Carta ao Leitor: Torcida polarizada
O Brasil precisa sair urgentemente do atoleiro de ideias. Debates são essenciais para a democracia e para o desenvolvimento do país
A pátria de chuteiras virou o país da bola dividida. A polarização política, que rachou a nação nos últimos anos em duas grandes alas, passou a invadir o campo nas mais diversas áreas da vida nacional. No futebol brasileiro, cada vez mais carente de ídolos, como mostra a reportagem que começa na página 60, a convocação para a disputa da Copa do Mundo de 2026 de um velho conhecido da torcida ocorreu nesse clima de dissenso. Conforme registrou a coluna Radar de VEJA, um monitoramento realizado pela empresa 2L Digital mostrou que 51,7% das interações na internet se posicionavam contra a ida de Neymar para o escrete, enquanto 48,3% defendiam sua presença na lista. A discussão não ocorreu apenas por motivos esportivos. Apoiador declarado do ex-presidente Jair Bolsonaro, o craque carrega por isso a antipatia de boa parte da esquerda. Devido a esse mesmo posicionamento, a direita enxergou no atleta uma qualidade adicional para incensá-lo. Não por acaso, momentos após o anúncio feito pelo técnico Carlo Ancelotti, o candidato de oposição Flávio Bolsonaro festejou a notícia, em uma peça em tom de campanha presidencial.
Antes do bate-boca futebolístico, a polarização tomou conta de um episódio relacionado à saúde pública, o da retirada de circulação por critérios técnicos de um lote de um produto de limpeza, o detergente Ypê. Como os donos da fábrica já haviam feito doações à campanha de Jair Bolsonaro no passado, a decisão da Anvisa começou a ser vista como uma retaliação à direita, em movimento irracional que explodiu nas redes. De forma a protestar contra a “perseguição ideológica”, um internauta divulgou um vídeo fingindo beber o produto. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, do PL, publicou dois posts falando que a medida era injusta. Para defender a Anvisa das críticas, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, convocou uma entrevista, na qual assegurou que a agência havia agido “corretamente e com responsabilidade”. A proibição foi mantida.
Outra reportagem especial desta edição analisa as razões do fenômeno e os perigos de uma sociedade cada vez mais dividida em polêmicas de todos os tipos, que vão da convocação de Neymar à proibição de venda de um detergente. Faltam nessas ocasiões argumentos baseados em informações confiáveis e no bom senso; sobram acusações pesadas e muita gritaria. O Brasil precisa sair urgentemente desse atoleiro de ideias. Debates são essenciais para a democracia e para o desenvolvimento do país. Na política, em um ano eleitoral, é necessário também que os candidatos sejam cobrados a dar o exemplo, elevando o nível das discussões. Temas importantes merecem análises sérias e profundas, não podem ser tratados no clima de uma briga entre torcidas.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996
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