Carta ao Leitor: A marcha da impunidade
O país não pode se acostumar a esta sina e precisa reagir às tentativas de retrocesso
Os delitos deixam de ser punidos de acordo com as conveniências de livrar os criminosos da vez. Já era assim no Brasil colonial, quando o sistema costumava fazer vistas grossas para roubos, contrabandos e até assassinatos, caso o perdão atendesse a interesses específicos. Em muitos episódios, mesmo na hipótese de ser aplicada alguma pena, ela raramente era cumprida de forma integral. Esse olhar para o nosso passado ajuda a mostrar que o Brasil da atualidade ainda padece dos mesmos males. Infelizmente, a aplicação justa e rigorosa da lei virou quase uma exceção em diversos campos. Somente uma minoria dos infratores que destroem hoje o meio ambiente paga o que deve ao fim dos processos. No cotidiano das nossas cidades, raros são os motoristas irresponsáveis que arcam com o devido custo por ceifar vidas inocentes no trânsito. Há exemplos disso por quase todas as áreas, embora se possa dizer, com segurança: na política, impulsionada pelo corporativismo, a prática da impunidade aperfeiçoou-se até atingir o estado da arte.
É lamentável, mas é também a dura realidade. No momento, uma série de iniciativas em curso reforça essa constatação. Conforme mostra reportagem da edição, um dos movimentos nessa direção foi iniciado pelo novo presidente da Câmara, o deputado Hugo Motta. Ele fez acenos para uma das principais bandeiras da direita, a da anistia aos envolvidos nos chocantes e ameaçadores distúrbios do 8 de Janeiro. Pode-se até discutir a dosimetria das penas aplicadas a alguns dos réus, mas não há como apagar a gravidade daqueles atos. O Brasil só consolidará sua democracia quando conseguir registrar que essa triste página da nossa história recente não escapou da espada da Justiça.
A marcha da impunidade avança também em outras direções, sendo que um dos alvos é a Lei da Ficha Limpa. Conquista do país na luta anticorrupção, ela passou a ser combatida de forma oportunista. Por uma dessas grandes coincidências da vida, o principal porta-voz do movimento é justamente um político que seria beneficiado pelo fim da regra, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está inelegível até 2030. Dentro desse mesmo espírito de escapar de punições, há também negociações em curso sobre condicionar normas de maior transparência às emendas parlamentares em troca de varrer para debaixo do tapete os graves problemas já detectados em investigações sobre a malversação desse dinheiro. Esquece-se o passado, vale o rigor daqui em diante. Poucas vezes se viu um movimento tão articulado para confirmar a máxima do apresentador, escritor e humorista Jô Soares: “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa”. O país não pode se acostumar a esta sina e precisa reagir às tentativas de retrocesso.
Publicado em VEJA de 14 de fevereiro de 2025, edição nº 2931





