Carta ao Leitor: O recado das urnas
Está mais do que na hora de a direita buscar um novo tipo de liderança para representá-la
Poucos fora do núcleo duro da campanha petista acreditavam no que aconteceu no domingo 25. Na véspera, a grande maioria dos institutos de pesquisa apontava o favoritismo de Flávio Bolsonaro, enquanto muitos analistas políticos lembravam que jamais na história um candidato havia conseguido reverter uma derrota no primeiro turno. Como se sabe, Lula venceu, e com uma vantagem que, dentro das circunstâncias, teve sabor de goleada. Terá agora enormes desafios pela frente, da economia à segurança, mas chega fortalecido para o próximo mandato, com o apoio majoritário do povo.
A oposição disputou de forma acirrada a vitória, até o último momento, e conquistou um enorme apoio. Poucos minutos após o anúncio oficial do resultado, no entanto, Flávio Bolsonaro começou a jogar no lixo esse imenso patrimônio político com a declaração de que não iria aceitar o resultado das urnas. Assim, fez pior do que o lamentável papel de mau perdedor. Com essa postura, lembrou os pendores negacionistas e antidemocráticos do bolsonarismo. Características que, aliás, tiveram um peso relevante no resultado final.
Uma derrota costuma ensinar mais que uma vitória. Flávio Bolsonaro demonstrou que não aprendeu nada com o revés. Na terça 27, fugiu para os Estados Unidos, com a justificativa de que precisava escapar do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Sete minutos após o anúncio do resultado da eleição, o magistrado ordenou à Polícia Federal o recolhimento dos passaportes do senador, que é investigado em suspeitas de lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomaz. A exemplo do que já havia feito o irmão Eduardo Bolsonaro, o ex-candidato a presidente do PL declarou-se um asilado político e promete fazer dos Estados Unidos o enfrentamento ao novo governo Lula, inflamando de lá os aliados e seguidores mais radicais.
A hora não é de questionamentos, não é de guerra. A hora é de lamber as feridas da derrota e entender o recado das urnas. Da mesma forma que o antipetismo é um motor das votações no Brasil, o antibolsonarismo também é uma força importante, por tudo o que esse movimento representa. Se há uma reflexão que a direita pode tirar, é a de que está mais do que na hora de buscar um novo tipo de liderança para representá-la.
Goste-se ou não do resultado das eleições, o placar das urnas é soberano. O povo escolheu Lula, por uma margem inquestionável. Escolheu também o petista pelo pacote de bondades distribuído durante o ano eleitoral e pelas muitas promessas feitas em meio à campanha. Cabe agora a ele unir o país e mostrar que tem capacidade de fazer o melhor governo de sua carreira, conforme afirmou em seu discurso de vitória.
Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019






