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A violência e o homem

Os homens têm um fraco por guerras; isso é fato. Mas daí a acreditar que a violência, inclusive a sexual, é parte da sua natureza há uma longa distância

Por Matthew Gutmann - 23 nov 2018, 07h00

Homens fazem guerras. De fato. Aristófanes sabia como pará-las, como escreveu em Lisístrata: bastava que as mulheres passassem a negar sexo a eles. Spike Lee também, como mostrou no filme Chi-Raq, em que mulheres negavam sexo aos homens. Susan Sontag, parafraseando Virginia Woolf, provocou: a guerra é um jogo de homens e a máquina de matar tem gênero, o masculino. Os homens não apenas fazem a guerra, mas, em sua maioria, parecem gostar dela. Há quanto tempo essa verdade incontestável domina o pensamento bélico?

Do abuso doméstico ao terrorismo internacional, o denominador comum nas discussões modernas sobre violência é o homem. Há várias décadas a antropologia cultural estuda e analisa a masculinidade e todo tipo de violência baseada em gênero, enquanto a antropologia biológica examina a questão do ponto de vista dos processos evolutivos, da genômica e da endocrinologia. Todos buscamos decifrar as raízes masculinas da violência.

Determinadas ideias sobre homens, agressão, violência e guerra são tão amplamente difundidas que, quando algum autor respeitado aparece confirmando aquilo que as pessoas acham que já sabem — que os homens têm a tendência natural de lutar pelo que querem —, acabamos num círculo autojustificador que não leva a lugar algum. Não é raro que certos grupos de homens — homens pobres, homens de Wall Street, árabes, mexicanos, moradores de áreas urbanas e rurais — sejam rotulados como especialmente propensos à violência e pouco capazes de controlar seus impulsos primitivos diante de hostilidades. O jargão que acompanha esse argumento vem envolto em um ar de objetividade: a culpa pelos machos demoníacos seria dos “genes do egoísmo”, da disseminação da agricultura, da psicopatologia.

Em nenhuma outra área essa visão se manifesta mais do que nos atuais debates sobre estupro. E me refiro a estudos que extrapolam o comportamento de chimpanzés-­machos e chegam a sugerir que seres humanos do gênero masculino e sexualmente agressivos gerariam mais descendentes, cumprindo assim as premissas da teoria da evolução. O fato de não ser difícil vender a noção de que o estupro é natural indica o alcance da influência da “biobalela”. Entendimentos errôneos sobre estupro são abundantes — e crenças de que os homens têm algum potencial biológico inato para estuprar são perigosas.

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O estupro é natural?

Em 2015, nos Estados Unidos, revistas e jornais publicaram artigos a respeito de um estudo acadêmico sobre estupro. Diziam: “Segundo um estudo sobre assédio sexual nas universidades, quase um terço dos alunos universitários admite que poderia estuprar uma mulher se pudesse sair impune”; “Um novo e alarmante estudo revelou que praticamente um terço dos universitários nos EUA admite que teria ‘intenções de forçar uma mulher a ter relações sexuais’ se soubesse que ninguém descobriria e que não haveria consequências”; “Quase um em cada três universitários admite que poderia estuprar uma mulher se soubesse que ninguém descobriria e que não teria de enfrentar conse­quên­cias, de acordo com um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Dakota do Norte”.

Eis os fatos

Três pesquisadores da Universidade de Dakota do Norte, nos Estados Unidos, publicaram um artigo em 2014 intitulado “Denying rape but endorsing forceful intercourse: explo­ring differences among responders” (“Negando o estupro, mas endossando relações sexuais à força: explorando diferenças entre os entrevistados”). O tema era excelente e os métodos pareciam adequados para os 73 alunos do sexo masculino que responderam a uma pesquisa, participaram de uma dinâmica de grupo e concluíram as demais etapas do estudo. Todos eram maiores de 18 anos, mais de 90% eram brancos, a totalidade se identificava como heterossexual e dizia já ter tido experiências sexuais.

Em outras palavras, 73 jovens supostamente representariam toda a população masculina da Terra. Não apenas de Dakota do Norte. Não apenas do câmpus universitário. Não apenas do mundo atual, mas de toda a história. Os próprios pesquisadores não foram nada modestos em suas conclusões. Uma boa parte da imprensa popular, porém, publicou matérias que mostravam indignação. Vale a pena perguntar por quê. Ao lermos essas notícias, poderíamos ficar impressionados com a nova “prova científica” (ou pelo menos a evidência) de que há muitos homens desejando praticar o estupro: mais homens estuprarão se tiverem certeza de que não haverá futuras repercussões negativas, apontava uma das conclusões.

São equivocadas e perigosas as crenças de que todos os homens têm o potencial biológico inato para estuprar

No entanto, havia alguns pressupostos embutidos nessas notícias. Dizer que um em cada três homens estupraria se conseguisse safar-se, por exemplo, reforçava as crenças preexistentes de que — independentemente de classe, região ou raça — muitos homens querem estuprar mulheres. O problema de tomar por base um minúsculo estudo de Dakota do Norte e transformá-lo em manchetes alarmistas lidas por milhões de pessoas fez mais do que extrapolar os já permissivos limites da imprensa: espalhou a impressão de que os homens são um terror — e essa era a ideia.

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O debate sobre por que os estupros ocorrem tornou-se o marco zero de todas as discussões envolvendo gênero e violência. A ciência do estupro, ou melhor, os cientistas do estupro nos dizem que esse crime é, de alguma forma, predestinado a ocorrer. Essa é a única maneira de explicar, afirmam eles, que o estupro sempre ocorreu em todos os lugares do mundo e ao longo da história. Para os psicólogos evolucionistas e geneticistas comportamentais, o estupro é o principal sustentador da tese de que os aspectos-chave de gênero e sexualidade são intrínsecos demais para ser ignorados e que, a menos que seja possível entender as raízes naturais e biológicas do estupro encontradas em todas as sociedades humanas e em espécies no reino animal, não poderemos efetivamente impedir esse ato condenável.

O estupro pode ser evitado?

Se incorrermos na tese arriscada de traçar um histórico das raízes biológicas universais do estupro, isso poderá resultar em políticas públicas voltadas a controlar, isolar e colocar em quarentena os homens. Há quem defenda a castração química como estratégia, sugerindo que um pênis fora de controle se sobrepõe à razão. Supõe-se a partir daí que os órgãos genitais masculinos devem ser punidos.

Há décadas feministas e outros ativistas têm debatido sobre homens e estupro. Algumas linhas de pensamento defendem a ideia de que todos os homens se beneficiam do estupro, enquanto outras chegam a ponto de dizer que todos os homens são “potenciais estupradores”. As duas linhas se baseiam nas noções de “predestinação biológica”. Mas considerar que a violência sexual praticada por homens é fruto de uma característica “genética” significa que não podemos impedir o estupro em sua origem — o que não é verdade. Não há prova de que a fisiologia masculina seja mais sujeita a impulsos incontroláveis do que a das mulheres. O corpo do homem tampouco é biologicamente mais (ou menos) seletivo que o da mulher. Por isso precisamos parar de culpar a biologia masculina pela violência contra as mulheres. Em vez disso, seria melhor nos concentrarmos nas desigualdades geradas pelas relações patriarcais que têm como valores culturais a promoção da agressão sexual por homens jovens, as diferenças salariais movidas pelo critério “gênero” e o controle econômico, político e cultural das instituições pelo sexo masculino — fatores que permitem e promovem todas as formas de violência baseada em gênero.

* Matthew Gutmann é professor de antropologia e diretor do Instituto de Pesquisa Avançada da Universidade Brown

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Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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