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Como punks e skinheads se enfrentam em SP

Por trás da morte de Johni Galanciak, no último sábado, existe uma história de rixas violentas que, invariavelmente, terminam em morte

Por Bruno Abbud - 7 set 2011, 19h12

De acordo com o manual de regras de um grupo de skinheads, apreendido pela polícia, os “soldados” só podem usar suspensórios ou cadarços brancos se seus líderes permitirem, não podem pedir cigarro ou bebidas para membros de grupos rivais e devem comunicar aos superiores os assuntos ligados a “garotas”

Às 21 horas da última terça-feira, dois investigadores da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) deixaram o prédio da Polícia Civil, no centro de São Paulo, e caminharam até um bar nas redondezas. “Com licença, a gente precisa tomar um café e conversar”, disse um deles para os jornalistas que se espremiam na parede, fugindo do frio. Os repórteres estavam ali para cobrir os desdobramentos da morte de Johni Raoni Falcão Galanciak, 25 anos, esfaqueado durante uma briga entre gangues rivais no último sábado, em Pinheiros. Depois de poucos minutos de conversa, os investigadores partiram. No café, planejaram os próximos passos da investigação.

Na manhã deste feriado, os policiais saíram em busca de skinheads nacionalistas que costumam entregar folhetos durante as manifestações do Dia da Independência. Naquele sábado, no trecho da Rua Cardeal Arcoverde perto da casa de shows Carioca Club, um bando de skinheads neonazistas e nacionalistas entraram em confronto com punks e skinheads anti-fascistas. Johni era integrante do segundo grupo, uma gangue chamada Vício Punk. Esfaqueado, conseguiu levantar-se, cambaleou até um banco e desabou. Os membros da gangue de skinheads Impacto Hooligan são os principais suspeitos do assassinato de Johni. Por trás daquela pancadaria generalizada, existe uma história de rixas violentas que, invariavelmente, termina em morte.

Há quatro anos, na madrugada de, 21 de outubro de 2007, um domingo, um garoto de 17 anos foi espancado por mais de vinte punks no centro de São Paulo. Desfigurado, o menor foi encaminhado para um hospital no Jabaquara com fraturas no rosto, nos braços, nas costelas. Mas sobreviveu. Um dos agressores foi justamente Johni Galanciak, então com 21 anos. A vítima era Guilherme Witiuk Ferreira de Carvalho, o “Chuck”, hoje com 21 anos, líder do Impacto Hooligan. Segundo a polícia, Chuck costumava marcar presença em todas as badernas promovidas por gangues na capital. Seus crimes, contudo, se destacavam pela crueldade.

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Estatuto da gangue de neonazistas Front 88
Estatuto da gangue de neonazistas Front 88 VEJA

Chuck foi condenado a dois anos de prisão em regime fechado por ter armado a bomba que feriu 13 pessoas durante a Parada Gay de 2009. No entanto, permaneceu em liberdade até julho deste ano, quando foi flagrado pela polícia ao agredir mendigos perto da Rua Vergueiro, na região central. Hoje, o rapaz está preso no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros. O grupo que ele lidera caminha sempre junto dos neonazistas do Front 88, uma facção cujo nome é inspirado na saudação “Heil, Hitler” (o algarismo “8” corresponde à letra “h” no alfabeto. Por isso, o “88” no nome).

Estatuto da gangue de neonazistas Front 88
Estatuto da gangue de neonazistas Front 88 VEJA

Em 16 de junho de 2009, uma terça-feira, uma operação da Decradi cumpriu oito mandados de busca e apreensão nas casas de skinheads em diversas regiões da cidade. Na ocasião, um estatuto redigido por membros do Front 88 foi apreendido. Com oito tópicos, o texto qualifica os integrantes do grupo de “soldados” e os ensina a se vestir e a se comportar. Os “soldados” só podem usar suspensórios ou cadarços brancos, itens que caracterizam os neonazistas, se seus líderes permitirem. Não podem pedir cigarro ou bebidas para membros de grupos rivais. O texto também diz que assuntos sobre “garotas” devem ser comunicados aos líderes de imediato. “Temos que criar uma forte resistência para podermos lutar com nossos inimigos e exterminá-los”, diz outro trecho. Um dos inimigos era Johni.

Gangue enfraquecida ─ O grupo de skinheads Front 88 perdeu força em 2009, quando um de seus líderes, Rogério Moreira, foi preso. Um ano antes, Moreira e seu parceiro Ricardo Cardoso Sutanis, o Greguinho, foram atacados na Rua Augusta por Hugo Henrique de Almeida Grabow, ex-integrante do Front 88 e que havia migrado para o grupo Vício Punk, o mesmo de Johni Galanciak. Sutanis foi morto a facadas por Grabow. Moreira conseguiu escapar. Meses depois, Moreira tentou vingar a morte do amigo. Perseguiu Grabow, mas não conseguiu matá-lo. Foi preso por isso. Hoje, está confinado numa cela no Centro de Detenção Provisória Chácara Belém, na zona norte de São Paulo.

De acordo com um policial que investiga as gangues da capital, Grabow era morador de rua e aceitava integrar o grupo que mais lhe pagava cervejas. Por isso, migrou do Front 88 para o Vício Punk, tradicionais rivais. Moreira, por outro lado, sempre quis mostrar serviço para o resto de sua gangue de neonazistas. Andava sempre armado com facas e era briguento. No Front 88, era um “líder de rua”, aquele que toma as iniciativas para atacar os inimigos. A polícia acredita que ex-integrantes do Front 88 que migraram para o Impacto Hooligan foram os responsáveis pela morte de Johni Galanciak.

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