Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br
Abril Day: Assine VEJA por apenas 9,90

Um documento para a história do Brasil

Morre em Belo Horizonte, aos 73 anos, César Ferraz, o jornalista que revelou em VEJA o discurso de posse que Tancredo Neves não pôde fazer, em 1985

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 ago 2025, 12h25 • Atualizado em 29 ago 2025, 13h30
  • “Com 38 dias e uma eternidade de atraso, Tancredo de Almeida Neves subiu a rampa do Palácio do Planalto às 17h45 de segunda-feira da semana passada. No dia 15 de março, esperara-se que sua figura miúda percorresse aquelas lajotas de mármore branco a caminho do poder, do restabelecimento da linhagem dos governantes civis e de uma nova República. Agora, via-se uma das cenas mais tristes e desconcertantes da história do Brasil”. Assim, na edição com a data de capa de 1.º de maio de 1985, VEJA abria a reportagem a respeito da morte de Tancredo, em 21 de abril.

    A terrível travessia, que poderia ser o atalho para armadilhas na contramão do republicanismo, representou um momento de força das instituições – o vice-presidente José Sarney tomaria posse, em acordo preservado e defendido por uma das grandes lideranças do país, o deputado federal Ulysses Guimarães (1916-1992). Na morte, Tancredo forjara a unidade política que buscou em vida. Sem que pudesse exprimir em palavras a transição da ditadura para a democracia, internado durante mais de um mês no Instituto do Coração, em São Paulo, construíra um edifício sólido – edifício de defesa do estado de direito que só viria a ser ameaçado pela trama golpista comandada por Jair Bolsonaro, agora em julgamento no STF.

    Capa de VEJA: edição de 31 de julho de 1985
    Capa de VEJA: edição de 31 de julho de 1985 (Arte/VEJA/Reprodução)

    Havia, entre os políticos e jornalistas, depois da passagem de Tancredo, um segredo de polichinelo que todos almejavam: o discurso que ele faria na posse, e que evidentemente não pôde proferir. Obtê-lo seria um troféu. O feito coube ao chefe da sucursal de VEJA de Belo Horizonte, Lívio César Carvalho Ferraz, conhecido como César Ferraz, então com 33 anos. Calmo, de conversa a um só tempo educada e firme, afável, profundo conhecedor dos bastidores do poder em Minas Gerais, era muito respeitado pelo então governador, Hélio Garcia (1931-2016), um dos discípulos de Tancredo. Muitos outros repórteres circulavam ao redor de Garcia, é natural, com o mesmo objetivo. Mas foi César quem conseguiu o furo de reportagem. Um certo dia, em meados de julho daquele 1985, o mandatário capitulou: “O discurso tá comigo, menino”.

    César, numa alta madrugada de fechamento, feliz como um menino, enviou as páginas datilografadas por fax para a redação da revista, em São Paulo. O editor, que esperava o documento na sala onde ficava a barulhenta máquina, ansioso, passou o olho na joia e telefonou para Belo Horizonte com a ironia que celebrava a conquista: “César, você vai ocupar muitas páginas da VEJA sem ter escrito uma linha.” O discurso ocuparia 8 páginas, com uma chamada lateral de capa: “Exclusivo: o discurso que Tancredo não pôde fazer no dia da sua posse”. O título principal anunciava: “Os 100 dias de Sarney”. No canto esquerdo, uma outra notícia: “Aids: o drama de Rock Hudson”.

    Continua após a publicidade

    Alguns dos trechos do que Tancredo escreveu – se não sua totalidade –, lidos hoje, representam o avesso da chicana contra a democracia, símbolo de respeito aos outros, da aceitação de derrotas e sobretudo da permanente luta contra a chaga brasileira, a desigualdade.

    Do discurso de Tancredo:

    “Esta solenidade não é a do júbilo de uma facção que tenha submetido a outra, mas a festa da conciliação nacional.”

    “Há razões singelas para que haja mais amor à pátria no povo do que entre algumas de suas elites.”

    Continua após a publicidade

    “O exacerbado egoísmo das classes dirigentes as tem conduzido ao suicídio social.”

    “Os que burlarem a confiança popular em meu governo podem estar certos de que tudo faremos para que restituam, centavo a centavo, o que tenham desviado, como atuará o Ministério Público no sentido de que paguem o seu crime na cadeia.”

    “As mãos anônimas do povo indicaram-nos, com o protesto e a esperança, a trilha democrática.”

    Continua após a publicidade

    “Começamos hoje a viver a Nova República. Deixemos para trás tudo o que nos separa e trabalhemos sem descanso para recuperar os anos perdidos na ilusão e no confronto estéril. Estou certo de que não nos faltará a benevolência de Deus. Entendamos a força sagrada desse momento, em que o povo retoma, solenemente, o seu próprio destino.”

    Ex-chefe da Sucursal de Veja em Belo Horizonte
    César Ferraz: Ex-chefe da Sucursal de Veja em Belo Horizonte (Arquivo pessoal/Reprodução)

    César Ferraz,  que seguiu à risca uma das mais celebradas definições de sua atividade, o jornalismo como rascunho da história, morreu em 28 de agosto, aos 73 anos, de complicações decorrentes do Alzheimer. Depois de VEJA, depois de iluminar a visão de mundo de Tancredo, em uma das mais bonitas revelações da revista, trabalharia no grupo Hoje em Dia, foi assessor de imprensa de diversos restaurantes mineiros e tratou de cuidar da casa que construiu em Nova Lima – sempre modesto, a modéstia como sinônimo de inteligência.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.