Aumento de turistas, vale-tudo e crime: o verão brasileiro fora do controle
Um giro pelos pontos mais concorridos dos 11 000 quilômetros de litoral entrega cenas explícitas de anarquia
Há bons motivos para comemorar o considerável aumento da presença de turistas nas praias brasileiras. O verão de 2026 ilumina como sol uma evidência: o país pode, de fato, explorar melhor o potencial de suas belezas naturais, que no ano passado foram responsáveis pela presença de quase 10 milhões de estrangeiros em território nacional, recorde histórico que representa quase o dobro de 2023.
O impressionante crescimento que move as salutares engrenagens do livre mercado, porém, veio acompanhado de indesejados efeitos colaterais, promovidos por quem busca lucrar com a disparada da demanda sem se importar com a lei e a ordem: preços abusivos, desrespeito ao Código de Defesa do Consumidor, serviços de péssima qualidade, incivilidade de toda espécie e afronta às normas ambientais. O overtourism, como ficou conhecida mundo afora a incapacidade dos destinos de acomodar visitantes com decência e conforto, aportou pelas bandas de cá. É, infelizmente, caldo de cultura para a proliferação de espertezas, do comportamento irresponsável de quem adora uma bandalha, para ficar com uma expressão indelicada, mas também alimento para a ação do crime organizado. Vive-se um janeiro de confusão.
Um giro pelos pontos mais concorridos dos 11 000 quilômetros de litoral entrega cenas explícitas de anarquia. Superlotação, caixinhas de som em volume máximo, ocupação de cadeiras na faixa de areia por barracas que loteiam o espaço público e chegam a cobrar até 400 reais de consumação mínima por mesa — uma prática proibida — são os cartões de visitas apresentados para quem busca apenas descansar e se divertir. A beira-mar, espaço celebrado pela capacidade de abrigar democraticamente a diversidade de corpos, raças, classes sociais e orientações sexuais, não deixa de ser também um retrato vivo da dificuldade que a sociedade demonstra em conviver sob princípios mínimos de bom senso e educação. “A grande conquista da República foi ter estabelecido regras universais para todos: pode-se tudo, contanto que um não ofenda o outro”, diz o antropólogo Bernardo Conde, professor da PUC-Rio. “A praia, porém, é vista como território de ninguém e todos se sentem à vontade para se apropriar dela.”
Os problemas decorrentes do número excessivo de visitantes não puderam ser disfarçados, neste início de ano, e se tornaram um desafio para as autoridades. Em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, a maré de forasteiros foi tão intensa que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) recomendou a proibição do desembarque de escunas e barcos nas prainhas do Pontal do Atalaia, conhecidas como “Caribe brasileiro” por sua água turquesa e cristalina. Inseridas em área de reserva federal, elas não estavam dando conta de absorver tanta gente. “Em destinos frágeis, qualquer pico de demanda amplifica gargalos no fornecimento de água, energia, saneamento, transporte, saúde e segurança, degradando rapidamente a experiência do visitante e a qualidade de vida da comunidade local”, diz Marcio Lacerda, vice-presidente do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB).
Na capital fluminense, cidade mais visitada do país, os flagrantes na orla são ainda mais evidentes. Desde setembro do ano passado, um decreto da prefeitura busca disciplinar as atividades que acontecem no litoral, mas o desrespeito é constante. Por iniciativa própria, donos de quiosques do calçadão decidiram ampliar a área, invadindo a praia; bicicletas elétricas são deixadas fora das áreas de estacionamento; o passeio público frequentemente é ocupado por vendedores ambulantes; e o comércio de queijo coalho, espetinho e milho — proibido por envolver fogo — corre solto. “Há situações culturais que são difíceis de transformar”, diz o fisioterapeuta Luigi Sanci, 27 anos, frequentador assíduo das praias das zonas Sul e Oeste.
Nos dias mais movimentados, o aluguel de cadeiras e guarda-sóis pode chegar a exorbitantes 800 reais —, tudo depende do sotaque de quem se aproxima —, o que levou o prefeito Eduardo Paes (PSD) a cogitar o tabelamento de preços em áreas concedidas. Por enquanto, a prefeitura tem focado na fiscalização. No último fim de semana, agentes da Secretaria de Ordem Pública (Seop) apreenderam 11 toneladas de produtos irregulares. Nada, no entanto, parece conter o vale-(quase)tudo. “É um momento complexo e desafiador, os cidadãos estão denunciando cada vez mais comportamentos que fogem às regras”, diz Marcus Belchior Corrêa Bento, titular da Seop, que promete intensificar o monitoramento com câmeras equipadas com superzoom, capaz de flagrar o que escapa a olho nu.
Nem o sol inclemente, que costuma ser o maior desinfetante contra os desmandos, tem se mostrado capaz de clarear os esquemas que se desenrolam nos bastidores do ambiente festivo. Ainda que não se possa atribuir a expansão da bandidagem diretamente ao overtourism, naquele clássico jogo de oferecer “facilidades” diante de dificuldades, é forçoso perceber que os criminosos já estendem em paraísos tropicais os mesmos tentáculos fincados nas comunidades carentes. Na cidade histórica de Paraty, já há sinais da nefasta prática de ocupação do território. Homens que dizem pertencer ao Comando Vermelho passaram a achacar barqueiros que se dedicam aos passeios marítimos, cobrando pedágios nos deslocamentos para as praias mais remotas e isoladas, como Sono e Ponta Negra. As comunidades caiçaras também se tornaram esconderijos dos cabeças das facções. “Todo mundo sabe que eles estão aqui, comprando casas”, revela um morador de Ponta Negra que pede para ter a identidade preservada. “A polícia vem, eles escapam para a mata e depois voltam.”
Os destinos mais populares (e lotados, é claro) também se tornaram lucrativos pontos de drogas, comercializadas quase que livremente em áreas dominadas pelo poder paralelo, em que a normalidade aparente passa uma falsa sensação de segurança aos turistas. Um inquérito conduzido pela Polícia Civil de Pernambuco revelou que um único traficante da praia de Porto de Galinhas chegou a movimentar 10 milhões de reais por ano. O local é o mesmo onde um casal de turistas foi espancado no início do mês, após se desentender com a cobrança de consumação mínima em uma barraca. Em Jericoacoara, no Ceará, um adolescente paulista de 16 anos foi brutalmente assassinado por integrantes do CV. As investigações do crime cometido em 2024 mostraram que ele foi confundido com integrantes de uma malta rival. O jovem, destaque-se, não tinha ligação alguma com grupos criminosos.
É urgente uma resposta rápida e eficaz das autoridades, para não se jogar fora uma extraordinária chance. O bom momento do setor é reflexo de um movimento global. Em 2030, estima-se a circulação de 1,8 bilhão de turistas internacionais. É sinônimo de investimentos, mas, insista-se, também de problemas. O afluxo de visitantes tem levado a protestos de residentes em diversos países da Europa que passaram a conviver com tráfego intenso, transporte lotado e altos preços nos aluguéis de imóveis depois que as plataformas de locação por temporada trouxeram a diminuição da oferta de contratos mensais. Em Barcelona, na Espanha, onde uma multidão se concentra diariamente nas principais atrações (praias inclusive), os atos contra os viajantes já fazem parte da rotina. O Brasil precisa agir, sob o risco de ver a onda quebrar, sem conseguir surfá-la.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979





