‘Me senti suja’, diz mulher que denuncia Marco Buzzi por assédio sexual dentro do STJ
Segunda vítima a depor no CNJ, ex-secretária do gabinete do magistrado prestou depoimento em vídeo e entregou gravação como prova
Na última terça-feira, depois de o Radar revelar que duas mulheres acusavam o ministro Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, de 68 anos, de assédio sexual, o STJ decidiu afastar o magistrado de suas funções na Corte.
O surgimento de uma segunda vítima e o relato contundente dessa mulher, somado ao caso da jovem de 18 anos que fez a primeira denúncia contra Buzzi, foram determinantes para a grave decisão. Nas palavras de ministros do STJ ouvidos pelo Radar, os atos “revoltantes” do magistrado tornaram sua permanência no tribunal “insustentável”.
“O STJ virou cena de crime. E de um crime abominável”, relatou ao Radar um dos ministros que votaram pelo afastamento de Buzzi na terça.
A indignação relatada na frase se justifica pelos eventos narrados por uma ex-servidora do gabinete de Buzzi na última segunda-feira.
“Me senti suja”, disse a mulher — cuja identidade será mantida em sigilo para preservar a vítima e as investigações — aos investigadores, num longo e emocionante relato gravado em vídeo no CNJ.
Servidora terceirizada no STJ, o elo mais frágil num gabinete composto por servidores de carreira e indicados a cargos de confiança pelo ministro Buzzi, a mulher que denuncia o ministro por assédio sexual traçou, entre lágrimas, uma rotina de abusos e terror enquanto trabalhou no gabinete do magistrado.
Os eventos relatados pela mulher ocorreram ao longo do ano passado. “Tudo começou com elogios. Você está linda hoje”, relatou a mulher, sobre abordagens de Buzzi no gabinete.
Designada para a função de secretária, a mulher era encarregada de cuidar dos detalhes de funcionamento do gabinete, manter o ministro e outros assessores assistidos, receber quem chegava ao local e até resolver pequenas missões que Buzzi ordenava.
Primeira a chegar ao gabinete, a mulher relatou em depoimento que ficava sozinha com Buzzi no espaço. Nos amplos gabinetes dos ministros do STJ, os espaços são bem demarcados. A Buzzi, além de uma sala privativa com escrivaninha e sofás, há um cubículo destinado ao depósito de objetos. Um corredor interno liga a área reservada do ministro a salas de assessoria e uma biblioteca.
No relato, a ex-assessora de Buzzi contou ter sido assediada em quatro desses ambientes. Um certo dia, o ministro chamou a secretária até sua sala reclamando de um barulho que viria, segundo ele, do cubículo ligado ao seu espaço privativo. A secretária caminhou então até esse espaço e, ao entrar na sala, percebeu que o ministro a seguia logo atrás. Na sequência, sentiu a mão do ministro escorrendo por suas nádegas. Em choque, ela constatou que não havia o problema relatado pelo ministro e deixou o espaço rapidamente.
Em todos os episódios, segundo a mulher, o padrão era o mesmo. Em outro dia, ela estava na biblioteca do gabinete, quando Buzzi chegou e, sem dizer uma única palavra, passou a mão em suas nádegas novamente.
Os dias tornaram-se uma tormenta para a mulher. A condição humilde — ela relata que era a única provedora da família. Precisava, portanto, do emprego — a fez permanecer trabalhando para o magistrado.
Em outra ocasião, ao cruzar com Buzzi pelo corredor interno do gabinete, ela foi novamente molestada. O ministro, sempre em silêncio, parecia não considerar a gravidade dos atos. Vivia a criar situações para ficar sozinho com a vítima.
A coisa mudou de figura em outro episódio, na sala pessoal de Buzzi, quando ele agarrou com força, com uma das mãos, e apertou a nádega da secretária. Nesse momento, ela reagiu. Pegou com força o braço do ministro e o afastou. Buzzi então recuou. “Me desculpa, me desculpa…”
Fragilizada com as seguidas investidas do magistrado, a secretária procurou a autoridade máxima no seu local de trabalho para relatar o que estava vivendo. A conversa com a chefe de gabinete de Buzzi serviu como um desabafo, mas não terminou como deveria.
“Estou chocada”, disse a principal assessora de Buzzi ao ouvir o relato da secretária. “Vou te mudar de horário”, seguiu a chefe de gabinete, ao apresentar o que, segundo ela, seria a única solução disponível para enfrentar o assédio do ministro do STJ.
Percebendo que nada seria feito, a mulher adoeceu, mergulhou num estado permanente de tristeza até pedir para deixar o gabinete de Buzzi. Os problemas psicológicos decorrentes do abuso deixaram marcas. Ela perdeu parte da visão.
Na quarta-feira da semana passada, quando leu a notícia publicada pelo Radar sobre a denúncia da jovem de 18 anos que se dizia vítima do ministro, ela tomou coragem de denunciar. Em seu longo e ininterrupto relato apresentado ao CNJ — e já em poder de ministros do STJ –, a mulher chorou em diferentes momentos ao reviver a experiência e explicou que não havia denunciado antes por medo de que as pessoas não acreditassem.
Além de relatar detalhadamente o assédio sofrido, ela entregou aos investigadores uma gravação da conversa que teve com a chefe de gabinete de Buzzi. A conversa é uma das principais provas da mulher, mas não só. Durante esta semana, três assessores de Buzzi confirmaram a ministros do STJ a versão da ex-assessora de Buzzi.
“O caso é tão grave quanto o da jovem de 18 anos”, disse ao Radar um ministro da Corte.
ATUALIZAÇÃO, 10H40 — A defesa da ex-servidora do gabinete de Buzzi enviou nota ao Radar.
“A Defesa da vítima informa que se manifestará apenas nos autos para preservar o sigilo das informações constantes nos procedimentos disciplinares e criminais, com o objetivo de evitar a revitimização, nos termos do Provimento n° 147/2023 do Conselho Nacional de Justiça”, diz o comunicado dos advogados Tracy Reinaldet e Matteus Macedo.





