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Folia das emendas: os caríssimos shows em pequenas cidades bancados com verba federal

Usando dinheiro repassado por deputados e senadores, municípios com menos de 30 mil habitantes pagam até R$ 900.000 por artistas de renome nacional

Por Bruno Caniato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Anna Satie Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 mar 2026, 14h58 •
  • Cada vez mais expressivas no orçamento da União, as famigeradas emendas Pix são notórias por permitir que deputados e senadores liberem recursos federais diretamente aos municípios com facilidade e baixíssima transparência. Criado em 2019 sob o pretexto de agilizar investimentos em políticas públicas, o mecanismo rapidamente se consolidou como uma espécie de “cheque em branco” que as prefeituras podem sacar diretamente do caixa nacional para financiar uma miríade de projetos locais, sem a obrigação de apresentar grandes esclarecimentos ou justificativas sólidas para as despesas.

    Como mostra reportagem de VEJA, as emendas Pix vêm se destacando como apostas de prefeitos do interior do Brasil para levar shows de renome nacional a municípios pequenos e com pouca estrutura para recebê-los — com frequência, os eventos têm forte cunho de propaganda eleitoral, com gestores locais subindo aos palcos dos artistas e discursando à população, e são contratados a cachês exorbitantes para o tamanho das apresentações. Apenas em 2025, mais de 61 milhões de reais saíram dos cofres federais para bancar espetáculos do tipo.

    Os dados levantados por VEJA junto aos Portais da Transparência da União e das prefeituras ajudam a dimensionar o tamanho da farra. Um exemplo ocorreu em Malhador, no Sergipe, onde o astro do forró Wesley Safadão recebeu nada menos que 900.000 reais para se apresentar na Festa de Março em homenagem a São José, padroeiro da cidade de pouco menos de 12.000 habitantes. Se cada habitante pagasse um ingresso de 75 reais, ainda assim não daria para cobrir o custo do cachê. A cifra quase milionária não foi bancada pelos cofres municipais, mas por uma emenda parlamentar autorizada pelo deputado federal Rodrigo Valadares (União Brasil).

    Foi também no Sergipe que a dupla Iguinho e Lulinha, sucesso regional do forró e piseiro, se apresentou na Festa de Reis de Macambira, em abril, e na Festa do Vaqueiro de Porto da Folha, cinco meses depois — para tocar nos municípios de 7.000 e 27.000 habitantes, respectivamente, os irmãos faturaram 400.000 reais por cada show. Os recursos para custear a folia foram liberados via emendas Pix pelo deputado federal Ícaro de Valmir (PL) e pelo senador Rogério Carvalho (PT) — no segundo caso, o petista também autorizou 480.000 reais para o cachê do cantor Amado Batista, que tocou no mesmo evento que a dupla forrozeira.

    Por sua vez, o município de Epitaciolândia, no Acre, teve a popstar gospel Isadora Pompeo como atração principal da 4ª Semana Evangélica da cidade, cuja população não chega a 20.000 moradores. O show custou 250.000 reais apenas para o cachê da artista, inteiramente financiado por uma emenda parlamentar assinada pela deputada Antônia Lúcia (Republicanos) — ao todo, a parlamentar repassou quase 1,5 milhão de reais para a semana gospel e um circuito country no mesmo município,

    Já em Caatiba, no interior da Bahia, outros 250.000 reais foram pagos ao cantor Vitor Fernandes, o “Rei do Piseiro”, para se apresentar durante as festividades juninas do município de 6.200 habitantes, em 2025. A verba foi autorizada pelo deputado federal Gabriel Nunes (PSD), aliado e colega partidário do prefeito Humberto Antunes, em emenda parlamentar que destinou um total de 600.000 reais aos festejos da pequena cidade baiana.

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