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Sleeping Giants Brasil: “Governo dissemina ódio com dinheiro público” 

Perfil no Twitter criado para desmonetizar sites conhecidos por disseminar notícias falsas despertou ira de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro

Por André Siqueira - Atualizado em 30 Maio 2020, 11h50 - Publicado em 29 Maio 2020, 11h58

Em novembro de 2016, o publicitário americano Matt Rivitz criou o Sleeping Giants, perfil no Twitter destinado a informar empresas que suas marcas estavam sendo anunciadas em sites de extrema-direita e conhecidos por disseminar notícias falsas. Na maioria dos casos, as companhias não sabiam que os conteúdos estavam vinculados a esses portais.

Um dos portais que esteve na mira do Sleeping Giants foi o Breitbart News, que já foi dirigido por Steve Bannon, ex-estrategista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em poucos meses, o site de extrema-direita perdeu cerca de 8 milhões de euros em publicidade. Menos de quatro anos depois, a iniciativa chegou ao Brasil e, em pouco mais de uma semana, gerou enorme repercussão.

Em um de seus primeiros atos no país, o Sleeping Giants Brasil alertou o Banco do Brasil que a marca expunha anúncios no portal Jornal da Cidade Online, conhecido por disseminar notícias falsas e apoiado por seguidores do presidente Jair Bolsonaro. O banco, então, tomou a decisão de retirar seus anúncios do site. A iniciativa despertou a ira de bolsonaristas, entre eles o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o secretário de comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten, que acusaram o Sleeping Giants de ser movido por “viés ideológico” em suas denúncias.

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Diante da repercussão negativa entre apoiadores de Bolsonaro, o Banco do Brasil retirou a restrição de publicidade no site. Na quarta-feira 27, no entanto, o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas, atendeu a um pedido do Ministério Público de Contas, que alegou interferência indevida na área de comunicação social do banco por parte de Carlos Bolsonaro e manteve a proibição da empresa estatal anunciar no site. “É realmente triste assistir o aparelho governamental interferir e fazer uso do dinheiro do povo para empregá-lo em discursos odiosos e na disseminação de notícia falsas, visando apenas o ganho político em seu favor”, afirmou a VEJA o criador da página brasileira. Os responsáveis pelo Sleeping Giants dizem ainda que o presidente Jair Bolsonaro apoia o modus operandi de sites que disseminam notícias falsas.

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Abaixo, os principais trechos da entrevista:

O Sleeping Giants Brasil foi criado há uma semana e gerou grande repercussão. Como enxerga isto? Enxergamos de modo positivo e, ao mesmo tempo, consideramos alarmante. Em apenas uma semana e meia, atingimos 300 mil seguidores. O povo está cansado de ver mentiras sendo propagadas como se fossem verdade, tendo identificado no movimento uma forma de combater o discurso de ódio e a propagação de fake news, inclusive do governo. As fake news, aliás, são perigosas para o país de várias formas, pois impactam desde questões políticas até a própria saúde pública. Não é coincidência que, desde que o coronavírus chegou ao Brasil, tivemos dois ministros da Saúde demitidos. Enquanto conversamos, faz 12 dias que o Brasil não tem um ministro definitivo no cargo. É como se a Covid-19 e as fake news competissem para ver quem se espalha mais rapidamente pelo Brasil afora. Como resultado, não há qualquer segurança nas informações, seja do lado político ou da saúde. Não sabemos em quem confiar.

O perfil brasileiro está voltado, principalmente, para desmonetizar o portal Jornal da Cidade Online, conhecido por disseminar fake news e apoiado por bolsonaristas. Há alguma razão para isso? Em relação à escolha do primeiro alvo, nos embasamos em um relatório organizado pelo site Aos Fatos, especialista em fact checking. Eles constataram que aquele site foi o que mais divulgou notícias falsas nas eleições de 2018. Para se ter uma ideia do forte alcance do site, em abril, por exemplo, ele chegou a alcançar cerca 34 milhões de acessos, tornando-se uma grande fonte de falsidades. Vale lembrar que as eleições de 2018 estão sendo, neste momento, investigadas por uma comissão parlamentar de inquérito, em face das denúncias de que os candidatos teriam se aproveitado da propagação de fake news.

Os filhos do presidente Bolsonaro e o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência reagiram prontamente à criação do perfil, alegando que o SG promove censura. Como enxerga isto? Acreditamos que estamos, na verdade, ajudando o país, ao alertar sobre certas aplicações do dinheiro público. Os governantes sempre dizem que o dinheiro público está escasso, mas sendo bem empregado; porém, ao contrário de suas declarações, ele está financiando portais que promovem a desinformação e atentam contra a estabilidade democrática. É realmente triste assistir o aparelho governamental interferir e fazer uso do dinheiro do povo para emprega-lo em discursos odiosos e na disseminação de notícia falsas, visando apenas o ganho político em seu favor.

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O governo brasileiro agiu para reverter uma decisão do Banco do Brasil, empresa estatal, de retirar anúncios do Jornal da Cidade Online. A interferência do governo os preocupa? Felizmente, essa questão foi revista na quarta-feira 27. A pedido do Ministério Público Federal, o Tribunal De Contas da União determinou que o Banco do Brasil suspendesse a veiculação de seus anúncios em portais de reputação duvidosa. Essa suspensão demonstra que a suspeita de interferência foi clara e só podemos esperar que seja apurada com a devida importância.

Publicações do presidente Bolsonaro foram excluídas de suas redes sociais por conter informação falsa. A postura do presidente incentiva a produção e disseminação de fake news? A atual postura do presidente não apenas incentiva a produção de notícias falsas, como deixa claro o apoio a esse modus operandi. Existem diversas provas de que o atual governante foi eleito se utilizando de desinformação.

Quais? Nas eleições de 2018, por exemplo, Bolsonaro, então candidato, acusou o partido opositor [PT] de distribuir nas escolas o chamado “kit gay” que, na realidade, nunca existiu. Outra notícia falsa que ganhou repercussão foi a ideia de que seu concorrente à presidência, Fernando Haddad, tinha distribuído em creches de São Paulo mamadeiras com bico em formato de órgão genital masculino. Já a candidata à vice-presidência, Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), foi outra vítima de fake news quando se deparou com imagens adulteradas, em que usava uma camiseta com a frase “Jesus é travesti”. É uma pena verificar que a mistura de informações falsas com preconceitos de gênero, entre outros preconceitos, tenha sido responsável por eleger o atual Presidente da República. Caso contrário, por que o governo se mostra tão contrário às investigações das notícias falsas que vêm acontecendo no país?

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