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Carlos Wizard constrói hospital de campanha para tratar Covid-19

Concebida em parceria com a Unicamp, a estrutura montada em Campinas será inaugurada no dia 10 e terá 50 leitos de UTI

Por Roberta Paduan - Atualizado em 3 abr 2020, 16h06 - Publicado em 3 abr 2020, 09h57

Há duas semanas, quando o Brasil fechou a fronteira com a Venezuela, em razão da pandemia do novo coronavírus, o empresário – e bilionário – Carlos Wizard Martins, de 63 anos, fez o caminho de volta de Boa Vista, em Roraima, para Campinas, no interior de São Paulo, onde fica sua casa. Wizard e a esposa — Vânia, de 61 anos – haviam se mudado para Boa Vista em agosto de 2018, para ajudar refugiados venezuelanos que migravam em massa para o Brasil, fugindo do desemprego e da fome em seu país. (Para quem não está ligando o nome à pessoa, Wizard tornou-se estrela no mundo dos negócios em 2014, ao vender por 2 bilhões de reais sua rede de escolas de inglês ao grupo britânico Pearson). Se o trabalho de ajuda aos refugiados – que duraria até julho deste ano – foi interrompido alguns meses antes pela pandemia da Covid-19, o combate à doença acabou se transformando na nova missão de Wizard. Em duas semanas, ele, Vânia e o médico Ricardo Afonso Ferreira, diretor da organização não governamental Expedicionários da Saúde, organizaram a construção de um hospital de campanha que atenderá pacientes de Covid-19 em Campinas. Ele será inaugurado no próximo dia 10.

A estrutura terá 50 leitos de UTI, e está sendo construída ao lado do Hospital de Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) — o atendimento será feito pelos profissionais do HC universitário. A nova missão de Wizard tem tudo a ver com a anterior. O hospital de campanha, que pertence à Expedicionários da Saúde, já funcionava em Boa Vista para atender aos refugiados que chegavam com problemas de saúde ao Brasil. Com a fronteira fechada, o hospital também havia perdido a função. Em uma conversa telefônica, Wizard perguntou ao médico e amigo Ferreira se a estrutura não poderia ser montada em Campinas. A resposta foi “sim”, mas alguém teria de custear o transporte. A partir daí o empresário colocou em ação a mesma rede de contatos que viabilizou a missão com os refugiados. A Azul fez o transporte do hospital gratuitamente a pedido de Wizard. As quatro toneladas de carga chegaram na quarta-feira, 1 de abril, em um Airbus. A companhia aérea foi a principal parceira no projeto de interiorização dos venezuelanos, tendo transportado, sem cobrar, cerca de 10 mil refugiados de Boa Vista para outras cidades brasileiras onde a turma de Wizard providenciava hospedagem e entrevistas de emprego. O fundador da Azul, David Neeleman, nascido no Brasil e criado nos Estados Unidos, também é mórmon, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como Wizard.

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Seguindo o mesmo modus operandi que aplicou no projeto de auxílio aos refugiados, Wizard foi aumentando o grupo de doadores do movimento batizado de #EUFAÇOPARTEDASOLUÇAO, “composto por todo cidadão do bem, de bom coração, disposto a contribuir para salvar vidas de quem estiver contaminado com o novo coronavírus”, definiu Wizard a Veja. O hospital, que originalmente tinha apenas 30 leitos de UTI, ganhou outros dez com a contribuição do empresário Elie Horn, fundador da incorporadora Cyrela. Em seguida, chegou a 50, com doações de um grupo de empresários que preferiu não se identificar. Até uma dupla sertaneja, que também pediu para não ter o nome divulgado, entrou com 200 mil reais.

Agora, Wizard está confiante que terá uma nova fonte de receita para custear o hospital: a venda do livro que estava prestes a lançar O meu maior empreendimento, da editora Buzz, em que relata a experiência de quase dois anos com os refugiados em Boa Vista. Em razão da crise, a editora adiou o lançamento apenas para dezembro, mas Wizard decidiu lançar já a versão eletrônica, a 9 reais, e reverter todas as vendas para o custeio do hospital. A cada exemplar vendido, ele contribuirá com outros 9 reais. O plano é vender 100 mil exemplares, chegando a milhões de reais. Independentemente do sucesso dessa ação, o hospital abrirá as portas.

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As quatro fases da vida

Carlos Wizard é o tipo de empresário que fez fortuna do zero. Filho de um motorista de caminhão e uma costureira, nasceu em Curitiba, aprendeu inglês com missionários americanos da igreja, e foi para os Estados Unidos aos 17 anos, com 100 dólares no bolso. Não tinha onde se hospedar, mas um conhecido lhe havia dito que seria fácil arrumar emprego na cidade de Paterson, em Nova Jersey. Dos 100 dólares, gastou 35 para ir do aeroporto à estação Central de Nova York. Mais 5 dólares pelo trem, e chegou em Paterson em um sábado. Na segunda, estava empregado em um restaurante italiano. Ganhava mil dólares por mês para lavar pratos. “Eu me sentia rico, pois comia no restaurante e pagava 200 dólares por um quarto de pensão”, relembra. Em dois anos, aprimorou o inglês, voltou ao Brasil e o resto é história.

Seu grupo, o Sforza, é acionista de empresas como KFC, Pizza Hut, Viena, Topper, Rainha e Mundo Verde, além de controlar a Hub Fintech, empresa de tecnologia financeira, que operacionaliza pagamentos de varejistas como Magazine Luiza. Ele, no entanto, não se envolve no dia a dia das operações. “Em Roraima, meu trabalho era exclusivamente com os refugiados, como agora é atender pessoas infectadas com coronavírus”, diz. Segundo sua teoria, todo mundo passa por quatro fases na vida. A primeira, até os 20 anos, é a fase de formação. Dos 20 aos 30 anos, é o período de definição do que pretende construir. A fase seguinte, dos 30 aos 60 anos, é a de construção, quando as pessoas se dedicam a realizar o que planejaram. “Na fase derradeira, dos 60 anos em diante, homens e mulheres devem se dedicar a desfrutar o que construíram e contribuir para melhorar a vida dos outros. É a fase que estou vivendo”, conclui Wizard.

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