A ironia era a característica mais marcante — e a mais interessante — do humorista, compositor e cantor carioca Juca Chaves. Capaz de mesclar crítica política com romantismo, ele não perdoava nada e ninguém em busca do riso. Em 1960, no início da carreira, foi logo dizendo a que veio, ao cutucar o presidente Juscelino com um pequeno clássico, Presidente Bossa Nova: “Bossa nova mesmo é ser presidente / desta terra descoberta por Cabral / para tanto basta ser tão simplesmente / simpático, risonho, original / depois desfrutar da maravilha / de ser o presidente do Brasil”. Com o golpe militar de 1964, não lhe restou outro caminho a não ser o exílio, entre Portugal e Itália. Voltou afiado. Apelidado de “menestrel maldito” por Vinicius de Moraes, seguiu com letras ferinas e comentários sarcásticos. “Sabe como se mede um burro? Médici, dos pés à cabeça”, escreveu, o dedo em riste para o general de plantão, em 1970. “Upa, upa, upa cavalinho sem medo / leva pra Brasília o presidente Figueiredo”, comporia para o derradeiro mandachuva de quepe. Quando Chico Anysio se casou com Zélia Cardoso de Mello, que fora ministra de Collor no tempo do confisco da poupança, em 1992, ele não perdoou: “O Chico é o pai de todos os humoristas, que todos nós tanto admiramos. O problema é que ele acabou se casando com a própria piada”. Inteligente, sabia rir de si mesmo. Muito rico — chegou a ter uma coleção de 38 carros esportivos —, conclamava os fãs: “Vá a meu show e ajude o Juquinha a comprar seu caviar”. Ele morreu em 25 de março, aos 84 anos, de problemas respiratórios, em Salvador, na Bahia, onde vivia há mais de duas décadas.
O mentor da revolução dos chips
O engenheiro americano Gordon Moore, um dos criadores da Intel — a empresa do Vale do Silício que fornece cerca de 80% dos computadores pessoais do mundo com seu componente vital, o microprocessador —, era a um só tempo homem de pôr a mão na massa e de pensar sua atividade. Em 1965, ele publicou um artigo numa revista científica com uma frase que logo seria apelidada de “Lei de Moore”. Eis o que disse Moore: o número de transistores em um chip de computador — que determina a velocidade, a memória e a capacidade de um dispositivo eletrônico — dobraria a cada ano, pelo mesmo custo. E assim foi, atalho para máquinas cada vez mais poderosas e mais baratas. “Todos nós que viemos depois de Gordon temos uma dívida de gratidão com ele”, disse Tim Cook, o atual presidente da Apple. Moore morreu em 24 de março, aos 94 anos, no Havaí, de causas não reveladas pela família.
Os olhos de Borges
A escritora, tradutora e professora María Kodama conhecia como poucos a obra monumental de Jorge Luis Borges (1899-1986), poeta, ensaísta e contista argentino, o mais celebrado escritor portenho de seu tempo. A proximidade da obra foi a antessala para a aproximação pessoal, e o casamento. Borges legou a Kodama os direitos autorais de seus escritos, em testamento registrado em 1979. Formavam um casal bonito e de evidente charme intelectual — Kodama era quem guiava Borges, já cego, no fim de sua vida. Ela morreu em 26 de março, aos 86 anos, em Buenos Aires.
Publicado em VEJA de 5 de abril de 2023, edição nº 2835







