PF encontra planilha de Bacellar sobre loteamento do governo do Rio entre deputados da Alerj
As informações estão no relatório enviado no fim de janeiro ao ministro Alexandre de Moraes, no STF, e obtido com exclusividade pelo Radar
Nas buscas realizadas pela Polícia Federal no gabinete de Rodrigo Bacellar, na presidência da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, os investigadores encontraram documentos que expõem como funcionava o loteamento de cargos e órgãos estatais na política fluminense.
Ao Radar, a defesa de Bacellar negou que ele tenha cometido irregularidades e classifica as acusações da PF de “ilações desamparadas” de provas.
“Em relação ao presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro Rodrigo Bacellar, inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento, ao contrário, só há ilações desamparadas”, diz o jurista Daniel Bialski.
No computador de Rui Carvalho Bulhões Júnior, chefe de gabinete de Rodrigo Bacellar, a Polícia Federal apreendeu uma planilha intitulada “PEDIDOS EM 12-04-23”, que funciona como um inventário detalhado de cargos e influências distribuídas entre parlamentares em troca de apoio político.
A investigação da PF sobre Bacellar estabeleceu uma correlação direta entre os benefícios listados no documento e a fidelidade partidária dos deputados ao chefe afastado da Alerj.
Segundo o relatório, 87,88% dos deputados (27 parlamentares) cujos nomes e pedidos constavam na planilha votaram favoravelmente à soltura de Rodrigo Bacellar em dezembro de 2025, após sua prisão pela PF.
O documento possui abas que descrevem o que cada deputado já “possui” (cargos e comandos) e quais são seus novos “pleitos” na estrutura administrativa do Governo do Estado.
A PF aponta que, sob a gestão de Bacellar, a Alerj passou a controlar nomeações estratégicas que, por lei, deveriam ser prerrogativas do governador Cláudio Castro, como os comandos de batalhões da PM, delegacias e secretarias de peso.
A planilha detalha, por exemplo, pedidos de controle sobre órgãos como o Detran, a Fundação Leão XIII, a Faetec e cargos em hospitais e secretarias. Entre os nomes citados estão:
Arthur Monteiro
Solicitou o controle do Poupa Tempo em Duque de Caxias, além de postos na Fundação Leão XIII, Faetec, Detran e Ciretran.
Célia Jordão
Solicitou Posto avançado de Turismo em Angra.
Carlinhos BNH
Solicitou o controle de unidades do Detran e Faetec Queimados, Fundação Leão XIII em Japeri e Segurança Presente e Fundação Leão XIII em Nova Iguaçu.
Deodalto
Solicitou OSP Paracambi, OSP Japeri, Fundação Leão XIII em Japeri e Paracambi.
Douglas Ruas
Solicitou cargos na Faetec e no Detran de São Gonçalo, além de obras no município.
Guilherme Delaroli
Solicitou 15 cargos na Alerj e o comando do Detran e Faetec em Itaboraí e Rio Bonito.
Thiago Rangel
Solicitou postos do Detran e Detro em Campos, além de cargos na FIA e 15 vagas na Alerj.
Filipinho Ravis
Solicitou vagas na Cultura, Detran, Fundação Leão XIII e Faetec em Nova Iguaçu.
Jorge Felipe Neto
Solicitou Iterj, Detran Guapimirim, Detran Cachoeiras de Macacu, Fundação Leão XIII e Faetec em Guapimirim.
Julio Rocha
Solicitou Iterj, Detran Guapimirim, Detran Cachoeiras de Macacu, Fundação Leão XIII e Faetec em Guapimirim.
Rodrigo Amorim
Solicitou três vagas no Detran da capital, mais vagas na OSP e Lei Seca, cargos para compensar Ceperj.
Thiago Rangel
Solicitou cargos em Campos — Detran, Fia, Fundação Leão XIII, ROC DER — e vagas na Setrab.
Tia Ju
Solicitou vagas na Secretaria de Direitos Humanos e controle do Detran e Leão XIII na capital.
As informações estão no relatório da Polícia Federal enviado no fim de janeiro ao ministro Alexandre de Moraes, no STF, e obtido com exclusividade pelo Radar.
O documento destaca como “sensível” o pedido do deputado Rodrigo Amorim, autoproclamado membro da “Tropa do Bacellar”.
Na planilha, consta que Amorim pleiteou cargos para “compensar Ceperj”. A PF relaciona o tema ao escândalo de desvios de mais de 220 milhões de reais na Fundação Ceperj, onde Amorim teria indicado cargos em projetos sociais que serviram para alimentar currais eleitorais.
Com o fim do esquema no Ceperj, os novos pedidos — como postos no Detran e na Operação Segurança Presente — serviriam para manter sua base política.
Além da planilha eletrônica, os agentes encontraram um caderno pessoal de Bacellar contendo o que a PF chama de “organograma de sua futura administração”.
Nas anotações manuscritas, Bacellar já delineava a composição de um eventual secretariado para quando assumisse o governo do Estado.
No rascunho, nomes como Douglas Ruas aparecem vinculados à Secretaria de Obras, e nomes, como Robson e Pollyana, à Casa Civil e Planejamento.
O caderno também detalha planos de controle sobre a Polícia Civil, Polícia Militar, SEAP e Saúde, evidenciando, segundo a PF, a intenção de consolidar um “Estado paralelo” onde a máquina pública fluminense serve estritamente a interesses de um grupo criminoso encastelado no poder.





