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Pais de João Pedro pedem justiça e dizem que vão processar o Estado

Executado em casa por policiais no dia 18 de maio, estudante será um dos homenageados na manifestação Vidas Negras Importam, no próximo domingo, 7

Por Jana Sampaio e Sofia Cerqueira - Atualizado em 5 jun 2020, 19h54 - Publicado em 5 jun 2020, 19h43

Como milhões de brasileiros, o menino João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, estava cumprindo a quarentena com a família quando 72 tiros de fuzil disparados por policiais invadiram a casa onde o adolescente e cinco primos estavam. Desde o dia em que a vida do estudante foi ceifada, seus pais, Neilton da Costa Pinto, de 40 anos, e Rafaela Coutinho Matos, 36 anos, lutam para que os executores de seu filho cumpram pena máxima pelo terrível crime que cometeram. Em entrevista a VEJA, o casal disse que aguarda pelo dia do julgamento dos agentes e que vai processar o Estado do Rio de Janeiro. “Os policiais deveriam nos proteger ao invés de acabar com a nossa família. O governador Wilson Witzel não está preocupado conosco e até agora não se dignou a pedir desculpas pelo erro irreparável que a polícia comandada por ele cometeu”, lamentou Neilton, que trabalha como motorista particular e tem um quiosque às margens da Baía de Guanabara.

Ao todo, 177 pessoas morreram em decorrência da ação policial no capital fluminense em abril deste ano. O número é histórico e representa um crescimento de 43% em comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública. As estatísticas mostram ainda que este é o abril mais sangrento dos últimos 18 anos. Fundador da Central Única das Favelas (Cufa), Celso Athayde diz que quem mora nesses bolsões de pobreza, em geral, não é contra a repressão ao crime, mas à truculência da polícia. “Não dá para entrar numa favela com a ideia de que a vida ali vale menos. A lógica de que não pode haver tiroteios colocando em risco a vida de inocentes só vale para o asfalto. Na favela ou você é bandido ou parece que é”, critica Athayde.

Durante sua curta vida, João, que celebraria seu 15º aniversário no dia 23 de junho, aprendeu desde cedo que precisaria redobrar os cuidados sempre que saísse na rua por ser um menino negro em um país racista. “Sempre orientei meu filho a ficar atento para observar, ao menor sinal, uma ação violenta ou um tiroteio. Infelizmente, essa é a realidade de quem vive em comunidade. Pedia para ele deitar no chão do ônibus ou buscar abrigo em algum comércio para não correr risco de bala perdida. Não podia imaginar que o perigo estaria dentro de casa, onde ele deveria se sentir seguro e protegido”, desabafa a professora de educação infantil Rafaela, mãe do adolescente. “Vamos precisar reaprender a viver sem nosso menino alegre. Sonho com o dia em que vou poder reencontrar meu filho mas, enquanto isso não acontece, quero justiça”, completa Neilton.

Assim como os pais de João Pedro, centenas de pessoas são esperadas para homenagear o menino e outras vítimas da violência policial no próximo domingo, 7, às 15h, no Centro do Rio de Janeiro, na segunda marcha Vidas Negras Importam, mobilização que ganhou força nas redes sociais após a morte de George Floyd, nos Estados Unidos, e extrapolou para as ruas do Brasil e de outras partes do mundo. O local de encontro não poderia ser mais simbólico: o busto de Zumbi dos Palmares, um dos líderes do movimento negro no país.

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