Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Imagem distorcida: mulheres são maiores vítimas da ‘síndrome do impostor’

A quarentena comprovou que elas são as que mais sofrem com a eterna sensação de não estarem à altura das funções que desempenham

Por Duda Monteiro de Barros Atualizado em 4 jun 2024, 14h04 - Publicado em 16 abr 2021, 06h00

Como se não bastasse a trabalheira imposta às mulheres na tripla jornada de trabalhar em home office, cuidar das tarefas domésticas e dar conta das crianças, a pandemia, sempre ela, vem contribuindo para aumentar os casos de um distúrbio insidioso, perturbador e, na maioria dos casos, escondido de todo mundo: a sensação de incompetência, de ser incapaz de fazer qualquer coisa direito — uma fenda na autoestima exacerbada pelo isolamento, que distancia a pessoa do mundo real e objetivo e a submerge mais ainda no ambiente filtrado e sem defeitos da internet.

Batizado de síndrome do impostor (embora não seja uma patologia), o conjunto de sintomas psicológicos associados ao sentimento de incapacidade, sobretudo nos ambientes acadêmico e profissional, é diagnosticado há décadas. No último ano, porém, ficou evidente que o comportamento, uma espécie de autossabotagem, afeta mais as mulheres do que os homens. “Sinto-me insuficiente como mãe e, principalmente, como profissional. As redes sociais agravaram o quadro, porque ficava me comparando com a vida perfeita que os outros parecem ter”, diz a paulista Camila Fremder, de 39 anos, que apresenta dois podcasts de sucesso, mas nunca escuta o próprio trabalho porque acha que não são bons o bastante.

Por terem entrado mais tarde no mercado de trabalho e lidarem até hoje com notórias desigualdades de tratamento, muitas mulheres encaram com preocupação e evidente insegurança os avanços na carreira. “Mesmo hoje, elas ainda são vistas como o sexo frágil, a quem cabe ser mãe e cuidar da casa porque são incapazes de cumprir obrigações profissionais”, observa a psicanalista Edoarda Paron. “Isso obviamente gera uma autopercepção bastante negativa.” O sentimento de não ser capacitada e estar enganando todo mundo espalha-se por diferentes profissões e classes sociais. Ele não impede que a mulher se desenvolva, é verdade, mas envolve o processo em doses exageradas de sofrimento e dúvidas.

ATÉ ELAS - As muito bem-sucedidas Meryl, Emma, Kate e Michelle (em sentido horário): exposição de sua insegurança ao admitir que sofrem da incômoda sensação de incapacidade -
ATÉ ELAS - As muito bem-sucedidas Meryl, Emma, Kate e Michelle (em sentido horário): exposição de sua insegurança ao admitir que sofrem da incômoda sensação de incapacidade – (James Devaney/Getty Images/Reprodução/Instagram)

A síndrome atinge, sim, muitas mulheres de prestígio reconhecido mundialmente: a ex-primeira dama americana e superinfluenciadora Michelle Obama, bem como as atrizes Emma Watson, Jodie Foster, Meryl Streep e Kate Winslet estão entre as que declararam sofrer esse tipo de insegurança. “Fico pensando: por que alguém vai querer me ver de novo em um filme? Além disso, não sei atuar, então por que continuo fazendo isso?”, abriu-se com franqueza, certa vez, Meryl Streep, a atriz multi-­Oscar. “A síndrome de impostor é dureza”, definiu Michelle em entrevista. “Duvidamos da nossa capacidade de julgamento, das nossas habilidades e dos motivos para estarmos naquela posição”, reforçou ela.

Continua após a publicidade

Um estudo realizado pela Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, mostrou que 70% das entrevistadas, todas executivas influentes, se sentem “uma fraude”, ou seja, não merecem os cargos que ocupam. A apresentadora e escritora brasileira Rafaella Brites, 34 anos, revela que sente o problema desde a faculdade e que foi piorando à medida que se via mais cobrada, ao ganhar visibilidade e reconhecimento profissional. Em 2020, Rafaella penou para lançar um livro — sucesso de vendas, diga-se de passagem — contando sua experiência com a síndrome. “Não entendia por que as pessoas comprariam meu livro, com tantas escritoras muito mais relevantes. Não me comparar com os outros e continuar escrevendo foi um exercício diário”, lembra.

Experiência semelhante relata a fotógrafa Hannah Lydia, 24 anos, sempre sobressaltada com a perspectiva de descobrirem que é “uma farsa” — mesmo tendo recebido prêmios por seu trabalho. Se não for tratado, em geral com terapia, avisam especialistas, o distúrbio pode desencadear ansiedade e depressão. “A pessoa se sente culpada diante do fracasso e, quando conquista algo, atribui à sorte ou ao destino”, diz a psicóloga Ciça Conte. Reconhecer a existência do problema é essencial, mas, ressalta a consultora de recursos humanos Sofia Esteves, as empresas também precisam fazer sua parte, valorizando a contribuição feminina, uma ação ainda lenta e tímida em vários locais de trabalho. “Cabe às corporações se esforçar para que as mulheres se sintam confortáveis e confiantes”, afirma. Da ultrabem-­sucedida Michelle Obama vem a lição definitiva: “Encare os pensamentos negativos, sem deixar que eles a impeçam de ocupar espaços e fazer seu trabalho. A única maneira de crescer e superar os medos é aprender a confiar que sua voz e suas ideias têm valor”. Michelle sabe o que diz.

Publicado em VEJA de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.