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De Reagan a Trump: as políticas antidrogas dos EUA que miram a América Latina

No século passado, mortes, apreensões e invasão territorial dominaram a guerra ao narcotráfico, o que se assemelha aos dias atuais

Por Heitor Mazzoco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 mar 2026, 08h00 •
  • Não é exclusividade de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, criar políticas antidrogas sob argumento de ameaça ao território americano e mirar outros países, principalmente da América Latina. O modus operandi da Casa Branca sobre o assunto data do final da década de 1960 e começo dos anos 1970, à época, sob o comando de Richard Nixon. Mas nos anos 1980, já no governo Ronald Reagan, os países entraram na mira do republicano.

    “Em 1986, o governo do Ronald Reagan passou a certificar os países que combatiam ou não o narcotráfico. O país combate, embora ele não tenha recursos materiais, mas ele busca combater o narcotráfico, ou o país acaba fazendo vista grossa? A partir disso, os Estados Unidos começaram a sancionar os países. Então, ele passou a cassar visto de presidentes”, explica Roberto Goulart de Meneses, professor associado do Instituto de Relações Internacionais, da Universidade Nacional de Brasília (UNB)

    Belisario Bentacur (à esq.) com o presidente americano Ronald Reagan, em encontro em 1985
    Belisario Bentacur, da Colômbia, e o americano Ronald Reagan, em 1985, mantiveram boas relações diplomáticas (Bettmann/Getty Images)

    Mesmo após deixar a Presidência dos Estados Unidos, em 1989, os efeitos da decisão de Reagan atingiram o então presidente da Colômbia Ernesto Samper, que em 1996, na gestão de Bill Clinton, teve seu visto de entrada no país da América do Norte revogado. A acusação que pesava contra Samper era de um suposto financiamento de campanha oriundo do cartel de Cali. Meneses disse que o então presidente colombiano não tinha relação com o tráfico, e lembrou um episódio recente da gestão do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

    Em 2019, o segundo sargento Manoel Silva Rodrigues fora preso no aeroporto de Sevilha, na Espanha, por transportar quase 40 kg de cocaína em sua bagagem, em uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB). Segundo relatou a Câmara dos Deputados, à época, a aeronave onde estava o militar, que atuava como comissário de bordo em voos da FAB, costuma fazer a rota presidencial antes do avião do presidente em viagens longas. Bolsonaro seguia viagem para o Japão em outro avião. Na época, ele classificou a situação como inaceitável, desrespeitosa ao Brasil e pediu punição severa ao militar, que fora condenado a 17 anos de prisão. Uma situação como essa, segundo Meneses, poderia implicar até mesmo o presidente da República em questão. “O militar foi pego na Espanha, tinha cocaína no avião, mas não era do presidente. É um caso similar ao que aconteceu com Samper”, alerta o especialista.

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    No século passado, os narcotraficantes da Colômbia passaram a ser inimigos número 1 dos Estados Unidos. Um dos mais famosos criminosos era Pablo Escobar — que até os dias de hoje é tratado como herói em pontos periféricos de Medellín, com desenhos e estampas de camisetas em homenagem. Nos anos 1980, o então presidente colombiano Belisario Bentacur manteve boas relações com o governo Reagan para auxiliar no combate ao narcotráfico. Situações parecidas como as da atualidade ocorreram no período, mas em dimensões mais catastróficas. Os traficantes colombianos, por exemplo, mantinham uma lista com nomes de americanos — integrantes do governo, empresários, jornalistas –,  que atuavam no combate às drogas,  o que, à época, fora considerada lista de marcados para morrer.

    Entrée de la propriété de Pablo Escobar
    Soldados ocupam fazenda do criminoso Pablo Escobar, em 1989: na entrada, réplica de avião usado para levar drogas aos EUA (Eric VANDEVILLE/Gamma-Rapho/Getty Images)

    O combate às drogas do século passado foi marcado também pela invasão norte-americana ao Panamá, no final dos anos 1980. O então líder daquele país, Manuel Noriega, da Libertação Nacional, permitira que Escobar e os narcotraficantes colombianos usassem o país da América Central para passar drogas com destino aos Estados Unidos. Em 1992, Noriega fora condenado a 40 anos de prisão por tráfico, lavagem de dinheiro e extorsão. A pena fora reduzida para 17 anos e toda cumprida. Ele foi, posteriormente, condenado por crimes na França e Panamá. Ele morreu em 2017, em prisão domiciliar, em seu país de origem.

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    Mexicanos e Tren de Aragua: os inimigos de Trump

    Na atualidade, o governo americano comandado por Trump classificou cartéis mexicanos (Jalisco Nova Geração e Sinaloa) e o Tren de Aragua, bando venezuelano, como narcoterroristas. Há possibilidade de as organizações brasileiras Primeiro Comando Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) seguirem o mesmo rumo. Depois das decisões, o governo americano invadiu a Venezuela, capturou o então ditador Nicolas Maduro e bombardeou embarcações apontadas como pertencentes aos criminosos do Tren de Aragua.

    Informações obtidas por VEJA por meio de fontes na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) mostram que os mexicanos ampliaram a atuação no Brasil diante, por exemplo, do alto consumo de drogas no país. Há evidências de que atuem por meio da fronteira com o Paraguai. Já os venezuelanos firmaram, segundo autoridades de Roraima, parceria com o PCC para atuação a partir do Norte brasileiro. Em troca, há intenso fornecimento de armas ao bando brasileiro. Há presença de integrantes do Tren de Aragua também nos estados do Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná). Isso porque, eles tentam atuar em áreas de fronteira para facilitar diálogo na língua espanhola.

    O Tren de Aragua atua com tráfico de drogas, extorsão, prostituição e contrabando de pessoas (coiotes, comuns na América Central). A preocupação americana com o crescimento do grupo é tamanha que a administração Trump oferece até 12 milhões de dólares (63 milhões de reais na cotação atual) por informações dos líderes do grupo.

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    Guerrero: Líder máximo do Tren de Aragua
    Guerrero: Líder máximo do Tren de Aragua (Departamento de Tesouro dos EUA/Reprodução)

    A principal liderança da facção venezuelana, segundo dados do governo dos EUA, é Hector Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como Niño Guerrero, 41 anos, que já está no radar das policiais não apenas venezuelanas, mas também da Colômbia, Equador, Chile, Peru, Brasil e EUA.  Ele foi condenado por homicídios, tráfico e contrabando. “Niño Guerrero está envolvido em atividades criminosas há mais de duas décadas e transformou o Tren de Aragua de uma gangue prisional envolvida em extorsão e suborno em uma organização com crescente influência em todo o Hemisfério Ocidental”, cita o Departamento de Tesouro dos EUA, que oferece 5 milhões de dólares (27 milhões de reais na cotação atual) por informações sobre Guerrero. 

    Ainda segundo informações do governo dos EUA, um dos aliados mais próximos de Niño Guerrero é Yohan José Romero, conhecido como Johan Petrica, 47 anos. “É responsável pelos esforços ilegais de mineração do grupo na Venezuela. Além disso, Johan Petrica fornece ao Tren de Aragua armas de nível militar usadas para controlar as ruas da Venezuela e combater a guerrilha colombiana”, informou o Departamento de Tesouro americano. Um terceiro criminoso do Tren de Aragua que está entre os nomes da cúpula da organização criminosa é Giovanni Vicente Mosquera Serrano, 37 anos. Ele entrou na lista dos 10 mais procurados do FBI em julho deste ano por ser  “procurado por inúmeras acusações federais”, divulgou a polícia americana.

    De acordo com dados atualizados do governo dos Estados Unidos, mais de 5 milhões de compridos de fentantil foram apreendidos em território americano apenas em 2026. Já a apreensão de metanfetamina está próxima de 700 mil comprimidos apenas neste ano. A guerra às drogas, pelo visto, está longe de um fim.

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