A nova narrativa sobre a dispersão dos humanos pelos continentes

Estudo determina o ponto exato do nascimento dos primeiros 'Homo sapiens'; dali, começaram a se espalhar pelo mundo

Por Sabrina Brito - Atualizado em 1 nov 2019, 10h43 - Publicado em 1 nov 2019, 06h00

Poucas perguntas são mais fascinantes, na antropologia, do que a indagação primordial: em que canto do planeta surgiram os primeiros humanos anatomicamente modernos, nossos parentes mais distantes, os Homo sapiens? Estudos deflagrados na década de 80 apontavam a origem para algo em torno de 200 000 anos atrás numa região próxima ao Quênia, no leste da África. Um extenso trabalho publicado na prestigiada revista Nature, divulgado na segunda-feira 28, mudou o curso dessa história ao determinar, pela primeira vez, um ponto preciso no mapa-múndi da pátria ancestral. Ele fica em Botsuana, à margem do Rio Zambeze, mais ao sul, portanto, do continente africano. O lugar, nas cercanias do que um dia foi o Lago Makgadikgadi, um paraíso na terra, verdejante, de vasta diversidade de fauna e flora, hoje virou uma imensa planície deserta e salgada, avessa à vida — resultado de dramáticas mudanças climáticas. “Já sabíamos, com alguma certeza, que os humanos modernos vieram da África, mas não de onde exatamente”, diz Vanessa Hayes, geneticista do Instituto de Investigação Médica Garvan de Sydney, uma das coordenadoras da pesquisa.

A cápsula do tempo que levou à descoberta foi montada a partir da investigação do DNA mitocondrial, passado de mãe para filho, até hoje, em grupos que compõem a chamada linhagem L0. Essa família de DNA é a mais antiga encontrada entre humanos. “O DNA mitocondrial revela as mutações acumuladas ao longo das gerações. Ao sequenciá-lo, chega-se ao parentesco entre diferentes povos”, disse a VEJA a geneticista Eva Chan, coautora do trabalho.

Mas, afinal de contas, de que vale saber que nascemos em uma porção da África e não em outra, para além do espanto científico? A revelação inaugura uma outra narrativa em torno da dispersão dos humanos pelos continentes a partir do marco zero. Em laboratório, os pesquisadores foram capazes de reproduzir o clima daquela região. Intuíram vigorosas alterações no padrão de chuvas. Durante pelo menos 70 000 anos após o nascimento do Homo sapiens houve estabilidade. Deu-se a seca. Depois, 130 000 anos atrás e, posteriormente, 110  000 anos atrás, as mudanças climáticas provocadas por alterações no regime de chuvas, depois de pequenos desvios do eixo terrestre, abriram corredores verdes por onde passaram os humanos a caminho de novas plagas. “Esse projeto é sobre as pessoas que andam por aí nos dias de hoje”, resumiu Vanessa Hayes. Temos, agora, o CEP 00000-000, de onde saímos.

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Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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