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Caso Marielle: um segundo mistério

O enredo da investigação ganha contornos cada vez mais novelescos

Por Sofia Cerqueira - Atualizado em 14 fev 2020, 07h00 - Publicado em 14 fev 2020, 06h00

O Escritório do Crime, grupo de milicianos e matadores de aluguel liderado pelo ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, se conectou com o assassinato da vereadora Marielle Franco através de Ronnie Lessa, policial aposentado que integrava o bando. Lessa e mais um ex-PM, Élcio Queiroz, estão presos desde março de 2019, acusados de terem executado Marielle. O enredo ganhou contornos novelescos quando se soube que Lessa morava no condomínio Vivendas da Barra, na Zona Oeste do Rio de Janeiro — também o endereço residencial do presidente Bolsonaro no Rio. E extrapolou para o delírio quando o Jornal Nacional divulgou a notícia de que um porteiro, em depoimento à polícia, afirmara que horas antes do crime Queiroz havia estado no condomínio — e quem teria autorizado a entrada dele fora “seu Jair” (o presidente Bolsonaro). A versão seria imediatamente desmentida pelos fatos, entre eles a comprovação de que naquele dia Bolsonaro, ainda deputado, estava na Câmara, em Brasília. Na terça-feira 11, a Polícia Civil do Rio enterrou de vez a história ao divulgar um laudo que atesta que a voz do porteiro que atendeu Queiroz e interfonou para liberar a entrada dele no condomínio nem sequer era a de Alberto Ferreira Mateus, o autor da falsa denúncia.

O mistério, porém, não foi totalmente esclarecido. Em outubro, Mateus prestou dois depoimentos à polícia, reiterando ter falado com “seu Jair” pelo interfone. Diante da gravidade da informação, o Ministério Público estadual encaminhou consulta ao Supremo Tribunal Federal sobre como deveria proceder. Antes da resposta, veio a divulgação do depoimento. Na época, Carlos Bolsonaro, o filho Zero Dois, postou nas redes sociais um áudio que provava que a autorização para a entrada de Queiroz havia sido dada pelo próprio Ronnie Lessa. Horas mais tarde, a dupla partiria do condomínio para executar Marielle Franco. Em dezembro, Alberto Mateus, que mora num bairro dominado por milícias na Zona Oeste carioca, prestou novo depoimento e admitiu que se equivocara. Ele, no entanto, não esclareceu — nem a polícia parece ter se empenhado muito até agora em tentar descobrir — se existe algo mais por trás dessa história do que uma insólita e inacreditável confusão.

Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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