies’, mas além disso, devemos sempre levar em conta a situação ecológica na qual as espécies se encontravam, se estavam ou não preparadas para mudanças no ambiente no qual viviam.”