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Cena brutal e cotidiana

Vídeo que mostra atriz sendo espancada pelo marido chama atenção para a violência doméstica. No Rio, 63 processos de feminicídio foram registrados neste ano 

Por Fernando Molica - 23 nov 2018, 07h00

As imagens são assustadoras. Na noite de 31 de agosto, o empresário e ex-diplomata Sergio Schiller Thompson-Flores, de 59 anos, submeteu a mulher, a atriz Cristiane Machado, de 37, a uma sessão de tortura. Câmeras que ela instalara no quarto do casal, já se prevenindo contra alguma agressão, registraram quando ele a empurrou diversas vezes na direção da cama, espancou-a usando um sapato e tentou esganá-la com um cabo de carregador de telefone. Nas imagens, Cristiane procura se defender cruzando os braços sobre o rosto, mas é dominada com facilidade pelo marido. Fotos revelam as consequências da violência: a atriz aparece com hematomas em todo o corpo, ferimentos na boca e pontos no braço. Não foi a primeira agressão que ela sofreu.

No início de março, Cristiane, que já atuou em novelas da Rede Globo, havia ido a uma delegacia registrar queixa contra o marido, que, além de atacá-la, usara uma machadinha para destruir portas e objetos da casa. Preso em flagrante, ele foi liberado mediante pagamento de fiança. Dias depois, acabou perdoado pela mulher e, no mês seguinte, o casal subiu ao altar numa requintada celebração religiosa (a “ficha técnica” do evento — sim, a expressão usada é essa — lembrava a de um longa-metragem, com mais de quarenta nomes de empresas e profissionais envolvidos).

Cristiane e Sergio se conheceram em março do ano passado. Numa viagem a Machu Picchu, no Peru, o empresário a pediu em casamento. “Foi um sonho de amor”, ela definiu. Dono de um currículo empresarial que registra alguns tombos — plantou dívidas milionárias em sua passagem pelo setor de produção de etanol —, o ex-diplo­mata exalava riqueza e charme; praticava mergulho, compartilhava com a namorada a paixão por cachorros, dizia adorar produtos orgânicos. Depois do casamento, eles foram morar numa casa de três andares em São Conrado, na Zona Sul do Rio. Mas a trama tomou outro rumo, o marido passou a ofender a mulher, veio o primeiro empurrão e, em seguida, começaram as agressões mais pesadas.

Uma delas, ocorrida em julho, foi gravada em áudio por Cristiane. De faca em punho, Thompson-Flores ameaçou a mulher e sua família: “Faz uma coisa pra me prejudicar, faz! Morre a tua família inteira!”. Desesperada, Cristiane chora, chama pela mãe. Ele reforça: “Para de gritar, senão eu te mato”.

Apesar das evidências, a defesa de Thompson-Flores alega que, no caso registrado pelas câmeras, ele apenas reagiu a uma agressão iniciada pela mulher. O advogado Raphael Mattos afirma que as imagens foram editadas por Cristiane. Diz ainda que seu cliente “também ficou com marcas da briga” — entre elas, as de duas mordidas. Sustenta que a atriz provocou a situação para receber uma indenização de 800 000 reais do marido. VEJA teve acesso a um contrato, assinado em julho, que prevê o pagamento em caso de separação causada por traição ou atos de violência. Advogado de Cristiane, Sylvio Guerra classifica a argumentação de “palhaçada”. A última agressão, porém, não ficou impune. Cristiane obteve uma ordem judicial que proíbe Thompson-Flores de se aproximar dela. Por des­cumpri-la, o ex-diplomata teve a prisão preventiva decretada em 31 de outubro, mas continuava foragido até a quinta 22.

As cenas violentas da agressão do ex-diplomata à mulher, veiculadas no programa Fantástico, da Globo, reacenderam a discussão sobre violência doméstica, um dos crimes mais comuns no Brasil. Mesmo com a criação da Lei Maria da Penha, em 2006, ele continua a produzir vítimas em todo o país e em todas as classes sociais. A cidade de Brusque, em Santa Catarina, por exemplo, foi apontada pelo Atlas da Violência como a mais pacífica do Brasil, por causa do baixo índice de homicídios. Em relação à violência doméstica, no entanto, não escapa da triste estatística nacional. No ano passado, Brusque registrou 386 casos de lesões corporais contra mulheres. Em 2017, havia nos tribunais brasileiros 1,4 milhão de processos relativos a violência doméstica e familiar. Entre janeiro e setembro de 2018, o Tribunal de Justiça do Rio recebeu 63 novos casos de assassinato enquadrados na categoria de feminicídio — quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou está relacionado a menosprezo ou discriminação à mulher.

ASSASSINADA –  Fernanda: o ex-marido não aceitou a separação //.

A nutricionista Fernanda Siqueira, de 29 anos, foi uma das vítimas recentes da barbárie. Na noite do domingo 18, na porta de casa, ela foi morta a facadas pelo ex-marido, o comerciário Vanclécio Pereira, de 28 anos, com quem se casara em 2015. Vanclécio não se conformava com a separação, ocorrida havia cinco meses — um gatilho comum para o início de agressões contra mulheres. O assassino foi preso por dois primos da vítima que, a caminho do enterro, o avistaram na rua, o imobilizaram e chamaram a polícia.

Dramas como o de Cristiane e mortes como a de Fernanda nem sempre são registrados por câmeras ou ganham espaço nos jornais. Nem mesmo as estatísticas, alarmantes, chegam a revelar a extensão do problema. É frequente que os casos de violência contra a mulher não recebam a qualificação de feminicídio, crime que só entrou no Código Penal em 2015 e ainda não foi devidamente assimilado nem pelo cidadão comum nem pelas autoridades. Da parte das vítimas, contribui para agravar a situação o fato de muitas relutarem em denunciar o companheiro. Ou acabarem perdoando-o, para depois se arrependerem, como fez Cristiane.

 

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“Ele insistiu muito para voltarmos”

Cristiane Machado diz estar apavorada e teme ser alcançada pelo marido. Não sai à rua sozinha e trata de não dormir todas as noites na casa em que mora desde que se casou. A lista de preocupações inclui a cadela Myucha — em uma das queixas à polícia, ela contou que a cachorrinha da raça westie também foi vítima da violência de Thompson-Flores. Nesta entrevista, a atriz procura explicar por que ficou ao lado do marido mesmo depois de ter sido agredida. “É muito complicado para uma mulher fazer denúncias como essa”, diz.

A senhora já havia sido agredida e chegou a prestar queixa em março contra seu marido. Não pensou em se separar dele? Ele insistiu muito para fazer as pazes. Mandou mensagens, fez declarações de amor… Seus dois filhos, de 26 e 28 anos, vieram falar comigo. Um dia, nós nos encontramos num restaurante. Ele pediu perdão, ajoelhou-se, fez promessas. Eu cedi, não sabia que iria ser pior. Cheguei a assinar uma declaração na Justiça aceitando a reconciliação.

Por que a senhora decidiu instalar as câmeras no quarto?  Uma vez, ele ameaçou agredir minha mãe, meu pai. Decidi então que precisaria fazer algo. Aproveitei uma viagem dele e instalei os equipamentos.

O que ocorreu na noite de 31 de agosto, quando houve a agressão que acabou sendo gravada pelas câmeras? Ele chegou nervoso em casa, falando de coisas do trabalho. Ligou para os filhos, para a mãe, disse que não queria mais saber deles. Fiquei sentada por quase três horas acompanhando a cena. Depois, perguntei a razão de tudo aquilo. Ele respondeu que não tinha de me dar satisfações e começou a me bater, a me empurrar. Tentou me enforcar, ameaçou enrolar o cinto no meu pescoço.

A senhora tentou fugir? A casa é grande, tem muitas portas, ele tinha trancado tudo. Tentei fugir, sim, mas ele me pegou pelos cabelos, bateu com as duas mãos nos meus ouvidos, fiquei tonta. Ainda jogou uma garrafa em mim. Precisei esperar a chegada dos empregados, às 9 da manhã, para sair.

Depois disso, a Justiça proibiu que ele se aproximasse da senhora. Como ele desrespeitou essa ordem? Um dia, ele entrou em casa, eu estava dormindo. Ele veio até o quarto, deitou-se ao meu lado, disse que me amava, queria voltar a ficar comigo, o que não aceitei.

A senhora sabe se ele já agrediu outras mulheres? Sim, outras mulheres já me disseram ter sido vítimas dele. Uma delas chegou a registrar queixa. Na época, vítimas podiam voltar atrás, e ela fez isso.

Arrepende-se de ter lhe perdoado a agressão antes do casamento religioso? Sim, estou muito arrependida, eu poderia ter sido morta agora em agosto. Mas houve muita pressão psicológica, acreditei nele, a festa de casamento estava pronta, convites tinham sido enviados. Acabei cometendo um deslize. Agora, quero poder voltar a andar tranquila pelo Rio.

 

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Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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