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Racismo no futebol: MPF cobra medidas mais efetivas da CBF e do governo federal

Procuradores instauraram um inquérito civil público para investigar omissão

Por Ricardo Chapola Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 4 abr 2025, 13h07 - Publicado em 4 abr 2025, 06h00

No início do mês passado, dois jogadores do Palmeiras foram vítimas de agressões racistas durante uma partida válida pelo campeonato continental sub-20 disputado no Paraguai. Na saída do campo, Luighi Souza Santos foi abordado por um repórter que lhe fez uma pergunta sobre o jogo, ignorando completamente os insultos que ele havia acabado de receber. “É sério isso? “, indagou o atleta, surpreso. “Fizeram racismo comigo. Até quando? O que fizeram comigo foi crime. Você vai perguntar sobre o jogo mesmo? A Conmebol vai fazer o que sobre isso? Você não ia perguntar sobre isso, né?”, protestou, indignado e chorando. A cena correu o mundo e chamou a atenção mais uma vez para um problema recorrente nos campos de futebol do planeta. Mas o que se viu na sequência também é recorrente: nada, absolutamente nada, aconteceu além de manifestações protocolares. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) repudiou o episódio, o presidente Lula cobrou punição, o Ministério do Esporte se solidarizou com os jogadores, a Advocacia-Geral da União disse que as ofensas racistas eram inaceitáveis e a ministra da Igualdade Racial ressaltou que não há mais espaço para tolerar práticas criminosas.

DRAMA - Luighi: o depoimento emocionado do atleta correu o mundo
DRAMA - Luighi: o depoimento emocionado do atleta correu o mundo (Conmebol/Reprodução)

Coube ao Ministério Público Federal uma iniciativa que fugiu à regra. Ao perceber que nada de prático iria ocorrer para impedir que agressões racistas continuem a ocorrer nos estádios, procuradores instauraram um inquérito civil público para investigar se houve omissão da CBF e do governo federal no caso. Grande fã de futebol, chama atenção também que o presidente Lula não tenha até agora entrado de sola na causa. O MPF deu um prazo de dez dias para que tanto o governo quanto a confederação informassem as medidas que teriam sido adotadas para enfrentar o problema. “Tem um certo descompasso quanto às respostas dadas a essa questão. Em âmbito externo, a gente vê uma situação calamitosa, que é fruto da postura de certas entidades e de muitos clubes que banalizam o racismo e diminuem o peso que ele tem. Fora isso, o Brasil assinou vários tratados internacionais sobre o assunto e tem o dever de combater não só o discurso de ódio, como também a escalada desse discurso de ódio para a violência”, ressalta o procurador Julio José Araújo Junior. O prazo venceu no último dia 28. Instados a se explicar, os ministros do Esporte, André Fufuca, e da Igualdade Racial, Anielle Franco, garantiram que o governo foi além das notas de repúdio.

Os ministros informaram que as pastas assinaram um acordo de cooperação para combater o racismo, parceria que prevê a implementação de “ações de conscientização, formação e monitoramento da discriminação racial no ambiente esportivo”. Fora isso, uma comitiva composta por representantes dos dois ministérios esteve no Paraguai com o presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), ocasião em que foi criado um grupo de trabalho para desenvolver estratégias para erradicar o racismo, a discriminação e a violência no esporte. O governo também se comprometeu a realizar campanhas publicitárias de combate ao racismo, incentivar o uso de tecnologias de reconhecimento facial e biométrico no acesso de torcedores nos estádios e promover encontros com as torcidas organizadas, além de convidar Vinicius Junior e Luiz Henrique, jogadores famosos que recentemente também sofreram ataques racistas, para participar das discussões. Em um ofício encaminhado ao MP, o Ministério do Esporte destacou ainda que enviou à Casa Civil uma proposta de alteração da Lei Geral do Esporte, propondo a criação de determinadas condicionantes para que entidades esportivas, como a CBF, tenham acesso a recursos federais. O repasse de dinheiro só seria permitido se elas comprovassem empenho em combater o racismo no futebol. Tudo isso aconteceu dois dias antes do vencimento do prazo dado pelos procuradores e quase um mês depois dos ataques aos jogadores.

MUITO POUCO - Medidas incipientes: o presidente Lula, o ministro André Fufuca, do Esporte, a ministra Anielle Franco, da Igualdade Racial, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, divulgaram notas de repúdio à agressão sofrida pelos jogadores do Palmeiras e, depois de muita pressão, anunciaram a criação de um grupo de trabalho e algumas ações para tentar evitar novos casos
MUITO POUCO - Medidas incipientes: o presidente Lula, o ministro André Fufuca, do Esporte, a ministra Anielle Franco, da Igualdade Racial, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, divulgaram notas de repúdio à agressão sofrida pelos jogadores do Palmeiras e, depois de muita pressão, anunciaram a criação de um grupo de trabalho e algumas ações para tentar evitar novos casos (./.)
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O esforço do governo, ao que parece, não convenceu. “Vamos manter o inquérito. A partir do que foi discutido, vamos abrir uma consulta pública para que a sociedade traga outras propostas, dado que reconhecemos a insuficiência das medidas colocadas em prática até agora”, afirmou Julio José. Procurados por VEJA, Fufuca e Anielle negaram omissão no combate ao racismo. “Entendo que devemos dar exemplo e assumir o protagonismo. Não basta apenas condenar os atos racistas. É fundamental agir com firmeza e promover mudanças concretas”, disse o ministro do Esporte. Com a seleção em fase de baixa, parece que ficou no passado o tempo em que o futebol gerava dividendos às autoridades federais. Manifestações políticas simpáticas à direita de Neymar e outros craques também são vistas como caneladas em tempos de um Palácio do Planalto à esquerda. O governo garante que não faz corpo mole, mas é inegável: a bola segue quicando no campo da necessidade de ações urgentes e efetivas contra o racismo.

Publicado em VEJA de 4 de abril de 2025, edição nº 2938

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