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A corrida espacial dos bilionários está apenas no começo

O fundador da Amazon vai ao cosmo em seu próprio foguete, alimentando uma indústria feita de sonhos e de persistência

Por Sergio Figueiredo Atualizado em 23 jul 2021, 08h45 - Publicado em 23 jul 2021, 06h00

O logotipo da Blue Origin é adornado por uma pena — símbolo da perfeição aerodinâmica das aves originárias deste planeta azul. Existe, porém, um outro animal, sem qualquer intimidade com o voo, estampado no brasão da companhia. Trata-se de uma tartaruga, e ela foi posta ali para lembrar aos colaboradores que a lebre, de tanto procrastinar e menosprezar a concorrente, um dia acabou perdendo a corrida para ela. Jeff Bezos, 57 anos, fundador da Blue Origin, é fascinado por essa fábula, tanto que adotou o lema em latim Gradatim Ferociter (passo a passo, com coragem) para nortear seus empreendimentos. Em avanço cadenciado, ele transformou a Amazon — uma loja de garagem no então incipiente mercado de livrarias virtuais dos anos 1990 — não apenas no maior serviço de e-commerce do mundo, mas também na maior provedora de computação em nuvem. Tempos depois, assim que a Amazon passou a andar com as próprias pernas, Bezos decidiu investir em seu sonho de juventude: uma empresa de naves reutilizáveis como aquelas da ficção científica que ele tanto admira. Na última terça-feira, 20, depois de duas décadas de trabalho e com a tenacidade da tartaruga, ele decolou do deserto do Texas, flutuou no espaço e voltou em segurança, fazendo turismo espacial em seu próprio foguete.

PASSEIO - Bezos arremessa uma bola na ausência de peso: três minutos flutuando -
PASSEIO - Bezos arremessa uma bola na ausência de peso: três minutos flutuando – Blue Origin/AFP
RETORNO DO ESPAÇO - Daemen, Bezos (de chapéu) e Wally Funk (no fundo): o mais jovem, o mais rico e a mais idosa -
RETORNO DO ESPAÇO - Daemen, Bezos (de chapéu) e Wally Funk (no fundo): o mais jovem, o mais rico e a mais idosa – Blue Origin/Getty Images

É difícil imaginar o homem mais rico do mundo, com fortuna de 200 bilhões de dólares, colocando a si próprio na posição do jabuti, mas a paródia faz sentido quando são levadas em conta as lebres que estão competindo no mercado aeroespacial. De empresas consolidadas no setor, como a centenária Boeing, a entrantes como a Virgin Galactic, que bateu a Blue Origin levando Richard Branson ao espaço nove dias antes de Bezos, há dezenas de multinacionais lutando para abocanhar um pedacinho do céu, entre as quais se destaca a SpaceX, de Elon Musk, que também é dono da fábrica de carros elétricos Tesla e hoje ocupa o segundo lugar no ranking dos bilionários. Musk, por sinal, não perde a chance de alfinetar seus concorrentes no Twitter, rede social na qual tem mais de 58 milhões de seguidores. Quando, em novembro de 2015, a Blue Origin realizou o inédito voo suborbital e pouso vertical com o protótipo do foguete que voou na terça, Musk cumprimentou Bezos pela conquista, porém lembrou que seria necessário um lançador mais potente para pôr cargas em órbita — fazendo referência ao foguete Falcon 9 que ele estava construindo. A SpaceX, a propósito, goza de excelente reputação junto à Nasa, desde que passou a transportar astronautas até a Estação Espacial Internacional (ISS), algo que tanto a Blue Origin quanto a Virgin Galactic ainda são incapazes de fazer. Essa expertise permitiu que a empresa de Musk conquistasse um cobiçado contrato de 2,89 bilhões de dólares para fabricar o módulo que descerá na Lua em 2024, uma licitação que está sendo questionada pela Blue Origin no Congresso americano desde abril.

Precursor Branson no espaço: novas fronteiras
PRECURSOR - Branson no espaço: novas fronteiras – Virgin Galactic/.
NA FILA - Jared Isaacman: voo orbital de três dias pela SpaceX -
NA FILA - Jared Isaacman: voo orbital de três dias pela SpaceX – Patrick T, Fallon/AFP

A corrida espacial dos bilionários tem motivação nos lucros, mas ego e marketing pessoal também contam. Enquanto Bezos, com sua calvície reluzente e visual de vilão de quadrinhos, transmite pouca simpatia, Musk e Branson fazem o gênero Tony Stark, gênio dos filmes da Marvel que combate o crime como Homem de Ferro. Branson, que acaba de completar 71 anos, tratou de antecipar seu voo quando foi informado que Bezos decolaria no dia 20 de julho. Sua missão, ainda que bem diferente do método usado pela Blue Origin, foi bem-sucedida e ele galvanizou a atenção da imprensa por ter inaugurado, sim, o turismo espacial. O voo da Blue Origin, por outro lado, alcançou marcas que dificilmente serão batidas pela Virgin Galactic. Bezos chegou em segundo, mas voou de foguete, foi mais alto — ultrapassando Kármán, a linha imaginária que separa a atmosfera do espaço — e levou consigo, além de seu irmão Mark, o primeiro cliente pagante: o holandês Oliver Daemen, um jovem de 18 anos que teve sua passagem custeada pelo pai por valor não revelado. A bordo da cápsula First Step (cuja tradução é “primeiro passo” e, portanto, mais uma referência à tartaruga) estava também Wally Funk, aviadora pioneira que fez parte da Nasa, mas que nunca conseguiu ir ao espaço. Com 82 anos, a ex-instrutora de voo jamais teria recursos para pagar pelo passeio (um único assento foi leiloado por 28 milhões de dólares), porém ela não precisou se preocupar com isso, pois viajou como convidada de Bezos. Em troca, ela ajudou a Blue Origin a bater um recorde adicional ao transportar a astronauta mais idosa ao lado do mais jovem. Como turistas, entretanto, nenhum dos quatro precisou pilotar a cápsula, que desceu autonomamente dez minutos após a decolagem — assim como o foguete New Shepard, que pousou sozinho no deserto, como um bom robô faria.

1971- Alan Shepard: dez anos entre o voo suborbital e o pouso na Lua -
1971- Alan Shepard: dez anos entre o voo suborbital e o pouso na Lua – //Nasa

Tanto a Blue Origin quanto a Virgin Galactic concluíram o que se propuseram a fazer. No entanto, em menos de dois meses, seus feitos serão eclipsados pela SpaceX, que promete mais do que curtos voos suborbitais. Utilizando uma cápsula Dragon adaptada, de configuração semelhante à nave que tem levado astronautas à ISS, a SpaceX de Musk vai manter quatro passageiros em órbita por três dias, a mais de 400 quilômetros de altitude. Musk não estará a bordo, mas a missão, batizada de Inspiration4, será capitaneada por outro bilionário: o americano Jared Isaac­man, que fez fortuna com uma empresa de pagamentos eletrônicos. Apaixonado por aviação, Issacman tem licença para pilotar jatos, mas, se tudo der certo, não precisará assumir o controle da Dragon, que também é autônoma. O magnata de 38 anos não só financiou a viagem para ele e mais três pessoas como está doando uma vultosa soma a um hospital infantil, mostrando um caminho diferente para o futuro do turismo espacial, associando o passeio a ações mensuráveis para o bem da humanidade.

Bezos escolheu 20 de julho para seu voo porque é a data histórica do pouso da Apollo 11 na Lua, em 1969, ápice da primeira corrida espacial entre americanos e soviéticos. A Nasa foi ao satélite natural da Terra em nome da ciência e da humanidade, como Isaacman destaca ser a finalidade de sua missão. O ser humano, no entanto, não foi feito para negar seu espírito de aventura, muitas vezes acalentado pelo ego sedento de glórias. Alan Shepard, primeiro americano no espaço, teve de se esforçar para conter a frustração de ter perdido a disputa para o russo Yuri Gagarin, que voou antes dele, em 12 de abril de 1961. A dedicação de Shepard ao programa espacial seria recompensada dez anos depois, quando ele foi embarcado na Apollo 14, a terceira missão a pousar na Lua. Shepard, que faleceu em 1998, não conseguiu ser o primeiro no espaço nem na superfície lunar, mas seu nome foi escolhido para batizar o primeiro foguete da Blue Origin — justa homenagem a um resiliente astronauta, que, assim como Bezos, talvez gostasse de ouvir na infância a fábula da presunçosa lebre que perdeu a corrida para a tenaz tartaruga.

Publicado em VEJA de 28 de julho de 2021, edição nº 2748

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