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Leia a reportagem sobre Russomanno publicada em 1994

Na ocasião, o candidato a prefeito de São Paulo celebrava os 233 482 votos recebidos na eleição para deputado federal, a primeira que disputou

Dois anos atrás, nas eleições para prefeito, o barulhento ator e diretor Cacá Rosset não pôde votar. Como ele apareceu em sua seção eleitoral fantasiado de Pai Ubu, um personagem que satiriza os líderes políticos, o presidente da mesa o barrou na boca da urna. Cacá, numa encenação, começou a gritar, simulando desespero: “Eu quero votar! Chamem o Celso Russomanno”. Pai Ubu estava brincando, mas os moradores da periferia gritam a sério esse nome quando se sentem logrados por um mau comerciante ou um explorador qualquer. Aos 38 anos, Celso Ubirajara Russomanno, um dos repórteres de maior audiência do programa de jornalismo do SBT Aqui Agora, fez fama na televisão como o defensor dos fracos e oprimidos, sobretudo os consumidores lesados. Com a reputação de bom de briga e uma candidatura vitoriosa que nasceu de um convite do senador Mário Covas, Russomanno desembarca em março em Brasília como para exercer seu primeiro mandato como deputado federal. Na bagagem, vai levar uma câmara com o microfone do SBT, onde continua trabalhando, e 233.482 votos, marca que lhe valeu o título de campeão das urnas deste ano.

Celso Russomanno, aos 38 anos, em ação no SBT Celso Russomanno, aos 38 anos, em ação no SBT

Celso Russomanno, aos 38 anos, em ação no SBT (/)

Fenômeno de audiência, Russomanno chega à Câmara como um fenômeno do voto, embora longe dos grandes recordes históricos. Ele bateu nas urnas veteranos da politica, como o ex-governador tucano André Franco Montoro e o deputado petista José Genoíno, o segundo e o terceiro colocados no ranking do voto. Sua votação é seis vezes maior que a do ex-ministro Almiro Affonso, que já foi vice-governador de São Paulo. Claro que seu sucesso no Aqui Agora pesou muito nessa votação, mas não explica o formidável desempenho nas urnas. Dois de seus colegas de programa, João Leite Neto, do PFL, e Jacinto Figueira Júnior, o “homem do sapato branco”, do PTB, passaram pelo teste das urnas e foram reprovados. Jornalista de rádio e televisão, o vereador peemedebista Dárcio Arruda tampouco se elegeu para a Câmara dos Deputados. Candidato a deputado estadual, Fiori Giglioti, um dos locutores esportivos mais populares de São Paulo, teve uma votação nove vezes menor do que Russomanno e novamente ficou de fora.

“Russomanno recebeu essa montanha de votos porque na TV ele é a expressão máxima do politicamente correto”, diz Albino Castro Filho, vice-diretor de jornalismo do SBT. “Ele é o homem certo, na hora certa. O Brasil nunca foi tão politicamente correto como agora.” No Aqui Agora, Russomanno é uma locomotiva de audiência. Cada vez que ele aparece, a emissora ganha de 8 a 10 pontos no Ibope. Seu recorde foi há dois anos, quando a audiência do SBT saltou de 20 para 32 pontos durante uma reportagem sobre um cidadão que foi a um restaurante nos Jardins, deixou a chave com o manobrista e entrou. Na volta, não encontrou o carro nem o manobrista. O restaurante prometeu um veículo novo ao cliente e depois recuou, com a conversa de que desconhecia o furto. Mas o cliente havia gravado um diálogo em que o comerciante admitia ressarcir o prejuízo. A fita parou nas mãos de Russomanno, que foi ao restaurante e desmascarou seu proprietário. Diante da repercussão do caso, o freguês ganhou um carro novo.

Esse é o Russomanno – na sua primeira face. Briga com lojistas, corre atrás de devedores na rua e até já levou uma surra dos funcionários de uma empresa que compra e vende telefones, a Avitel, denunciada por ele. Uma de suas mais recentes façanhas foi obter aposentadoria para 11.000 velhinhos. No ano passado, ao denunciar que processos no INSS chegavam a demorar três anos nos escaninhos da burocracia, entrevistou em Brasília o então ministro da Previdência Social, Antônio Britto. O ex-ministro, que hoje disputa o governo gaúcho com o apoio do partido de Russomanno, o PSDB o “nomeou” no ar procurador dos aposentados. Russomanno passou então a receber e a despachar pedidos de pensão, que tinham atendimento instantâneo. Ele mandava seus pedidos diretamente para Antônio Britto. “Dos que me procuraram. não ficou um único aposentado sem ser atendido”, orgulha-se o repórter.

A segunda face de Russomanno, bem menos conhecida, vai ao ar de madrugada pela rede CNT. É muito reveladora dos truques que utiliza e ilumina um lado de sua personalidade ignorado pela imensa maioria dos telespectadores do SBT e dos eleitores que o sufragaram. Trata-se do Circuito Night and Day, espécie de coluna social televisiva ao estilo do Flash, de Amaury Jr., ou do Perfil, de Otávio Mesquita. O maior destaque do programa não é sua audiência – nula -, mas uma tabela de preços que Russomanno oferece para quem quer ser entrevistado. Para cada trinta segundos de entrevista, cobra o dobro do preço da publicidade normal. “O que eu faço todos fazem: é merchandising, não é jabá”, afirma, numa referência ao jargão jornalístico que significa um tipo de vantagem indevida e aética que certos profissionais recebem para veicular notícias, enganando o leitor, o ouvinte ou o telespectador. Nos últimos cinco meses, quando Russomanno se afastou da televisão para se candidatar, o Night and Day continuou com traço na audiência, mas passou a ser mais disputado pelos entrevistados. No seu lugar, ficou a bela jornalista e atriz Drica Lopes, ex-top model da Ford.

Celso Russomanno com seu padrinho, Mário Covas, em 1994 Celso Russomanno com seu padrinho, Mário Covas, em 1994

Celso Russomanno com seu padrinho, Mário Covas, em 1994 (/)

O Russomanno que veste smoking e sai na noite atrás de suas reportagens pagas é mais antigo que o Russomanno que nunca usa gravata nas suas caçadas diurnas em busca de comerciantes que vendem mercadoria e não entregam, pessoas que compram e não pagam, planos de saúde que prometem o paraíso e oferecem o purgatório. Sua estreia televisiva com o Night and Day foi em 1986. Como repórter, ele começou em 1991. O salário que recebe no SBT é pífio para seus padrões. Não chega a 2.000 dólares por mês. Ele engorda a conta bancária alugando sua credibilidade como garoto-propaganda. Seu mais recente anúncio é o da Ibirapuera, empresa que compra e vende telefones. Seu rosto aparece num cartaz na traseira dos ônibus acompanhado da frase: “Esta linha eu garanto”. Russomanno beliscou esse comercial depois de uma série de reportagens sobre trambiques de empresas do setor. A Ibirapuera nunca apareceu nessas denúncias apresentadas no Aqui Agora.

Com 1,75 metro de altura e 66 quilos, Russomanno é um homem de voz baixa e macia. Costuma falar a seus interlocutores – homem ou mulher – bem de perto, quase tocando. Com os cabelos precocemente grisalhos, ele tem cara de bom moço. Parece o genro que toda sogra gostaria de ter. Em 1991, quando foi convidado para estrelar o Aqui Agora, trazia no currículo o inexpressivo Night and Day e a reportagem de uma tragédia pessoal. Em outubro de 1990, ele chocou o país com imagens do hospital em que sua mulher, Adriana Torres Russomanno, morreu com infecção generalizada decorrente de meningite. Na ocasião, quando ainda não se sabia o diagnóstico, Russomanno acusou o Hospital São Camilo de negligência médica e deu início a um processo que se arrastou por quase quatro anos.

Em junho passado, por unanimidade, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo absolveu o hospital. E uma decisão da qual não cabe recurso. “Houve uma trama na calada da noite entre o advogado do São Camilo, que é desembargador aposentado, e os desembargadores do Tribunal”, diz o inconformado Russomanno, que promete denúncias contra o Poder Judiciário tão logo assuma seu mandato. O hospital estuda uma ação para cobrar de Russomanno indenização por perdas e danos. “A filmagem que este rapaz fez só serviu a ele. Foi um trampolim para sua carreira”, afirma Antônio Tilelli, advogado do São Camilo. Russomanno não nega que deva sua fama à morte da mulher. “O que eu fiz foi mostrar o que estavam fazendo com ela”, diz. Espantosa em Russomanno é sua capacidade de fazer uma reportagem enquanto a mulher morria. Adriana ficou em companhia de parentes quando Russomanno decidiu deixar o hospital para apanhar uma câmara de televisão. Outra solução seria buscar um médico e obrigá-Io a atender a mulher. Ele também poderia transferi-la para outra casa de saúde.

Depois de assistir ao filme de Russomanno, os diretores do SBT viram nele uma capacidade de indignação perfeita para o tipo de jornalismo que estavam planejando, o Aqui Agora. Foi convidado por Albino Castro Filho, e aceitou na hora. Amigos do casal revelam que ele já não vivia com Adriana quando ela morreu. “Eles estavam separados, e acho que isso valoriza ainda mais seu ato de coragem”, diz uma colega do SBT. Russomanno não gosta que toquem no assunto. Se insistem, se despe da figura do bom moço e, aos berros, ameaça processar quem fala da separação. De concreto, admite que se havia separado da mulher, sim, mas quando ela morreu haviam reatado. “A Adriana era muito ciumenta e isso dificultava a convivência”, conta. Do casamento com Adriana, Russomanno teve uma filha, Luara, de 7 anos, com quem vive numa grande casa com piscina no bairro do Morumbi, em companhia de Edelweiss, a Dê, de 70 anos, avó de Adriana.

Russomanno com sua filha Luara, aos 7 anos, e sua réplica do Ford 29, em 1994 Russomanno com sua filha Luara, aos 7 anos, e sua réplica do Ford 29, em 1994

Russomanno com sua filha Luara, aos 7 anos, e sua réplica do Ford 29, em 1994 (/)

Russomanno é um pai atencioso, capaz de sacrificar uma noite no Limelight, sua danceteria predileta, apenas para ficar conversando com a menina. Desde que se tomou viúvo, teve algumas namoradas, mas apresentou bem poucas à filha e, ainda assim, sempre como amigas. “Minha filha só me verá em abraços e beijos com uma mulher quando o namoro for sério”, explica. No ano passado, Luara conheceu uma das “amigas” do papai. Foi Simony, aquela gracinha de criança que, até anteontem, divertia a molecada com um programa matinal da Rede Globo, em companhia do Fofão e de seu conjunto musical, o Balão Mágico. Simony já tem 18 anos, e namorou Celso Russomanno durante quatro meses. Além de dançar com ninfetas e namorá-las, ele gosta de cinema e teatro. Veste-se na Mahogany e na Bavardage – duas patrocinadoras de seu Night and Day. Mantém o cabelo aparado com idas quinzenais ao salão do Marivaldo, do Morumbi Shopping, que não lhe cobra nada pelo serviço.

Russomanno leva uma vida saudável, não fuma, não bebe, diz que quer distância das drogas, evita came vermelha e pratica muito esporte, de corrida a esqui aquático. Embora trabalhe como repórter, ele não tem o registro de jornalista. Formou-se em Direito, aos 26 anos, nas Faculdades Integradas de Guarulhos. Nunca foi um aluno brilhante. Entrou na faculdade aos 21 anos, depois de seguidas reprovações em vestibulares de escolas de todos os níveis. Como não prestou o exame para a Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, não pode advogar. “Nunca li um livro de ficção, um romance”, confessa. “Só li livros jurídicos.” Apesar disso, vai virar escritor, com direito à carteirinha. Até o final do ano, a editora Saraiva lança o Guia Celso Russomanno do Consumidor, uma coletânea de textos escritos a partir de depoimentos seus gravados.

Visto de longe, ele parece um daqueles personagens que sempre se mantiveram avessos ã política e decidiram candidatar-se apenas para botar ordem na casa. Visto de perto, nada mais falso. Russomanno começou a fazer política com 12 anos de idade, quando professores do curso de admissão São João Bosco o levaram para a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e da Propriedade, TFP, organização católica de extrema direita. “Eu era um soldadinho da TFP, responsável pela correspondência”, conta. Marchou na TFP durante dois anos, até que um dia foi à praia com o pelotão e descobriu que a entidade “era radical demais”. Celso recorda-se de que o proibiram de trocar as calças compridas por um calção para tomar banho de mar e o impediram de olhar para as mulheres de biquíni. Em 1980, já escrevente do Departamento Estadual de Trânsito, Detran, trocou a dureza de uma repartição que atende ao público pelo conforto do gabinete do então governador paulista, Paulo Maluf. Foi assessor de Calim Eid, secretário de governo, que despachava na ante-sala de Maluf.

Russomanno no dia de sua formatura: sem OAB Russomanno no dia de sua formatura: sem OAB

Russomanno no dia de sua formatura: sem OAB (/)

Sua saída do Detran foi rumorosa. Havia boatos de que em sua seção se negociava a venda de placas com números bonitos, como a que colocou no próprio carro, uma réplica de um Ford 29 montada por ele mesmo (UM-1111). Quando Montoro se elegeu, sucedendo a Maluf, Russomanno deixou o Palácio dos Bandeirantes e virou assessor do vice-presidente da República, Aureliano Chaves, chefiando um escritório de representação em São Paulo. Como “aspone” de Aureliano, Russomanno pôde dedicar-se mais ao que vinha fazendo desde 1980, uma empresa de promoções em casas noturnas. Nessa época, já circulava nos bastidores da televisão e chegou a participar de algumas gincanas da Gazeta. Fez campanha para Jânio Quadros em 1985, e em 1986, cacifado pelo chefe Aureliano, tentou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Teve 3.800 votos.

Russomanno tenta obter notícias sobre a mulher e manda registrarem a cena Russomanno tenta obter notícias sobre a mulher e manda registrarem a cena

Russomanno tenta obter notícias sobre a mulher e manda registrarem a cena (/)

Hoje, ele sonha alto. Com o título de campeão de votos e o lema que o tomou famoso na televisão – “Estando bom para ambas as partes, está bom para Celso Russomanno” -, ele pretende disputar a liderança do PSDB. A pretensão do deputado eleito provoca risos entre os futuros pares da bancada tucana, apesar de seu prestígio com o padrinho Covas. Na última terça-feira, Russomanno reuniu-se com o candidato a governador de São Paulo pelo PSDB no hotel Crowne Plaza para discutir estratégias para o segundo turno das eleições. Reeleito, o deputado José Aníbal lembra que Russomanno ainda tem muito o que aprender na política. “A coisa lá é muito diferente de uma briga de vizinhos”, diz.

Antes de se preocupar com a liderança parlamentar, Russomanno tem problemas imediatos para colocar em ordem. A casa em que mora, na Rua Adalívia de Toledo, perto do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, é um espinho na sua biografia de bom moço. Construída no estilo anos 60, com abundância de vitrais e vãos, a casa tem piscina e dois andares. Pela cotação de mercado, vale 400 000 dólares. Em dezembro do ano passado, Russomanno fechou o negócio por 300.000 dólares, com a facilidade de que a proprietária da casa é mãe do segundo marido de sua sogra, Márcia Torres. O contrato foi assinado por Berenice Ribeiro, cunhada de Márcia e procuradora da mãe. A dívida deveria ter sido quitada até junho, em cinco parcelas. Nesse período, ele pagou apenas 10.000 dólares e se recusava a discutir o restante até Berenice ameaçar levar o caso à imprensa.

Russomanno deu mais 34.000 dólares e teria ameaçado matar outro irmão de Berenice, José Carlos, se o caso se tornasse público. A ameaça está registrada em boletim de ocorrência. O agora deputado não nega as acusações de Berenice e se defende invocando o Código de Defesa do Consumidor. “Isso não pode ser publicado. Sou um devedor inadimplente e a lei proíbe que se escrache quem deve, e eu vou pagar.” “Ele é um farsante que está agindo de má-fé e colocou o dinheiro da minha casa na campanha política”, afirma Berenice. “Só não entrei na justiça para pegar a casa de volta porque meu irmão não deixa”, acrescenta. O rolo do comprador Celso Russomanno seria um prato cheio para o repórter Celso Russomanno.

“Nunca li um romance” – Dono de uma caprichada coleção pessoal de fotos 3 por 4. Celso Russomanno é um campeão de audiência na TV avesso à literatura. Ele tem opiniões curiosas sobre vários assuntos. Alguns exemplos:

LIVROS – “Nunca li ficção, romance. Só livro jurídico.”

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO – “É um bom homem.”

ITAMAR FRANCO – “Soube escolher seu ministro da Fazenda.”

MÚSICA – “Gosto das que me agradam aos ouvidos. Pode ser samba, rock ou música peruana.”

REGIME MILITAR – “Em 1964, dizem os livros de História, os navios americanos estavam cercando o Brasil e, se não houvesse uma solução, o Brasil seria invadido. Foi uma decisão soberana.”

DIVERSÃO – “Adoro dançar. Vou da lambada ao tango.”

MULHERES – “Prefiro as mais jovens. Na minha faixa etária, só tem encrenca. Ou a mulher é desquitada ou encalhada.”

PRIVATIZAÇÃO DO PACAEMBU – “Não estou por dentro. Mas sou a favor da privatização das estradas.”

CRISE NO HAITI – “Por causa da campanha, fiquei sem tempo de ler os jornais. Soube que um general de lá renunciou.”