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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

A CPI começa com Bolsonaro na parede

Carta de ex-ministro revela como o presidente ignorou conselhos que poderiam ter salvado milhares de vidas

Por Thomas Traumann 4 Maio 2021, 16h03

No princípio era o verbo, e o verbo se revelou numa carta que o então ministro da Saúde, Luiz Mandetta, teria entregue ao presidente Jair Bolsonaro em 28 de março, quando havia 118 mortos por Covid no Brasil:

“Em que pese todo o esforço empreendido por esta pasta par a proteção da saúde da população e preservação de vidas no contexto da resposta à pandemia do Covid-19, as orientações e recomendações não receberam apoio deste governo federal”, escreveu Mandetta, que encerrou com um apelo:

“Recomendamos, expressamente, que a Presidência da República reveja o posicionamento adotado, acompanhando as recomendações do Ministério da Saúde, uma vez que a adoção de medidas em sentido contrário poderá gerar colapso do sistema de saúde e gravíssimas consequências à saúde da população”.

Duas semanas depois dessa carta, quando o país chegou 1.952 mortes por Covid, Bolsonaro demitiu Mandetta. Aceitar os conselhos da carta do ex-ministro poderia ter salvado milhares de vidas. Bolsonaro fez exatamente o oposto.

Nesta terça-feira, Mandetta revelou no primeiro dia de depoimentos da CPI da Covid o teor da carta entregue a Bolsonaro, quando o Brasil acumula 408 mil vítimas, o segundo maior morticínio no mundo.

Os senadores governistas da CPI fazem barulho para impedir que as pessoas escutem o óbvio: Bolsonaro é responsável direto pelo agravamento da pandemia ao ignorar os conselhos de Mandetta e toda a comunidade científica em troca do charlatismo cloroquiner. O depoimento do ex-ministro foi didático em revelar como o entorno de Bolsonaro construiu um mundo mítico no qual um vírus criado por laboratórios chineses foi propagado para destruir a civilização ocidental e impedir os brasileiros de trabalharem

Esse mundo paralelo bolsonarista, no qual a cloroquina salva e temer o vírus é coisa de maricas, está representado no general Eduardo Pazuello, o covarde que arranjou uma desculpa para não aparecer na CPI nesta quarta. Pazuello assumiu o Ministério da Saúde com quase 15 mil mortos e foi demitido com 280 mil óbitos, depois de ter apoiado a sabotagem ao distanciamento social, boicotado a encomenda de vacinas, ignorado os pedidos de socorro dos hospitais de Manaus, dificultado a distribuição de verbas federais para Estados governados pela oposição e patrocinado o charlatanismo.

Pazuello adiou o seu depoimento na CPI por medo de ser preso pela negligência, imperícia e imprudência com a qual dirigiu o Ministério da Saúde mais preocupado em obedecer a Bolsonaro do que em cumprir seu papel. Ele pode dizer que apenas cumpria ordens, e jogar a responsabilidade no colo de Bolsonaro, ou assumir sozinho a culpa pelas mortes

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