A repercussão no mundo político da revelação de Janja sobre assédio sexual
'Não estamos seguras em nenhum local', diz Anielle Franco, que relatou ter sido vítima quando já era ministra; perfis de direita questionam primeira-dama
Depois de declarar em um programa da TV Brasil ter sofrido assédio duas vezes desde janeiro de 2023, quando chegou ao posto, a primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, recebeu apoio de diversos políticos e militantes nas redes sociais. “Está insuportável para nós mulheres. Se eu, como primeira-dama, que tenho toda uma equipe em torno, um olhar, câmeras e cuidados, mesmo assim fui assediada… imagina uma mulher no ponto de ônibus às 22h? A gente não tem segurança em nenhum lugar”, afirmou durante participação no programa Sem Censura, nesta terça-feira, 3.
Rapidamente, as declarações repercutiram nas redes sociais. Uma das lideranças políticas que se manifestaram foi a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, que foi vítima de um rumoroso caso de assédio sexual que teria sido cometido por um colega da Esplanada dos Ministérios — o ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida, que caiu logo após o caso ter se tornado público.
“Janja acaba de revelar, no Sem Censura, que foi assediada duas vezes, já como primeira-dama. Eu também fui assediada, já como ministra, no meu local de trabalho. Não estamos seguras em nenhum local, mas também não estamos caladas. Vamos falar e lutar até que essa tragédia tenha fim. Minha solidariedade à Janja e a todas mulheres que passam por isso em nossas vidas”, postou Anielle nas suas redes sociais.
Janja acaba de revelar, no Sem Censura, que foi assediada duas vezes, já como primeira-dama.
Eu também fui assediada, já como ministra, no meu local de trabalho.
Não estamos seguras em nenhum local, mas também não estamos caladas.
Vamos falar e lutar até que essa tragédia… pic.twitter.com/bN73ufcmbk
— Anielle Franco (@aniellefranco) March 3, 2026
Outra ministra a se manifestar foi Sonia Guajajara (Povos Indígenas). “O medo do assédio é uma constante na vida das mulheres. Ontem a primeira-dama Janja deu seu relato no Sem Censura, mostrando que até que a sociedade mude de mentalidade, seguiremos vulneráveis a essas violências, não importa nosso cargo ou roupa. Seguiremos firmes na luta!”, postou.
Parlamentares também prestaram solidariedade. “É uma violência que silencia, constrange e tenta deslegitimar mulheres em seus ambientes de atuação, inclusive nos mais institucionais. Não é episódio isolado, é um problema estrutural”, disse a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ).
“O relato de Janja, enquanto primeira-dama, escancara uma verdade dura: não estamos seguras em nenhum lugar. Os últimos casos de violência envolvendo meninas e mulheres revelam que estamos vivendo uma epidemia de feminicídios em curso, alimentada por uma cultura de ódio às mulheres”, afirmou a deputada estadual fluminense Renata Souza (PSOL).
Questionamentos
Houve também questionamentos à primeira-dama. O vereador paulistano Rubinho Nunes (União Brasil) cobrou que Janja denuncie os casos. “Fica a pergunta: por que não denunciou? Por que não deu os nomes? Medo ou conivência? Isso aconteceu no mesmo país governado pelo partido do próprio marido dela desde 2002. Mesmo assim, ela vai fazer campanha por mais um mandato prometendo que ‘dessa vez’ vai resolver os problemas das mulheres”, afirmou em publicação nas redes sociais.
O questionamento sobre se a primeira-dama fez ou não alguma denúncia sobre os dois episódios foi uma constante entre perfis de direita nas redes sociais, que tradicionalmente são críticos a Janja.
Campanhas institucionais nos últimos anos têm buscado que as mulheres denunciem casos de assédio, em razão da alta da violência contra a mulher. O crime de feminicídio, por exemplo, cometido quando a vítima é morta pela condição de gênero, aumentou em 2025, na comparação com 2024. Foram 1.570 casos do crime, enquanto no ano anterior, 1.464. Mudanças na legislação endureceram a pena para o crime. O artigo 121-A, do Código Penal, define prisão em regime inicial fechado entre 20 e 40 anos para os assassinos.





