O bioquímico francês Étienne-Émile Baulieu foi uma das vozes mais ativas em nome dos direitos das mulheres — sem jamais ter levantado uma bandeira ou um cartaz. Ele desenvolveu, no início dos anos 1980, um medicamento batizado de RU-486, também conhecido como “a pílula do aborto”. O remédio induz à interrupção da gravidez sem agressividade. A dose, ministrada por via oral ou injetável, só pode ser tomada até no máximo dez semanas de gestação. A pílula neutraliza os efeitos da progesterona — hormônio que, durante a gravidez, faz cessar as contrações uterinas que são normais fora do período de gestação, permitindo que o feto se desenvolva em paz dentro do útero. Sem a ação da progesterona, o processo de contração não para, o organismo expulsa o embrião e a gravidez é interrompida. Baulieu foi severamente criticado pela Igreja e pelos conservadores, que o atacaram sem piedade.
Em entrevista a VEJA, em 1990, ele resumiu sua intenção, com sensatez: “Espero que no futuro a RU-486 se torne uma inutilidade, substituída pela prevenção. Atualmente, ela é um mal menor, uma alternativa à violência do aborto mecânico. Em países mais pobres, como o Brasil, esses métodos criminosos são danosos à saúde das mulheres”. O presidente da França, Emmanuel Macron, resumiu a trajetória de Baulieu — nascido Blum, mas forçado a trocar de sobrenome por ser judeu, de modo a fugir da sanha nazista: “Poucos franceses mudaram tanto o mundo. Combatente da Resistência, defensor da contracepção, foi um espírito de progresso que permitiu às mulheres conquistar a sua liberdade”. Ele morreu em 30 de maio, aos 98 anos, em Paris.
A descobridora das Américas
A antropóloga Niède Guidon ajudou a mudar a narrativa corrente em torno da ocupação das Américas. A Teoria de Clóvis, tradicionalmente aceita, afirma que o homem chegou ao continente americano durante a época em que o Estreito de Bering esteve congelado, criando uma passagem entre a Sibéria e o Alasca, há cerca de 13 000 anos — as pesquisas de Niède apontam vestígios da presença humana no Piauí que datam de 60 000 anos ou mais, embora muitos tenham refutado sua conclusão. Ela assegurava que os indícios poderiam chegar a até 105 000 anos na Serra da Capivara, onde, aliás, ergueu um fabuloso parque para pesquisa e turismo. Ela morreu em 4 de junho, aos 92 anos.
Ele não estava para brincadeira
Filho de judeus alemães que fugiram do nazismo, em 1937, Mario Adler transformou uma oficina de bonecas de pano comprada pelo pai na mais conhecida fábrica de brinquedos do Brasil, a Estrela, que em seu auge, nos anos 1970 e 1980, chegou a ter 7 000 funcionários e mais de 450 milhões de dólares em faturamento anual. São da Estrela o Banco Imobiliário, a boneca Susi, a Fofolete e o Jogo da Vida. Atento aos movimentos de marketing, nos anos 1950, por meio de uma maciça campanha publicitária, ele ajudaria a consolidar o 12 de outubro como o Dia das Crianças. Em 1993 abandonaria a presidência da companhia, que sairia das mãos da família em 2011, comprada por Carlos Tilkian. Adler morreu em 30 de maio, aos 86 anos.
Publicado em VEJA de 6 de junho de 2025, edição nº 2947





