No fim dos anos 1940 e início dos 1950, quando o bebop reinventou o jazz, enriquecido com fraseados complexos, de saltos instrumentais mais próximos da respiração da vida que do estilo anterior, de bandas que faziam som para dançar, o saxofonista Sonny Rollins foi rapidamente etiquetado como um dos mais valiosos membros do modo nascente. Ao lado de Thelonius Monk, Max Roach e Miles Davis, brilhava com ousadia rítmica e riqueza harmônica. Mas voou alto, tão alto, que em pouco tempo já era impossível rotulá-lo. Como classificá-lo? “A música que toco é grande demais para ser encaixada em um único estilo”, disse certa vez. “Toda vez que pego o instrumento quero ouvir algo novo.” Ouvi-lo tocar St. Thomas, do álbum inicial Saxophone Colossus, é, de fato, um colosso. Tenor Madness, na única parceria com John Coltrane, é um duelo de gigantes. There Is No Greater Love é um solo de chorar. Rollins morreu em 25 de maio, aos 95 anos, o derradeiro gênio de uma era revolucionária.
Sai da frente
O piloto americano Kyle Busch começou a acelerar carros aos 13 anos de idade — e rápido foi possível notar o estilo impetuoso e agressivo ao volante, que o faria ser conhecido pela alcunha de “Wild Thing”, lenda na modalidade que o consagrou. Foi duas vezes campeão da NASCAR Cup Series, a elite do automobilismo nos Estados Unidos, em 2015 e 2019. Conseguiu 63 vitórias na carreira, a nona maior marca na história da competição. Quem mais subiu no lugar mais alto do pódio foi Richard Petty. Busch também estourou a champanhe 102 vezes na Auto Parts Series, tida como a segunda divisão da NASCAR, e 69 vezes na Truck Series, competição que utiliza caminhonetes. Depois de um quadro de pneumonia, que provocou uma sepse, Busch morreu em 21 de maio, aos 41 anos. Tinha vencido sua derradeira prova em 15 de maio.
Ele tinha um sonho
O advogado Clarence Jones foi sempre personagem à sombra — daí o extraordinário fascínio de sua figura. Na moita, por assim dizer, ele se reuniu com a turma do reverendo Martin Luther King, em 1963, em um apartamento encardido do Bronx, para planejar a Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade, em agosto daquele ano. Mais do que isso, Jones ajudou Luther King a rabiscar o discurso que faria história, tanto no trecho escrito como na construção de ideias ao improviso. No meio das palavras proferidas com calma, a cantora gospel Mahalia Jackson gritou: “Conte a eles sobre o sonho”. Luther King e Jones se entreolharam, e dali brotou um instante quase mágico, seminal: “Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos pequenos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo seu caráter. Eu tenho um sonho hoje”. Jones morreu em 22 de maio, aos 95 anos.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997





