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Alguém se habilita?

No país com 13 milhões de desempregados, continua intocada a mamata de alguns privilegiados — que paga até 40.000 reais por um único dia de trabalho no mês

Por Marcelo Rocha - 12 abr 2019, 07h00

Quando governou o país, o PT aparelhou a máquina pública e distribuiu diversas sinecuras para abrigar a companheirada. É o partido da boquinha, acusavam os adversários, que juravam empunhar a bandeira das nomeações técnicas, da meritocracia e do fim do apadrinhamento político. Alçados ao poder, os emedebistas, outrora fiéis parceiros dos petistas, resolveram mostrar que nem tudo era igual. Às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff, o então vice-presidente Michel Temer, ainda no exercício interino da Presidência, sancionou a chamada Lei das Estatais com a promessa de moralizar as indicações para os conselhos de estatais e companhias de economia mista — cargos de importância relativa, bem remunerados e que sempre serviram para atender, digamos, a interesses variados. “Sem responsabilidade, empresas são destruídas e instituições, corroídas”, disse.

Ao assumir definitivamente o governo, Temer esqueceu-se do próprio discurso. Indicou sua chefe de gabinete, Nara de Deus, para exercer a função de conselheira fiscal do Sesc, a entidade de assistência do comércio, o que garantia a ela um extra mensal de 21.000 reais. O objetivo da medida era simplesmente engordar os vencimentos de Nara. Prestes a deixar o cargo, Temer ainda nomeou seu secretário de Governo, Carlos Marun, para o conselho da Itaipu-­Binacional, com jetom de 27,000 reais. Mais uma vez, não foi uma escolha técnica, mas uma recompensa. Deputado licenciado, Marun desistiu de disputar a reeleição para ficar ao lado do então presidente e ajudar a defendê-­lo durante a fase derradeira de seu mandato.

Empossado em janeiro, Jair Bolsonaro chegou a ser instado a cancelar a nomeação de Marun. Era o caminho natural, já que o novo presidente fez campanha prometendo privilegiar a meritocracia, mas nada aconteceu. Em pouco mais de três meses, o governo dá sinais de que a prática pode seguir firme e forte. Por lei, cabe ao Executivo indicar representantes para atuar em conselhos de quase 100 estatais e empresas de economia mista, como Petrobras, Banco do Brasil e Correios. Há prepostos do governo também em entidades do chamado Sistema S, como o Sesc e o Senac. Os conselhos são encarregados de fixar a direção de negócios ou fiscalizar se dirigentes andam na linha. A missão requer conhecimento técnico. A remuneração pode alcançar até 40.000 reais, como no caso da Embraer, na qual o governo tem participação. Os jetons são calculados de acordo com a fre­quên­cia nos encontros dos conselhos, geralmente um por mês em cidades como Brasília, Rio de Janeiro ou São Paulo. Trata-se de uma ocupação dos sonhos, sobretudo num país com 13 milhões de desempregados, que costumam formar filas quilométricas diante das agências que oferecem a chance de obter um salário mensal.

VERGONHA - Fila de desempregados em São Paulo: em busca de um salário Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress

No caso dos conselhos de estatais e do Sistema S, o governo dispõe, direta ou indiretamente, de quase 1.000 vagas para preencher. Algumas delas já ganharam seus afortunados ocupantes. O ministro da Economia, Paulo Guedes, nomeou o secretário especial da reforma da Previdência, Rogério Marinho, para a vaga no conselho do Sesc, a mesma que era ocupada pela ex-chefe de gabinete de Temer. Marinho terá direito a 21.000 reais mensais, enquanto recebe salário bruto de 17.327 reais no Executivo. Crítico ferrenho do Sistema S e do peso da folha salarial do funcionalismo, Guedes também nomeou sua assessora especial Daniella Marques para o conselho do Senac. O jetom é de 21.000 reais ante um salário bruto no ministério de 17.327 reais. Procurados, Marinho e Daniella explicaram que a participação deles nos conselhos tem como propósito corrigir as falhas apontadas pelo ministro no Sistema S.

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Mas nem só de conselhos vivem os atuais inquilinos do poder. Floriano Amorim, por exemplo, deixou o cargo de secretário de Comunicação do Palácio do Planalto e foi abrigado numa gerência da EBC, empresa de comunicação do governo. Ganhará algo em torno de 21.000 reais na nova função. Na campanha eleitoral, Bolsonaro chegou a dizer que fecharia a EBC, “a TV do Lula”, considerada pelo então candidato uma daquelas sinecuras usadas para abrigar petistas. Uma vez no governo, Bolsonaro desistiu de encerrar as atividades da empresa. Floriano Amorim cuida de marketing e negócios da EBC.

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2019, edição nº 2630

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