Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Polícia ocupa ‘Faixa de Gaza’ no Rio

Mais de 110 usuários de drogas foram recolhidos de Jacarezinho, a maior cracolândia da cidade

Forças de segurança ocuparam neste domingo, em apenas dez minutos, o complexo de favelas de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro. Na região vizinha do Jacarezinho, a maior cracolândia da cidade, mais de 110 usuários de drogas foram recolhidos durante ação da Polícia Civil. Considerado um dos mais perigosos da cidade, o complexo de favelas era controlado por um grupo de traficantes que mantinha locais de venda e consumo de drogas ao ar livre.

Também foram ocupadas pela polícia as favelas de Mandela e Varginha. Participaram da ocupação, anunciada na sexta-feira, 1.500 homens, entre policiais e fuzileiros navais, com o apoio de seis blindados da Marinha, segundo informou a secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Os membros das forças de segurança entraram no complexo por volta das 5 horas e utilizaram retroescavadeiras para retirar as barreiras que os traficantes utilizavam para bloquear o acesso às favelas.

Os primeiros a entrar em Manguinhos foram os integrantes do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope), que utilizaram veículos blindados para chegar rapidamente aos locais estratégicos e controlá-los. Jacarezinho foi ocupada pela Polícia Civil.

Sem confronto – Com exceção de alguns fogos de artifício, com que os traficantes anunciam a chegada da polícia, e de disparos esporádicos, as comunidades foram ocupadas sem nenhum confronto com os traficantes. Aparentemente, como ocorreu em outras ocupações similares que são anunciadas previamente, os bandidos fugiram antes da chegada das forças de segurança pública nas favelas. Dessa vez, porém, o Bope realizou operações prévias nas favelas próximas para onde os traficantes poderiam fugir. Foi em uma destas operações, no Morro do Juramento, que aconteceu um confronto na manhã do sábado, no qual morreram cinco traficantes que fugiam de Manguinhos.

A ação policial deste domingo completa um ciclo de ocupações iniciado pela Zona Sul. Depois das favelas a parte nobre do Rio, o governo do estado cercou o estádio do Maracanã – local da final da Copa do Mundo de 2014 – e áreas da Zona Norte. Manguinhos, Jacarezinho, Mandela e Varginha passaram a ser o reduto mais importante das grandes quadrilhas de tráfico de drogas. A “Faixa de Gaza” ganhou este apelido em razão dos tiroteios entre traficantes rivais e entre bandidos e policiais. As favelas ficam próximas do encontro de duas vias importantes da Zona Norte, as avenidas Leopoldo Bulhões e Dom Helder Câmara – locais que, à noite, tornaram-se perigosos até para os blindados da polícia.

Depois da ocupação das grandes favelas, Manguinhos e Jacarezinho tornaram-se esconderijo de criminosos do Comando Vermelho como Marcelo Fernando Pinheiro Veiga, o Marcelo Piloto, chefe do tráfico da favela do Mandela. Piloto tem 15 mandados de prisão por tráfico, homicídios e outros crimes. Piloto aparece no vídeo obtivo por VEJA que mostra bandidos contando grandes somas de dinheiro e andando armados pela região.

Entre Manguinhos e Jacarezinho funciona a maior cracolândia do Rio. Em julho, em apenas dois dias, foram recolhidos 153 usuários de crack das ruas pela Secretaria de Assistência Social. A estimativa da polícia é de que, só em Manguinhos, traficantes movimentem 45.000 reais por dia. Recentemente, chegou a circular o boato de que traficantes teriam “proibido” a venda de crack.

UPPs – Assim como na Rocinha e no Alemão, a ocupação da “Faixa de Gaza” carioca é o início de um processo delicado de restabelecimento da ordem em um território degradado. As duas grandes favelas já ocupadas são alvo de constantes investidas de bandidos e, com frequências, há episódios como execuções e troca de tiros de bandidos e policiais.

A política de pacificação das favelas começou pelo morro Dona Marta, em Botafogo, uma pequena encosta onde se formou a favela. No dia 19 de dezembro de 2008, as forças de segurança ocuparam a área, onde os traficantes viviam encastelados e eram a autoridade máxima sobre a população de 10.000 habitantes. O efeito da operação foi sentido imediatamente: imóveis subiram de valor, moradores passaram a elogiar a polícia – que antes era vista como inimiga – e o morro tornou-se ponto turístico.

Ao todo, o Rio tem atualmente 28 UPPs. Favelas pequenas, como Babilônia, Cantagalo e Chapéu Mangueira, seguiram o mesmo roteiro. Em áreas maiores, como Alemão, Rocinha e Cidade de Deus, no entanto, o efetivo policial empregado ameniza a situação, mas não promove a tranquilidade tão rapidamente. O objetivo das ações, sempre lembrado pelo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, é principalmente acabar com o controle do território e tirar moradores “da mira de fuzis” – e não necessariamente acabar com o tráfico de drogas (que de fato persiste em muitas das favelas ocupadas).

Veja vídeo da ocupação da maior cracolândia do Rio:

(Com EFE)

Leia também:

As UPPs avançam. E crescem os problemas

Entregar a segurança às UPPs é subestimar o poder dos bandidos Rio descobre a diferença entre pacificação e paz negociada com bandidos