Hipocrisia em família

Omissão é igual cumplicidade nos casos de abuso doméstico

Por Walcyr Carrasco - Atualizado em 1 nov 2019, 11h12 - Publicado em 1 nov 2019, 06h00

Um casal de amigos meus teve, durante anos, uma babá. As crianças cresceram, mas eles continuaram amigos daquela mulher simples, do interior. Ela visita os dois com frequência. Conto isso para mostrar o nível de confiança e amizade em torno dessa mulher. Há alguns anos, ela foi trabalhar na casa de outro casal, conhecido do primeiro. Meses depois, horrorizada, a babá fez uma acusação: o pai abusava da filha, ainda uma menininha. Denunciou o homem à mãe da criança. Teve medo de ir à polícia, por ser “minha palavra contra a dele”, como se expressou. Foi um rolo. Meus amigos, escandalizados, não conseguiam entender como um homem rico, esclarecido, era capaz disso. A mãe botou o marido na parede. Ele confessou o abuso. Foi a um psiquiatra. E… surpresa! O casal se reconciliou. A mãe “perdoou”. Os dois estão até hoje juntos, e fica a sensação de que há alguma coisa errada, escondida sob a fachada de uma família rica, “certinha”.

“Há uma espécie de regra entre famílias burguesas. Uma protege a outra, os escândalos ficam abafados”

Recentemente, o mesmo casal de amigos arrumou novo emprego para a babá. Alguns meses depois, ela veio com idêntica história: o pai estaria abusando da filhinha. O homem é um grande empresário. Todos chegaram à conclusão: a culpa era da babá! Acharam que ela tinha problemas mentais e via abuso em todo lugar. Pensaram até em internar a mulher. Há uma espécie de regra entre famílias burguesas. Uma protege a outra, os escândalos ficam abafados. Ninguém chama a polícia. Mas os fatos vieram à tona: as partes íntimas da menina apareceram inflamadas. Ela pedia que não fosse mais forçada a “pegar no piu-piu do papai”. Meu amigo entrou em crise: como um grande empresário era capaz de abusar da filha? Expliquei a ele que abuso não é circunscrito a uma classe social. Rico abusa, sim, só que ninguém fica sabendo. A mãe da criança soube da história e silenciou. Novamente a babá não teve coragem de ir à polícia. Eu, que até hoje não sei o nome do abusador, insisti com meu amigo: ele mesmo deveria denunciar. Quando se sabe de algo assim, omissão é igual cumplicidade. Meu amigo respondeu que não queria destruir a família etc. etc. Espantado, perguntei: essa família já não estava destruída?

Muito bem. Não estava. A mãe conversou com o pai. Como o outro casal, resolveram “superar” a situação. Continuaram com a aparência de uma família margarina, feliz e bem-sucedida. Ele prometeu não fazer mais etc. etc. Meu amigo também ficou quieto. Penso nessa pobre menininha, crescendo nessa família de abuso consentido. Vejo políticos, religiosos defender “a família”. Exatamente esse tipo de família que de longe parece perfeitamente correta. Mas embaixo dessa felicidade… Quantos abusos, quanta crueldade estão escondidos sob uma imensa hipocrisia? Ninguém quer tocar nessas pessoas porque são ricas. E, se forem denunciadas, terão ótimos advogados. Nada vai acontecer. Como ocorreu nesta história. Tudo continuou perfeitamente igual. Ah, não. Só uma pessoa sofreu as consequências. A babá foi demitida. Sem referências.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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