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Força-tarefa recebe 40 denúncias contra João de Deus em um dia

Autoridades já começaram a agendar os depoimentos de mulheres que afirmam ter sido abusadas sexualmente pelo médium

A força-tarefa do Ministério Público e da Polícia Civil de Goiás, criada para investigar as suspeitas contra João Teixeira de Faria, o João de Deus, recebeu quarenta denúncias de abuso sexual em seu primeiro dia de trabalho. Os agentes foram contatados por quarenta mulheres que afirmam ter sido vítimas do médium e já começaram a agendar os depoimentos.

No fim de semana já haviam sido registrados dois boletins de ocorrência contra o líder religioso, que faz seus atendimentos na cidade goiana de Abadiânia.

Luciano Meireles, coordenador do centro de apoio operacional criminal do Ministério Público de Goiás, afirmou que vítimas de outros estados podem buscar também o Ministério Público mais próximo para prestar depoimento. As investigações ficarão concentradas em Goiás.

Diante das denúncias, as autoridades podem pedir o fechamento preventivo da Casa Dom Inácio de Loyola, onde os atendimentos de João de Deus são realizados. “Temos ainda que avaliar os depoimentos que forem formalizados. Dependendo do que for constatado, essa hipótese não está descartada”, disse Meireles.

Marcella Orçai, delegada de Goiás, afirmou que, além das novas denúncias, outros dois inquéritos contra o médium estão em curso. Um deles de 2016 e outro foi aberto neste ano. “Ambos estão em estágio avançado”, afirmou. Marcella, que atribuiu a demora na investigação dos dois casos à “complexidade” da investigação e também à resistência de uma das vítimas em continuar o inquérito.

Primeiros casos

As denúncias ganharam força depois que o programa Conversa com Bial, da TV Globo, apresentou depoimentos de mulheres que buscaram atendimento espiritual com o líder e disseram terem sido abusadas. Os relatos contêm vários pontos em comum: a estratégia adotada pelo médium para atrair as vítimas, o local onde o abuso ocorria e as ameaças feitas para as mulheres.

Embora os relatos de abusos tenham aumentado, promotores afirmam ser indispensável que as vítimas formalizem suas denúncias. Além dos depoimentos, serão usados como prova laudos realizados por psicólogos. Meireles afirmou que, de acordo com o andamento da coleta de provas, casos semelhantes que já haviam sido arquivados poderão ser reabertos.

A equipe já identificou um caso arquivado e um processo em que João de Deus recebeu uma acusação semelhante, mas foi absolvido. O representante do Ministério Público de Goiás afirmou que as penas, somadas, poderiam chegar a mais de 150 anos.

João de Deus passou a segunda-feira em São Paulo para se encontrar com seu advogado, Alberto Zacharias Toron. De acordo com o defensor, um ofício foi encaminhado ao Ministério Público e outros seriam enviados à Delegacia de Polícia e ao Fórum de Abadiânia informando que o médium está à disposição para esclarecimentos. “Ele volta para Abadiânia para exercer o trabalho dele, ajudando as pessoas como vem fazendo nos últimos quarenta anos.”

Para tentar tornar mais ágil as denúncias, o Ministério Público de Goiás criou um e-mail específico para receber relatos das vítimas: denuncias@mpgo.mp.br. Depoimentos feitos no exterior também serão registrados. De acordo com a delegada Marcella, isso poderá ser feito nas embaixadas.

Editora suspende livro

A editora Companhia das Letras anunciou nesta segunda-feira, 10, que suspendeu a distribuição do livro João de Deus: Um Médium no Coração do Brasil, publicado pelo selo Fontanar em 2016. O livro é de autoria de Maria Helena Pereira Toledo Machado, professora de história na Universidade de São Paulo (USP) e frequentadora da Casa Dom Inácio de Loyola.

Por meio de nota, a editora disse estar “surpreendida com as denúncias de práticas de estupro e de abuso sexual contra o médium” e que tomou a decisão de “comum acordo com a autora”.

(Com Estadão Conteúdo)