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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A Ata do Copom e a inflação. Qual inflação?

O Banco Central divulgou a ata da reunião que resultou na decisão de cortar a taxa Selic em apenas 0,25 ponto percentual, e não em 0,5, conforme esperava boa parte do mercado. Li, li e não me convenci muito. Ficou-me a suspeita de que o Copom decidiu mais de olho da redução do aperto fiscal […]

Por Reinaldo Azevedo 1 fev 2007, 23h22 | Atualizado em 6 jun 2024, 08h15
A Ata do Copom e a inflação. Qual inflação? Priorizar nos meus resultados Google

O Banco Central divulgou a ata da reunião que resultou na decisão de cortar a taxa Selic em apenas 0,25 ponto percentual, e não em 0,5, conforme esperava boa parte do mercado. Li, li e não me convenci muito. Ficou-me a suspeita de que o Copom decidiu mais de olho da redução do aperto fiscal do que no risco de inflação e aquecimento da demanda, de que fala também o texto. Para ler a íntegra da ata, clique aqui
O Copom vê uma certa pressão sobre os preços num momento de aquecimento “robusto” da demanda doméstica. E escreve: “Nesse ambiente, cabe à política monetária manter-se especialmente vigilante para evitar que a maior incerteza detectada em horizontes mais curtos se propague para horizontes mais longos“. Leitor, é claro que não sou especialista nem em economia nem em furacões, conforme já alertei. Mas Tio Rei sabe um pouco de texto. A incerteza de “horizontes mais curtos” é ainda maior quando se trata de “horizontes mais longos”, certo? Isso é mais literatura do que economia.
Meus ídolos não são economistas, mas poetas. O que é sempre mau negócio quando o tema é taxa de juros, dirá o leitor. Pode ser. Na sua Arte Poética, Horácio (65-27 a.C) recomendava aos autores que evitassem a inflação de palavras, a verborragia, o contar a história a partir da origem das Musas. Mas também dizia: cuidado com a lima excessiva, ou o poema perde a razão de ser.
De todo modo, fui atrás das “incertezas dos horizontes mais curtos”, que entendi como certa pressão inflacionária. Queria saber onde estava o aquecimento da demanda. Reproduzo abaixo, em azul, a íntegra do item 12 intitulado “Avaliação prospectiva das tendências da inflação” Vá lá, leitor. Alguma paciência é necessário ter:

Os choques identificados e seus impactos foram reavaliados de acordo com o novo conjunto de informações disponíveis. O cenário considerado nas simulações contempla as seguintes hipóteses:a) Comparadas com os valores considerados no Relatório de Inflação de dezembro de 2006, as projeções de reajustes nos preços da gasolina e do gás de bujão foram alteradas para 0% no acumulado de 2007;b) As projeções de reajustes das tarifas de eletricidade e telefonia fixa para o acumulado de 2007 também foram modificadas, em comparação às consideradas no último Relatório de Inflação, com os reajustes projetados agora se situando em 4,6% e 3,9%, respectivamente, para eletricidade e telefonia;c) A projeção de reajuste para o conjunto de preços administrados, para o acumulado de 2007, foi alterada para 4,5%, ante os 4,8% constantes do Relatório de Inflação de dezembro. Esse conjunto de preços, de acordo com os dados publicados pelo IBGE, correspondeu a 31,04% do total do IPCA de dezembro;d) A projeção de reajustes dos itens administrados por contrato e monitorados para 2008 permaneceu em 5,6%, mesmo valor considerado no Relatório de Inflação de dezembro. Essa projeção baseia-se no modelo de determinação endógena de preços administrados, que considera componentes sazonais, variações cambiais, inflação de preços livres e inflação medida pelo Índice Geral de Preços (IGP);e) O modelo VAR, baseado nos níveis da taxa Selic e do swap de 180 dias, estima um spread, no cenário de referência, de 53 p.b. no quarto trimestre de 2007. A trajetória do swap indica, ainda, que o spread atinge 70 p.b. no último trimestre de 2008.13. Em relação à política fiscal, as projeções levam em conta o cumprimento da meta de superávit primário de 4,25% do PIB em 2007 e em 2008, ajustada pela possibilidade de que esse percentual seja reduzido em até 0,5 p.p. em virtude da implementação do Programa Piloto de Investimentos. As demais hipóteses consideradas na reunião anterior foram mantidas.14. Desde a reunião de novembro do Copom, houve ligeira redução na mediana das expectativas coletadas pela Gerência-Executiva de Relacionamento com Investidores (Gerin) para a variação do IPCA em 2007, que passou de 4,10% para 4,07%. A redução deve-se, basicamente, a uma diminuição das expectativas de inflação para o segundo e terceiro trimestres de 2007. As expectativas para doze meses à frente diminuíram de 4,17% para 4,04%. Para 2008, as expectativas de inflação recuaram, passando de 4,3% para 4,0%. Como mencionado em Notas de reuniões anteriores do Copom, esses desenvolvimentos sugerem a consolidação de um ambiente macroeconômico cada vez mais favorável em horizontes mais longos.15. Considerando-se as hipóteses do cenário de referência, que leva em conta a manutenção da taxa de câmbio em R$2,15 e da taxa Selic em 13,25%, em todo o horizonte de previsão, a projeção para o IPCA em 2007 reduziu-se em relação ao valor considerado na reunião do Copom de novembro, permanecendo abaixo do valor de 4,5% estipulado pelo CMN para o centro da meta deste ano. No cenário de mercado, que leva em conta as trajetórias de câmbio e juros apuradas pela Gerin junto a analistas no período imediatamente anterior à reunião do Copom, a projeção de inflação para 2007 também apresentou valor abaixo do valor central da meta de inflação e abaixo do considerado na reunião do Copom de novembro. As projeções de inflação para 2008 apresentaram redução em ambos os cenários, quando comparadas às projeções obtidas em novembro, com os valores permanecendo abaixo do valor central de 4,5% no cenário de referência e acima de 4,5% no cenário de mercado.

VolteiAlguns leitores me acusam de ter o que consideram desvio Keynesiano — ou sei lá o quê. Mas o que vai acima, em azul, indica que o Banco Central espera uma inflação MENOR, e não MAIOR. Até a perspectiva de reajuste dos preços administrados mudou para baixo. No que diz respeito à inflação, faria mais sentido baixar agora a taxa de juros em 0,5 ponto do que na reunião anterior. A menos que o BC faça como uma história de Tio Patinhas, que lembro da infância. Donald flagra-o andando em círculos. Já há um buraco no chão. Está preocupado. O sobrinho pergunta ao tio o que se passa. Ele diz que já faz uma semana que os Petralhas não tentam roubar a Caixa Forte e conclui: “É sinal de que vai acontecer um ataque a qualquer momento”. Tio Patinhas, como se vê, projetava a incerteza de “horizontes mais curtos” em “horizontes mais longos”. Tio Patinhas era, como é mesmo?, “quaquilónário”. É fato. Mas não era porque andasse em círculos.

Item 13
Ao leitor atento, no entanto, não escapou o item 13. Vejam lá. “Em relação à política fiscal, as projeções levam em conta o cumprimento da meta de superávit primário de 4,25% do PIB em 2007 e em 2008, ajustada pela possibilidade de que esse percentual seja reduzido em até 0,5 p.p. em virtude da implementação do Programa Piloto de Investimentos.” Bingo! Aí está o resultado da “prudência” do BC.
Vejam só: posso achar legítimo que o BC considere a ameaça ao superávit uma razão eficiente para ser mais cauteloso na queda de juros. Mas que se chame a coisa pelo nome. A independência, mesmo informal, o BC tem serve pra isso.
Instituí, aqui, há dias, o PREBRAJE (Prêmio Blog do Reinaldo Azevedo de Jornalismo Econômico) para quem conseguisse provar a existência da pressão inflacionária. E lembrei: eu não tenho R$ 1 milhão, mas também não existe pressão inflacionária. Mas estava um tanto ansioso pela ata. Sabem cumé… Já me vi vendendo o meu time de futebol de botão para pagar o prêmio…
Estou aliviado! O BC, a exemplo deste blog, nega a existência de qualquer pressão inflacionária. Não vou precisar me desfazer do meu time de futebol de botão.

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