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“A Nasa me reconheceu”

Carlos Eduardo da Paixão, 18 anos, fez uma descoberta que o alçou ao seleto hall da fama da agência americana

Por Duda Monteiro de Barros Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 jun 2026, 08h00
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Desde muito cedo, a tecnologia faz parte da minha vida. Adorava ficar horas montando aqueles projetos de robô cheios de peças. Sempre gostei de videogame e computador, mas o que mais me interessava mesmo era entender como tudo funcionava por trás das telas. Aos 9 anos, comecei a estudar robótica e logo quis aprender as linguagens de programação e códigos. A matemática era e é minha matéria favorita, a que mais me diverte e estimula. Também a curiosidade pelo tema da segurança cibernética não demorou a aparecer, alimentada pelos filmes. Queria mergulhar nesse mundo para saber como as redes podem ser invadidas e protegidas. O tempo foi passando e hoje, aos 18, vejo esse caminho me levando a um lugar onde eu, um menino comum de Campo Grande, jamais imaginei estar. Entrei para o seleto hall da fama da Nasa, nos Estados Unidos, por um feito do qual me orgulho: consegui identificar uma vulnerabilidade em um dos sistemas de lá.

No início do ano, esbarrei com uma notícia antiga que me chamou a atenção — um homem chamado Carlos Eduardo, formado em TI, havia recebido uma carta da Nasa após seis meses tentando encontrar falhas de segurança nos sites da agência. Aquilo mexeu comigo. Pensei que não poderia ser coincidência alguém com o mesmo nome que o meu alcançar algo tão grandioso justamente na área que eu mais admirava. Descobri então um programa parceiro da Nasa que permite a pesquisadores independentes testarem a segurança de seus sistemas. Passei dias imerso nisso. Dormia pensando no problema e acordava debruçado sobre trilhas para chegar à solução. Acabou dando certo: consegui rastrear uma vulnerabilidade que serviria como porta para o acesso indevido a credenciais de pessoas da agência, o que permitiria o ingresso na base de gente mal-intencionada se passando por elas. As consequências de um defeito como esse são incalculáveis. Enviei à Nasa o relatório para avaliação e esperei um mês, entre análises técnicas e processos internos. Em maio, depois de uma espera cercada de ansiedade, recebi a tão esperada carta de agradecimento pela descoberta.

Quando vi a notificação no celular, senti que todo o esforço até aqui tinha valido a pena, dentro e fora da sala de aula. Aos 15, entrei no programa Voucher Desenvolvedor, do governo do Mato Grosso do Sul, experiência que ampliou meu contato com a programação e reforçou a certeza de que eu queria seguir nessa direção. Em paralelo, investi para valer em hobbies que também exigiam raciocínio lógico, como o cubo mágico e o xadrez, participando de competições. Consegui bolsa de estudos em um curso técnico de desenvolvimento de sistemas enquanto ainda cursava o ensino médio e venci duas maratonas de programação consecutivas. Recentemente, terminei a escola e me matriculei em duas faculdades: análise e desenvolvimento de sistemas e defesa cibernética. Me estimula muito a ideia de ultrapassar limites e transformar o que aprendo em conhecimento prático e útil.

Sou fascinado pelo universo, por foguetes e astronomia, e já me passou pela cabeça até ser astronauta. Estudei desde pequeno esses temas por conta própria, com o incentivo dos meus pais. Nasci e cresci longe dos grandes polos de tecnologia do país, mas nunca encarei isso como um limite. Pelo contrário: acredito que inovação não se restringe apenas às metrópoles. O Brasil está despertando para a relevância estratégica da tecnologia, um campo em que ainda fica bem atrás dos Estados Unidos e da União Europeia. Mesmo assim, vejo um potencial enorme na formação de profissionais brasileiros capazes de competir em qualquer lugar do mundo. Somos um dos países mais afetados por ataques cibernéticos, o que mostra o quanto precisamos investir cada vez mais em conhecimento, pesquisa e desenvolvimento. Vou continuar estudando, e muito, para tentar fazer algo novo e relevante. Quem sabe um dia a Nasa me contrata.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998

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