Racismo no futebol: MPF cobra medidas mais efetivas da CBF e do governo federal
Procuradores instauraram um inquérito civil público para investigar omissão

No início do mês passado, dois jogadores do Palmeiras foram vítimas de agressões racistas durante uma partida válida pelo campeonato continental sub-20 disputado no Paraguai. Na saída do campo, Luighi Souza Santos foi abordado por um repórter que lhe fez uma pergunta sobre o jogo, ignorando completamente os insultos que ele havia acabado de receber. “É sério isso? “, indagou o atleta, surpreso. “Fizeram racismo comigo. Até quando? O que fizeram comigo foi crime. Você vai perguntar sobre o jogo mesmo? A Conmebol vai fazer o que sobre isso? Você não ia perguntar sobre isso, né?”, protestou, indignado e chorando. A cena correu o mundo e chamou a atenção mais uma vez para um problema recorrente nos campos de futebol do planeta. Mas o que se viu na sequência também é recorrente: nada, absolutamente nada, aconteceu além de manifestações protocolares. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) repudiou o episódio, o presidente Lula cobrou punição, o Ministério do Esporte se solidarizou com os jogadores, a Advocacia-Geral da União disse que as ofensas racistas eram inaceitáveis e a ministra da Igualdade Racial ressaltou que não há mais espaço para tolerar práticas criminosas.

Coube ao Ministério Público Federal uma iniciativa que fugiu à regra. Ao perceber que nada de prático iria ocorrer para impedir que agressões racistas continuem a ocorrer nos estádios, procuradores instauraram um inquérito civil público para investigar se houve omissão da CBF e do governo federal no caso. Grande fã de futebol, chama atenção também que o presidente Lula não tenha até agora entrado de sola na causa. O MPF deu um prazo de dez dias para que tanto o governo quanto a confederação informassem as medidas que teriam sido adotadas para enfrentar o problema. “Tem um certo descompasso quanto às respostas dadas a essa questão. Em âmbito externo, a gente vê uma situação calamitosa, que é fruto da postura de certas entidades e de muitos clubes que banalizam o racismo e diminuem o peso que ele tem. Fora isso, o Brasil assinou vários tratados internacionais sobre o assunto e tem o dever de combater não só o discurso de ódio, como também a escalada desse discurso de ódio para a violência”, ressalta o procurador Julio José Araújo Junior. O prazo venceu no último dia 28. Instados a se explicar, os ministros do Esporte, André Fufuca, e da Igualdade Racial, Anielle Franco, garantiram que o governo foi além das notas de repúdio.
Os ministros informaram que as pastas assinaram um acordo de cooperação para combater o racismo, parceria que prevê a implementação de “ações de conscientização, formação e monitoramento da discriminação racial no ambiente esportivo”. Fora isso, uma comitiva composta por representantes dos dois ministérios esteve no Paraguai com o presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), ocasião em que foi criado um grupo de trabalho para desenvolver estratégias para erradicar o racismo, a discriminação e a violência no esporte. O governo também se comprometeu a realizar campanhas publicitárias de combate ao racismo, incentivar o uso de tecnologias de reconhecimento facial e biométrico no acesso de torcedores nos estádios e promover encontros com as torcidas organizadas, além de convidar Vinicius Junior e Luiz Henrique, jogadores famosos que recentemente também sofreram ataques racistas, para participar das discussões. Em um ofício encaminhado ao MP, o Ministério do Esporte destacou ainda que enviou à Casa Civil uma proposta de alteração da Lei Geral do Esporte, propondo a criação de determinadas condicionantes para que entidades esportivas, como a CBF, tenham acesso a recursos federais. O repasse de dinheiro só seria permitido se elas comprovassem empenho em combater o racismo no futebol. Tudo isso aconteceu dois dias antes do vencimento do prazo dado pelos procuradores e quase um mês depois dos ataques aos jogadores.

O esforço do governo, ao que parece, não convenceu. “Vamos manter o inquérito. A partir do que foi discutido, vamos abrir uma consulta pública para que a sociedade traga outras propostas, dado que reconhecemos a insuficiência das medidas colocadas em prática até agora”, afirmou Julio José. Procurados por VEJA, Fufuca e Anielle negaram omissão no combate ao racismo. “Entendo que devemos dar exemplo e assumir o protagonismo. Não basta apenas condenar os atos racistas. É fundamental agir com firmeza e promover mudanças concretas”, disse o ministro do Esporte. Com a seleção em fase de baixa, parece que ficou no passado o tempo em que o futebol gerava dividendos às autoridades federais. Manifestações políticas simpáticas à direita de Neymar e outros craques também são vistas como caneladas em tempos de um Palácio do Planalto à esquerda. O governo garante que não faz corpo mole, mas é inegável: a bola segue quicando no campo da necessidade de ações urgentes e efetivas contra o racismo.
Publicado em VEJA de 4 de abril de 2025, edição nº 2938