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Esperando Godot

Coluna publicada em VEJA de 3 de outubro de 2018, edição nº 2602

Um roteirista de tramas improváveis não faria melhor. Da campanha presidencial de 2018 sobrará, como dado mais revelante e toque de surrealismo, que o duelo decisivo se travou entre uma cela de prisioneiro e um quarto de hospital. O ocupante da cela, em Curitiba, e o do quarto do hospital, em São Paulo, compartilham a bizarria de ao mesmo tempo terem dominado o centro da trama e permanecido desaparecidos da vista pública. O roteiro tem um tanto de drama e outro de comédia. De seguro, pode-se avançar que, vença Jair Bolsonaro, o enfermo de São Paulo, vença Fernando Haddad, preposto e alter ego do prisioneiro de Curitiba, conforme indicam as pesquisas, no dia seguinte o Brasil não terá sos­sego. Quis a desditosa trama que a disputa se estreitasse entre representantes de tribos irredutíveis. Para uma ou para a outra, a luta continuará.

Estamos, Deus nos acuda, diante de dois projetos de salvação da pátria. Bolsonaro é o “mito”, para os seguidores. Lula, depois da prisão, virou um pouco mais que humano. É o demiurgo que de sua cela de prisioneiro, transubstanciada em caverna de anacoreta, ou santuário de oráculo, transmite a mensagem divina.

Como sói acontecer quando a dispu­ta é entre duas partes irredutíveis, a democracia treme nas bases. Da parte de Bolsonaro a ameaça é explícita, e vem embalada para os dois casos, o de derrota e o de vitória. “O PT descobriu o caminho para o poder: o voto eletrônico”, disse ele, numa de suas falas no hospital. Se vencido, denunciará o sistema eleitoral. Em caso de vitória, os últimos ataques à democracia têm ficado por conta do candidato a vice, general Hamilton Mourão, autor da hipótese de “autogolpe” — aquele em que o presidente derruba as instituições em proveito próprio. Getúlio desferiu-o ao proclamar o Estado Novo, em 1937. Costa e Silva o repetiu em 1968, ao baixar o Ato Institucional Nº 5. Alberto Fujimori o perpetrou no Peru, em 1992.

Estamos, Deus nos acuda, diante de dois projetos de salvação da pátria

A ameaça do PT à democracia não é explícita, nem vem de seu candidato. Haddad é um intelectual com visão aberta e afeito ao diálogo. Mesmo Lula tem credenciais de democrata; governou em parceria com diferentes correntes e não se deixou levar pela tentação do terceiro mandato. A questão é o resíduo bolchevista que habita o núcleo duro do PT. Entre suas crenças permanece, herdada dos antigos partidos comunistas, a de que é detentor da chave da história. Ora, quem detém a chave da história não entra em eleição para cumprir mandato; entra para fazer a história andar, tarefa de sua exclusiva competência. Acresce que o duplo castigo do impeachment e da prisão aguçou no PT a sede de vingança.
A campanha impôs encargos opostos aos dois candidatos. Ao tosco Bolsonaro, impôs mostrar-se mais preparado do que é. Ele foi parcialmente salvo pelo recolhimento que o poupou dos debates e entrevistas. Ao preparado Haddad, impôs mostrar-­se o tosco intérprete do impedido Lula. A ignorância de Bolsonaro teve seu espelho nos gravames que sufocam a inteligência de Haddad.

“Il peggio non è mai morto”, o pior nunca está morto, dizem os italianos. Quem se aflige com a campanha, imagine o dia seguinte à vitória de um e outro candidato. Não será fácil para Haddad desfazer-se da máscara de Lula, tão afivelada lhe ficou no rosto. Haverá visitas comemorativas à cela em Curitiba e consultas para a formação do ministério. O candidato foi apenas o bastante procurador do verdadeiro vencedor, essa é a realidade dos fatos. Haddad enfrentará o desafio de recuperar a identidade em meio a um frenesi de atenções ao prisioneiro e pressões por sua libertação. De quebra, terá a amarrar-lhe os passos a bola de ferro da militância e da estrutura do PT.

Enquanto Haddad terá amparo de mais, Bolsonaro o terá de menos. Nem com o Posto Ipiranga, como ele chama o economista Paulo Guedes, é certo que poderá contar. “Em todas as nossas conversas, ameaçou abandonar o barco”, escreveu a jornalista Malu Gaspar, no revelador perfil de Guedes que publicou na revista Piauí. Numa dessas ocasiões, o economista disse que vê-lo abandonar a campanha é “o sonho de todos” que querem a desgraça de Bolsonaro, mas que “esse prazer” não lhes dará. E acrescentou: “Só depois que ele for eleito”. Tradução: no dia seguinte, o candidato poderá encontrar o Posto Ipiranga fechado.

Nos poucos dias que faltam para a eleição, ainda haverá chance para um candidato de centro? O problema do centro é sua invencível falta de charme. E o colunista nem está se referindo a Alckmin. É o centro mesmo, em si.

Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2018, edição nº 2602