Cinco anos após morte do menino Henry, caso que chocou o país chega ao último ato
A mãe e o padrasto, acusados de serem os algozes, vão enfim sentar no banco dos réus
Em 8 de março de 2021, a vida de Henry Borel foi interrompida quando ele contava os dias para o aniversário de 5 anos. O caso reverberou país afora pelos bárbaros ingredientes que reúne: os acusados das crueldades das quais teria sido vítima, e que levaram a morte tão precoce, são seu padrasto, Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, médico que nunca exerceu a profissão e que à época galgava poder na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, e sua própria mãe, a professora Monique Medeiros. No fatídico dia, que ao menino parecia ser como qualquer outro, ele entrou no elevador do edifício onde morava com os dois, na Barra da Tijuca, zona sudoeste carioca, meio cabisbaixo, mas com plena saúde, conforme visto nas imagens do circuito de segurança. Eram 19h39. Durante a madrugada, oito horas e meia mais tarde, a mesma câmera mostrou Henry sem reação, desfalecido no colo de Monique. Passados cinco anos, uma espera interminável para os que até hoje duelam com a dor do luto, os réus serão finalmente conduzidos a júri popular, que começa no próximo dia 23 e vai até o veredicto. “Não busco vingança, mas justiça por um filho que não pôde se defender e que teve a vida roubada”, afirmou a VEJA Leniel Borel, 42 anos, pai do garoto.
O Ministério Público não tem dúvida: a criança sofreu um homicídio duplamente qualificado, agravado por impossibilidade de defesa e motivo torpe, o que pode render até cinquenta anos de prisão, tanto para Jairinho, pela execução do crime, como para Monique, por omissão. No embate que se desenrolará diante do júri, composto por sete integrantes, Fábio Vieira, promotor com quase três décadas de experiência, argumentará que Henry perdeu a vida em decorrência de uma laceração no fígado, a qual desencadeou uma hemorragia, como enfatiza o laudo do Instituto Médico Legal (IML). E tamanha ferida interna não poderia ter sido causada senão por uma pancada “muito forte”. Na peça a ser apresentada pela acusação, foi Jairinho o autor da violência fatal que Monique nada fez para impedir.
Diante do robusto conjunto de evidências que enreda o ex-vereador, sua defesa fincará a argumentação em torno de inconsistências que alegam haver no documento da perícia. Existem de fato ali imprecisões — no nome do hospital e na cor dos olhos do menino, por exemplo — que serão usadas na tentativa de desqualificar o relatório, mas que em pouco alteram o essencial. Os criminalistas, entre eles Fabiano Lopes e Zanone Manuel Júnior (conhecido pela teatralidade em cortes, como quando abandonou o plenário ao representar o goleiro Bruno), irão sustentar que a criança teria chegado viva ao Barra D’Or e, com dificuldade de respirar, faleceu em decorrência de erros médicos ao longo das manobras de reanimação. Já os profissionais que socorreram o garoto são taxativos ao afirmar justo o contrário: Henry já estava morto.
Entre as 26 testemunhas, duas ex-namoradas de Jairinho prometem repetir à frente do júri depoimento já prestado à polícia. Ambos dão contornos ao ímpeto violento do ex-político, do qual não apenas elas teriam sido alvo, mas também seus filhos pequenos. A constância das agressões relatadas por Débora Saraiva e Natasha Machado, que mantiveram conturbados relacionamentos com o réu, ajudam a traçar um padrão de comportamento virulento. Filha de Natasha, Kaylane Pereira, hoje com 18 anos e que diz ter sido vítima do então padrasto com apenas 5, vai também cutucar o baú de memórias que até hoje a assombram. Outra contundente pista do descontrole de Jairinho deve vir à luz com a prometida presença no tribunal de Thayná Ferreira, a babá de Henry. Um mês antes da morte do menino, ela passou mensagem a Monique informando que, após um tempo trancado no quarto com Jairinho, ele fez um desabafo. “Henry me contou que ele deu uma banda e o chutou. E que toda vez faz isso”, escreveu. Em seguida, mandou um vídeo para mostrar o menino mancando. Foram curiosamente os advogados da ré que a incluíram no rol de testemunhas, com a ideia de expor suas idas e vindas (chegou a defender o patrão) e desacreditá-la.
O mais aguardado entre tantos depoimentos, porém, é o de Monique, já que pela primeira vez dará oficialmente sua versão, após romper com Jairinho — no início, os dois dividiam até o advogado e não havia vírgula dele que ela não corroborasse. Mas, uma vez presa, contratou outra banca e agora irá enveredar por nova trilha, garantindo ter sido uma mãe zelosa tristemente envolvida na rede de um homem macabro. “Monique foi vítima de um relacionamento abusivo e, no dia em que tudo aconteceu, estava dopada pelo companheiro, por isso dormia profundamente”, afirma a advogada Florence Rosa, escolhida por agitar bandeira feminista no meio jurídico, antecipando o que levará ao júri. A acusação refutará com pesadas tintas, pintando a mãe como uma alpinista social que deixou a segurança do filho em segundo plano em nome de uma vida de luxos. “Pessoas com esses traços não apresentam remorso e só são freadas com penas exemplares”, afirma o promotor Fábio Vieira. Após cinco anos valendo-se das brechas do Judiciário para adiar o julgamento, os réus terão enfim de encarar a Justiça. Que ela não falhe.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987






