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Arma não resolve

Ex-capitão que inspirou o Capitão Nascimento de 'Tropa de Elite' votou em Bolsonaro, mas afirma que ter armas em casa é inútil para se proteger de bandidos

Por Thaís Oyama - Atualizado em 14 dez 2018, 10h32 - Publicado em 14 dez 2018, 07h00

Onze anos se passaram desde Tropa de Elite, filme do qual Rodrigo Pimentel, de 47 anos, ex-capitão do Bope, foi coautor e inspirador. Sim, tal como aparece no longa, Pimentel teve problemas no casamento durante o período em que atuou no batalhão especial da Polícia Militar do Rio, sofreu ataques de pânico depois que o filho nasceu e fez um recruta segurar uma granada nas mãos para que não dormisse durante uma instrução, mas diz que não, nunca, jamais arrancou confissões de bandidos à base de saco plástico na cabeça, muito menos perdeu a mulher para o deputado Marcelo Freixo, do PSOL — no filme, o professor de história Diogo Fraga. Desde então, Pimentel já foi consultor de segurança pública, comentarista da Rede Globo e roteirista de outros dois longas. Agora, acaba de terminar Intervenção, “um filme de violência no Rio que não tem maconha nem cocaína”, produzido pela Media Bridge e com estreia prevista para janeiro. Apoiador de Jair Bolsonaro, Pimentel se alinha com ele na ideia de que a esquerda dominou a narrativa histórica no Brasil, mas critica propostas do presidente eleito para facilitar o acesso da população às armas, por considerar a legislação atual eficaz. Casos como o atentado de Campinas, na terça-feira, segundo ele, são resultado de “insanidade mental”. A seguir, a entrevista que concedeu a VEJA.

O senhor apoiou Jair Bolsonaro, mas discorda da proposta dele de facilitar o acesso às armas. Por quê? O Estado não deve proibir ninguém de ter uma arma de fogo — nisso, eu fecho com o Jair. Mas gostaria de esclarecer que a arma não é um instrumento eficaz para a defesa do lar, por exemplo. O roubo a residência no Brasil tem uma dinâmica específica. Grande parte ocorre entre 7 e 8 horas da manhã, quando o pai está saindo para levar o filho à escola e é rendido na porta de casa. Esse é o roubo clássico: acontece em São Paulo, Rio, Belo Horizonte. Esse bandido entra na casa do pai de família e não fica mais que três minutos lá, porque pode chamar a atenção dos vizinhos. Chega na cara da vítima e grita: “Joia, dólar, arma!”. Age com extrema violência porque tem de ganhar tempo e ser persuasivo. Então, que diferença faz eu ter uma arma nessa situação? Nenhuma.

A atual política de posse de arma é eficaz para coibir atentados, como o ocorrido em Campinas? A lei hoje exige teste de tiro, teste psicológico, ausência de antecedentes criminais e que o sujeito tenha mais de 25 anos. Vai tirar o que dessa lista? Do jeito que está, considero que ela protege a sociedade. Agora, quem não tem saúde mental não pode ter arma. Desconheço a origem da arma desse indivíduo em Campinas, mas, ao efetuar esses disparos, ele demonstrou insanidade mental. Espero que o Bolsonaro não acabe com o teste psicológico e não vejo com bons olhos nenhuma promessa que facilite o acesso às armas.

O que se deve levar em conta ao optar pela posse de arma? É preciso saber uma coisa: um bom atirador, a 6 ou 7 metros do inimigo, tem 17% de chance de acertá-lo. Então, veja: de que adianta eu comprar uma arma e não realizar treinamento de tiro? O ideal, portanto, seria: você quer comprar uma arma, o.k., mas a cada noventa dias eu quero que você faça um treinamento com, no mínimo, doze tiros. A lei hoje exige prova de tiro, mas não treinamento. Eu moro num bairro da Zona Sul do Rio onde certamente no último ano não houve nenhum registro de assalto a residência. E eu tenho vizinhos dizendo para mim: “Bolsonaro ganhou, agora eu vou comprar uma arma”. Eu digo: “Vai comprar uma arma para quê? Pra matar tua mulher numa discussão ou pra teu filho se matar numa crise de depressão?”. Porque para enfrentar bandido é que não é.

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“Vizinhos dizem: ‘Bolsonaro ganhou, vou comprar uma arma’. Eu digo: ‘Vai comprar para quê? Pra matar tua mulher numa discussão ou pra teu filho se matar numa crise de depressão?’ ”

Nos últimos meses, quadrilhas têm se organizado para sitiar cidades inteiras pelo Brasil com o objetivo de roubar bancos. No Ceará, uma ação como essa resultou na morte de catorze pessoas dias atrás. Por que a polícia não consegue prever crimes assim? Essa é uma nova modalidade de crime chamada de “novo cangaço”, que recebeu esse nome porque remete aos assaltos do bando do Lampião, que costumava invadir as cidades pequenas para roubar a agência do Banco do Brasil. O “novo cangaço” é praticado por quadrilhas com dezenas de bandidos fortemente armados, geralmente com fuzis, que cercam a polícia local, fazem policiais de reféns e roubam suas armas. Isso acontece porque muitas cidades do interior trabalham com turnos de apenas dois policiais, que portam armas inferiores às dos criminosos.

Como desarticular esses grupos? Para começar, é preciso ter uma legislação mais dura para punir quem porta fuzil. Não adianta a punição ser crime hediondo porque o bandido tem direito a progressão de pena. É preciso aumentar a pena mínima e reequipar a Polícia Rodoviária Federal. Esses policiais, que eram treinados para fiscalizar o tráfego nas rodovias, agora têm de combater quadrilhas que usam armamento pesado, semelhantes aos grupos enfrentados pelo Bope nas favelas do Rio. As rodovias são as rotas de fuga desses bandidos.

Qual deveria ser, na sua opinião, a prioridade do governo Bolsonaro para a área de segurança? A primeira: acabar com a audiência de custódia (instrumento processual criado em 2015 que determina que todo preso em flagrante seja ouvido no prazo de 24 horas por um juiz, que irá avaliar a legalidade e a necessidade de manutenção da prisão). Ela permite que um bandido armado, preso pela polícia, retorne às ruas em menos de 24 horas. Bolsonaro foi o único candidato a falar sobre isso, justiça seja feita. Na audiência de custódia, o policial não entra no gabinete do juiz, para que o réu fique mais à vontade caso tenha sofrido algum tipo de coação ou tortura. Só que, se o policial não entra na audiência, o juiz não consegue entender a dinâmica da prisão. E a dinâmica é fundamental para avaliar se a pessoa representa ou não um risco para a sociedade. O Bope já prendeu bandido com fuzil em favela e o bandido foi posto em liberdade imediatamente. Para a sociedade, isso mostra de forma muito contundente a questão da impunidade. Para os policiais, sinaliza que não vale a pena persistir no combate ao crime.

O ex-juiz e futuro ministro da Justiça, Sergio Moro, é favorável à audiência de custódia. Não sou contra a audiência de custódia em si, só acho que ela não pode existir com o propósito deliberado de esvaziar cadeia. É preciso ter um critério para que bandidos que participem de ações armadas não sejam colocados na rua imediatamente.

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O que achou da nomeação de Sergio Moro? Muito boa. Acho que será uma oportunidade para que o combate à corrupção não fique só na esfera federal, mas evolua para os estados. Acho que ele também representa uma chance de finalmente termos uma política nacional para reduzir os homicídios. O latrocínio é o crime que mais apavora o brasileiro hoje — rico ou pobre, porque, ao contrário do que o PT pensa, pobre também é vítima de violência —, mas está longe de ser o mais comum. O Brasil tem cerca de 170 mortes violentas por dia. Em torno de sete apenas são latrocínios. A imensa maioria é de mortes que ocorrem próximo a bocas de fumo: disputa territorial, “justiçamento” local, chacinas que acontecem em função do domínio de um território por bandidos. Daí você tem mortes de policiais em enfrentamento, e o resto sabe o que é? Feminicídio. Tem gente que fala em doze por dia, tem gente que fala em quinze. Há até quem fale em dezessete feminicídios diários. Isso quer dizer que, se nós tivéssemos uma política para combater o feminicídio, já conseguiríamos reduzir em 10% o número de homicídios no Brasil. No Rio, em 24 horas, duas mulheres foram assassinadas pelo marido recentemente. Em São Paulo, em um único dia foram quatro. Algo na cultura brasileira faz com que o homem ache que é dono da mulher. Isso tem de ser combatido com políticas específicas, que incluam, por exemplo, a instalação de casas em todo o Brasil para receber mulheres que apanham ou se sentem ameaçadas — para que tenham um lugar para dormir.

“Isso de três KitKats por 5 reais não existe. Alguém tomou um tiro na cabeça para aquele chocolate chegar a esse preço. É preciso prender o cara que vende cocaína e o que vende carga roubada”

O que mudou na criminalidade do Rio desde Tropa de Elite 1 e 2? Hoje, o Comando Vermelho está muito mais sofisticado. Descobriu: “Eu tenho um território, então faço o que quiser com esse território, inclusive vender botijão de gás e cerveja da marca que eu quiser”. Então, o CV começou a roubar carga. Receptação de carga roubada dá de um a quatro anos de prisão e você responde em liberdade quase sempre. É uma pena muito pequena comparada à do narcotráfico, em regime fechado. As facções descobriram que era um negócio rentável. Você vende a carga roubada a pequenos comerciantes locais ou direto para a comunidade. Não precisa nem sair de lá. Lembre-se que as favelas têm o tamanho de cidades. Jacarezinho tem 60 000 habitantes, Rocinha, 80 000, Alemão, 120 000. Sempre houve roubo de cigarro, de celular, eletrônicos, remédios específicos, como Viagra, mas eram números estáveis, que, a partir de 2014, explodiram. Chegamos à vergonhosa marca de trinta roubos de carga por dia. Hoje, está em 21. Minha mágoa é que os candidatos a presidente só falaram em combater o narcotráfico. Não! Tem de dizer: “Combater o narcotráfico, a venda de cigarro contrabandeado, a venda de KitKat no sinal”. Aquela carga foi roubada, pô! Não existe isso de três KitKats por 5 reais. Alguém tomou um tiro na cabeça para aquele chocolate chegar lá a esse preço. Então tenho de enfrentar o cara que vende cocaína e tenho de prender o que vende três unidades de KitKat a 5 reais.

O senhor já pensou em entrar para a política. Desistiu? Tentei um mandato há vinte anos. Tenho amigos na política, de espectros distintos. Marcelo Freixo, do PSOL, foi ao meu casamento, e tenho amigos na direita também, como Flavio Bolsonaro. Nos últimos tempos, muita gente me chamou para que eu tentasse uma eleição, mas não quis. Estou preocupado em fazer mais filmes, com outra narrativa.

Uma narrativa de direita? Narrativas que mostrem o outro lado. Meu pai (o general da reserva do Exército Gilberto Pimentel) foi entrevistado outro dia. A repórter começou a perguntar a ele sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog e parecia saber com detalhes como ele foi assassinado. Foi uma das mortes mais vergonhosas da nossa história, algo terrível. Meu pai falou sobre isso e depois falou também sobre o Mario Kozel Filho (soldado do Exército morto em 1968 pelo grupo de extrema esquerda VPR — Vanguarda Popular Revolucionária). A jornalista não sabia quem ele era! Então, alguém contou só metade da história para todo mundo. Quero que as pessoas tenham acesso a um outro ponto de vista. A busca pela verdade às vezes é dolorosa, mas nos liberta.

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Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2018, edição nº 2613

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