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Walcyr Carrasco Por Walcyr Carrasco

Quarentena e galinhas

Com iniciativa e criatividade, aprende-se muito ficando em casa

Por Walcyr Carrasco Atualizado em 8 Maio 2020, 10h07 - Publicado em 24 abr 2020, 06h00

Moro em uma casa com um grande quintal, em um condomínio próximo a São Paulo. Uns dez dias antes de começar a quarentena, resolvi fazer um galinheiro. Queria ovos caipiras, mais saudáveis. E, é claro, boas galinhas ensopadas. Frango caipira, então… que delícia! As galinhas chegaram, com galos. Também trouxe as de angola, já que a “faraona” é prato gourmet. O galinheiro fica em um declive, e mal as via. Mas veio a quarentena. Tempo de redescoberta! Passei a me dedicar mais à casa. E a fazer visitas diárias ao galinheiro. Inicialmente, eu olhava as penosas, gordas, e imaginava saborosas canjas. Mas justamente a mais gorda era a mais linda. Ruiva. Um dia não resisti e a chamei de Tangerina. Outra tem penas sobre os pés, parecem sapatinhos. Eis a Cinderela. Lá se foram meus planos de comê-­las. Digam: é possível devorar alguém a quem se deu um nome? Como vou morder as coxas de Tangerina dizendo intimamente: “Adeus, adeus!”? Mas ainda tinha o plano de comer os frangos, quando viessem. O caseiro anunciou: uma galinha ainda sem nome estava chocando. Comemorei. Os pintinhos nasceriam. Seriam frangos, deliciosos frangos assados!

Bem… a penosa ficou dentro do galinheiro, chocando, chocando… emagrecendo também, porque não comia. Passou o tempo. Nada de nascerem os pintinhos. Examinamos os ovos. Nem chocos estavam. Entre todas as galinhas do mundo, eu achei uma que não sabe chocar! Tiramos os ovos. Mas ela insiste em ficar lá sem comer. Está traumatizada. Comportamento neurótico óbvio. Se eu deixar, morrerá sentada. Agora, todos os dias eu a tiro de lá, entre cacarejos e bicadas, para que vá comer. Que vida! Tenho de cuidar do trauma da galinha! Nome: Traumatizada!

“Virei agroboy. Melhor: agrovelho. Quem disse que eu não ia descobrir uma parte melhor de mim mesmo?”

Não é só. Uma das de angola voou durante a noite. Uma raposinha vinda da floresta deu o bote. Só sobraram as penas, coitada. Mas é preciso salvá-­las da raposa cruel! Todos os dias, no fim do entardecer, vou trancá-las. Elas entram, obedientes, no galinheiro, fecho a porta. Dia desses havia três morcegos abrigados entre os poleiros. Tive de expulsá-los a vassouradas e gritos, porque dois quase voaram para cima de mim. Fugi. Quase agarrei uma aranha enorme que estava em cima do portão.

Mas o pior foi quando o caseiro avisou que as galinhas estavam em stress sexual. Descobri que o costume é um galo para quatro ou cinco galinhas. Eu tinha cinco para quatro, fora as de angola. O galinheiro tinha se transformado em uma perpétua orgia! Elas fugiam, os galos corriam atrás o dia todo. Consegui trocar três galos por outro tanto de galinhas e agora talvez elas fiquem em paz. Ou seja, tive de cuidar da vida sexual das bonitas! Aprende-se muito em uma quarentena!

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Ovos, tenho mais que o suficiente. As galinhas, porém, estão salvas! Estou me transformando em um agroboy. Melhor: agrovelho. Agora todo dia faço “pi, pi, pi” e atiro milho. Elas vêm felizes, cacarejando. Sabem que eu gosto? Quarentena criativa. Quem disse que eu não ia descobrir uma parte melhor de mim mesmo?

Publicado em VEJA de 29 de abril de 2020, edição nº 2684

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