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As chamas do descaso

Nos primeiros dias depois do incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, a estimativa era de que cerca de 90% da coleção tinha sido destruída

Na noite de 2 de setembro, o edifício do Museu Nacional, no Rio, antiga residência dos imperadores do Brasil, transformou-se em uma imensa e tristíssima fogueira. O prédio histórico, que completara dois séculos em junho, guardava em seu acervo mais de 20 milhões de itens. O crânio de Luzia, o fóssil mais antigo encontrado nas Américas, de quase 12 000 anos, estava lá. Nos primeiros dias depois da tragédia, a estimativa era de que cerca de 90% da coleção tinha sido destruída. Divulgou-se também que a instituição se encontrava em situação irregular junto ao Corpo de Bombeiros e que as condições precárias do edifício vinham sendo investigadas pelo MPF havia dois anos. O museu não tinha seguro.

Logo que as primeiras imagens das gigantescas labaredas devorando o prédio começaram a ser veiculadas, muitos pesquisadores que desenvolviam trabalhos na instituição correram para o local, em uma tentativa de salvar objetos e documentos. A geóloga Patrícia Quadros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, à qual o museu está atrelado, foi uma das primeiras a chegar ao edifício em chamas. “Perdemos o maior acervo da América Latina. Perdemos toda a nossa história e a história que a gente estava construindo”, disse ela. “É necessário que o poder público olhe para o Brasil e pense no significado da nossa memória histórica”, disse o biólogo Roberto Leher, reitor da UFRJ.

O episódio tornou-se um lastimável símbolo do descaso para com a ciência no país. De dez anos para cá, os museus nacionais receberam apenas um terço do que pediram, via Lei Rouanet, para preservar seu acervo. No Brasil há 3 800 instituições desse gênero cadastradas. Na última década, foram submetidos ao MinC 215 projetos com o intuito de preservação. Destes, 76 não conseguiram captar recursos. Segundo a Agência Lupa, desde 2009 somente seis dos trinta museus administrados pelo governo federal apresentaram iniciativas para conservação de patrimônio. Com o fogo domado, o Planalto anunciou a criação de uma rede para viabilizar a reconstrução do museu no tempo mais breve possível. Nada ainda saiu do papel.

Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614