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Nova Temporada Por Fernanda Furquim Este é um espaço dedicado às séries e minisséries produzidas para a televisão. Traz informações, comentários e curiosidades sobre produções de todas as épocas.

Séries Clássicas – Missão: Impossível

Na década de 1960 as séries de espionagens se apoiavam na fama dos filmes de James Bond. Fazendo referências à Guerra Fria, os heróis representavam os americanos em luta contra os loucos que tentavam conquistar o mundo com planos mirabolantes e um arsenal com um grande potencial de destruição. Enfrentando esses lunáticos, os heróis salvavam […]

Por Fernanda Furquim - Atualizado em 1 dez 2016, 18h09 - Publicado em 29 Maio 2011, 15h58

Na década de 1960 as séries de espionagens se apoiavam na fama dos filmes de James Bond. Fazendo referências à Guerra Fria, os heróis representavam os americanos em luta contra os loucos que tentavam conquistar o mundo com planos mirabolantes e um arsenal com um grande potencial de destruição. Enfrentando esses lunáticos, os heróis salvavam o mundo.

Então surgiu “Missão: Impossível“, série que reformulou o tema ao introduzir uma equipe de profissionais freelancers a serviço do governo, o qual negaria qualquer relação com eles caso fossem apanhados. Sem se importarem com o destino de seus inimigos, a equipe realizava missões diversas de forma objetiva, fria e calculada, através de planos mirabolantes.

Com o título de “Brigg’s Squad”, a produção foi criada por Bruce Geller, roteirista de séries policiais e faroeste, que desenvolveu o projeto com base no filme “Topkapi”, de 1964. Quando a Desilu propôs transformar o projeto em série de TV, Geller não gostou da ideia, visto se tratar de uma história complexa e difícil de desenvolver, necessitando de um grande orçamento para colocar o roteiro em prática. Como fazer isso uma vez por semana?

A trama de “Missão: Impossível” girava em torno de um grupo de agentes particulares recrutado para realizar missões as quais a CIA e o FBI, ou outros órgãos do governo, não poderiam se envolver. Inicialmente, a equipe era composta por Albert Ney, especialista em comércio; Jack Smith, um playboy; Barney Collier, formado em engenharia química, matemática e microssistemas; Willy Armitage, um homem extremamente forte; Terry Targo, assassino profissional; e Martin Land, um mágico, ladrão, especialista em disfarces, capaz de falar 15 idiomas. O grupo era comandado por David Briggs, especialista em psicologia. Recebendo suas ordens em mensagens pré-gravadas, o grupo realizava qualquer tipo de tarefa que lhe fosse incumbida, sem seguir padrões morais ou sofrer crises de consciência.

(E-D) Steven Hill, Barbara Bain, Peter Lupus e Greg Morris

Ao longo do desenvolvimento do projeto, os personagens Albert e Jack foram substituídos por Cinnamon Carter, uma bela mulher capaz de seduzir qualquer homem. Ao apresentar o roteiro final, Geller já batizara o projeto de “Missão: Impossível”. Impondo a condição de que somente ele poderia ser o responsável pela seleção de atores, Geller deu início à produção do primeiro episódio da série, oferecida à CBS, com quem Lucille Ball, proprietária da Desilu, tinha contrato.

Amigo de Martin Landau, Geller o escalou para interpretar Martin Land, que agora fora batizado com o nome de Rollin Hand. Mas Landau não queria ficar preso a uma série de TV. Na época, os atores eram contratados por um período de cinco anos (tempo necessário para que uma produção gere lucro aos produtores). Para convencer Landau, Geller propôs ao ator um contrato que seria renovado anualmente.

A esposa do ator na época, Barbara Bain, foi escolhida para interpretar Cinnamon e Greg Morris, também conhecido de Geller, foi escalado para o papel de Barney. O comediante Wally Cox se tornou o assassino Terry Targo, personagem que desapareceria quando a série foi produzida. Peter Lupus, que utilizava o nome artístico de Rocky Stevens, um halterofilista, foi escolhido para dar vida a Willy.

Barbara Bain e Martin Landau

Para chefiar o grupo, Geller escolheu Steven Hill, ator de teatro que daria ao personagem a intelectualidade necessária para elaborar a linha de ação da equipe. Até então, a CBS mantinha-se afastada do desenvolvimento do projeto. Mas, quando Hill foi contrado, o canal se opôs.

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A emissora tinha interesse em ver alguém com melhor aparência e um nome conhecido do grande público como chefe da equipe. Geller insistiu em manter Hill. Este, por ser judeu praticante, estipulou em seu contrato que não poderia trabalhar no final de tarde das sextas e nos finais de semana ou feriados. Sem imaginar que a complexidade dos roteiros implicaria em atrasos da produção, Geller concordou.

As filmagens do episódio piloto tiveram início em 1965, ultrapassando o orçamento previsto de 440 mil dólares. Sofrendo atrasos, os produtores perderam o prazo para a entrega do episódio. Assim sendo, a CBS decidiu substituir “Missão: Impossível” por “Nightwatch”, série policial criada por Robert Altman, que já estava com seu piloto pronto. Mesmo depois de Geller entregar o piloto, a CBS se manteve firme na decisão de ficar com “Nightwatch”, por considerá-la uma série menos complicada e arriscada.

Foi então que Lucy organizou uma coletiva de imprensa e declarou que estava cogitando se aposentar. Na época, a atriz estrelava “O Show da Lucy”, líder de audiência da CBS, que engavetou “Nightwatch” e comprou “Missão: Impossível”.

Peter Graves

Certo de que o canal jamais compraria uma série tão complexa, imoral e cara, Geller entrou em pânico quando soube que teria que oferecer um episódio por semana de “Missão: Impossível”, mantendo o mesmo nível do que fora apresentado no piloto. Com exceção dos atores e da equipe técnica, Geller não tinha mais nada a oferecer naquele momento. Nenhum roteiro ou ideia tinham sido desenvolvidos para os próximos episódios.

Correndo contra o relógio, Geller iniciou sua busca por produtores e roteiristas que pudessem ajudá-lo no desenvolvimento dos novos episódios. Mas, temendo não acertar na fórmula, os profissionais contatados recusavam o convite. Foi então que ele encontrou William Read Woodfield e Allan Balter, dois roteiristas que propuseram uma mudança na trama. Ao invés da equipe MI roubar o inimigo, ele seria induzido a entregar o produto do roubo (ou o que estivesse em jogo) e se entregar (ou se expor).

A série estreou em outubro de 1966 sem conseguir conquistar uma boa audiência. Mesmo assim, a CBS renovou a produção. Esta, por sua vez, vivia um verdadeiro caos. Ultrapassando o orçamento e atrasando a entrega de cada episódio, que muitas vezes ficavam prontos dias antes de ser exibido, a série se tornou um problema para a rede CBS, que exigiu mais profissionalismo por parte da equipe. Uma das causas do atraso na entrega dos episódios era Steven Hill e sua exigência em ser dispensado em determinados dias e horários. Ao final do primeiro ano, Geller se convenceu que o ator precisaria ser substituído.

Em seu lugar entrou Peter Graves, escolha que agradou a CBS visto que o ator tinha uma aparência marcante e confiável. Conhecido do grande público pela série infantil “Fury”, produzida ao longo de cinco anos, Graves tinha a aceitação da audiência. A boa reputação do ator entre seus colegas de trabalho satisfazia as exigências do estúdio e do canal. Visto que estava sendo contratado para o papel principal da série, a única exigência do ator era a de que ninguém do elenco poderia ganhar mais que ele.

Barbara Bain, Peter Lupus, Greg Morris, Peter Graves e Martin Landau

Além da troca de atores, Geller também providenciou que as cenas de ação seriam filmadas nos finais de semana por dublês e figurantes não sindicalizados, o que evitava o pagamento de horas extras. Desta forma, ao longo da semana, seriam produzidas apenas as cenas dramáticas.

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Mas, em 1967, quando a série entrou em sua segunda temporada, Lucy, cansada das pressões que sofria por administrar um pequeno estúdio com grandes despesas, decidiu vender a Desilu para a Paramount. Com o objetivo de produzir séries a baixo custo, vendê-las a um alto preço e reverter o lucro para a produção de filmes, os novos proprietários passaram a exercer pressão sobre Geller para baixar o orçamento da série. Para diminuir seu custo, ele teria que reduzir a complexidade da trama.

Para piorar, vários funcionários da Desilu, que não concordavam com a nova política da casa, pediram demissão. Entre eles, Herbert F. Solow, produtor de “Missão: Impossível”. Em seu lugar entrou Douglas S. Cramer, que tinha como objetivo baixar os custos de “MI” e  de “Jornada nas Estrelas”. Geller e Cramer tornaram-se inimigos declarados, chegando ao ponto do primeiro impedir a entrada do segundo em seu escritório.

(E-D) Greg Morris, Leonard Nimoy, Peter Lupus e Peter Graves ao centro.

Para surpresa de Geller, a CBS se tornou sua grande aliada, interferindo a seu favor. O motivo? Em 1968, a partir da terceira temporada, “Missão: Impossível” tornara-se uma das séries mais populares de seu período. Assim, sempre que a Paramount pressionava Geller, este pedia socorro ao canal que ameaçava boicotar os produtos do estúdio caso não deixassem a produção de “Missão: Impossível” em paz.

No entanto, a série sofreu um revés quando, no início da quarta temporada, Landau começou a renegociar seu contrato anual. O estúdio ofereceu ao ator o mesmo salário que era pago a Peter Graves, 7 mil dólares por episódio. Mas Landau pediu 11 mil dólares, o que forçaria a Paramount a pagar o mesmo salário a Graves, por força de contrato. A CBS se ofereceu a pagar a diferença salarial de Landau, mas o estúdio recusou a oferta, porque isso não resolveria o impasse com Graves.

Enquanto a Paramount propunha a Landau manter o mesmo salário, mas diminuir sua participação na série, Geller sondava outros atores como possíveis substitutos. Entre eles, Robert Vaughn (O Agente da UNCLE), Ross Martin (James West) e Leonard Nimoy (Jornada nas Estrelas). Geller ficou com este último, que assumiu o papel de Paris, um mágico especialista em disfarces.

Quanto a Barbara Bain, sua saída da série não teve uma justificativa. Segundo ela, o estúdio não a chamou de volta ao trabalho depois que as negociações com Landau terminaram. Assim, Barbara foi substituída por atrizes convidadas ao longo da quarta temporada. Mais tarde, Lesley Ann Warren, Linda Day George e Barbara Anderson, respectivamente, a substituiriam nas temporadas seguintes.

(E-D) Leonard Nimoy, Greg Morris, Peter Lupus, Lesley Ann Warren, Sam Elliot e Peter Graves ao centro

A CBS acusou Douglas S. Cramer de manipular a saída de Landau e Bain da série com o intuito de baixar o orçamento. Este, por sua vez, alegou que Peter Graves e Greg Morris eram muito mais importantes para a produção que o casal de atores. Como resultado, o canal proibiu a entrada de Cramer em suas dependências por quase três anos.

A série sofreu uma queda na audiência a partir da quarta temporada. Nessa época, os roteiristas Woodfield e Balter também tinham deixado a produção, sendo substituídos por profissionais que não conseguiam acompanhar o ritmo das histórias. Sendo criticada por apoiar a política do governo na interferência de assuntos externos, a trama da série passou a focar em questões domésticas, o que reduziu o custo de produção. Para aumentar o suspense, os novos roteiristas eliminaram a tradicional cena do gravador. O que provou ser um erro, forçando-os a resgatarem essa introdução ao longo da temporada.

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Geller protestava, mas nada podia fazer. Sua função se tornara meramente figurativa. Para seu desespero, a produção contratou Lesley Ann Warren, então na faixa dos 20 anos, para integrar o grupo de agentes. A ideia era seduzir o público jovem, oferecendo uma personagem com quem eles poderiam se identificar, bem como  roteiros relacionados à temática jovem da época.

Junto com Lesley veio Sam Elliott, que interpretou um novo integrante, o Dr. Doug Robert, que praticamente substituiu Willy. Esse, por sua vez, foi afastado da trama quando o ator pediu aumento. Geller lutou para trazer Peter Lupus de volta à série, mas o que determinou seu retorno foi a reação da audiência que não aceitou a saída do ator.

(E-D) Greg Morris, Peter Graves e Linda Day George

Em 1971, Geller foi demitido. Com a saída do criador da série, Leonard Nimoy deixou o elenco de “Missão: Impossível”. Nessa época, o contrato de cinco anos da série com a CBS chegara ao final. Assim, a Paramount informou o canal que cancelaria a produção.

A CBS não aceitou a decisão e anunciou sua renovação. O elenco foi reformulado. Ninguém entrou no lugar de Nimoy, as situações dramáticas passaram a ser sustentadas por Peter Graves. No lugar de Lesley entrou Linda Day George, mais madura e com mais experiência. Quando a atriz ficou grávida, foi substituída por Barbara Anderson em alguns episódios.

Prevista para ter sua oitava temporada, a série chegou ao fim quando Greg Morris anunciou que não renovaria seu contrato. Junto com Graves, Morris era considerado o rosto que identificava “Missão: Impossível”. E visto que a sétima temporada registrara a mais baixa audiência de toda a série, quando a Paramount decidiu cancelar a produção, a CBS não se opôs.

Vendida para as reprises, a produção gerou lucro para o estúdio. Em 1976, a imprensa divulgou que “Missão: Impossível” rendia cerca de 15 milhões de dólares por episódio. A informação fez com que Bruce Geller e Peter Graves, detentores de percentuais dos lucros, exigissem uma investigação financeira, pois não estavam recebendo sua parcela. Segundo Geller em entrevistas na época, o estúdio teria exercido pressão para que eles aceitassem um acordo inferior ao que fora estabelecido em contrato. Geller teria se negado enquanto Graves teria aceitado por concluir que não teria outra saída.

(E-D) Greg Morris, Peter Lupus, Peter Graves e Barbara Anderson

Geller morreu em 1978, quando o avião Cessna no qual viajava em busca de locações caiu no Buena Vista Grand Canyon. “Missão: Impossível” e “Mannix” se tornaram seu legado à indústria do entretenimento. Enquanto a segunda é menos lembrada pelo grande público, a primeira se tornou um marco da cultura popular americana.

Entre 1988 e 1990, a Paramount produziu uma nova versão de “Missão: Impossível”, também estrelada por Peter Graves, interpretando Jim Phelps.

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O estúdio adaptou quatro roteiros da série original: “The Legacy”, “The Condemned”, “The System” e “The Killer”, além de produzir novos episódios. No total, a produção filmada na Austrália teve 35 episódios, sendo cancelada pela ABC por baixa audiência.

Esta nova versão também contou com a presença de Phil Morris, filho de Greg (que chegou a fazer participação especial em dois episódios). Phil interpretava o filho de Barney. Terry Markwell interpretou Casey Randall até o episodio 12, quando é morta e substituída por Shannon (Jane Badler, de “V”).

Em 1978, a Paramount propôs produzir um telefilme de “Missão: Impossível”. Na história, escrita por George Schenck, Jim Phelps recém saído da prisão, onde cumprira seis anos por conspiração e por se recusar a depor diante do Congresso, é abordado por um agente que lhe propõe uma última missão: prender Rollin Hand e Cinnamon Carter, que se tornaram ladrões internacionais. Barney seria novamente recrutado, mas Willy, agora dono de uma academia, se recusaria a voltar.

(E-D) Phil Morris, Jane Badler, Peter Graves, Thaao Penghlis e Anthony Hamilton na versão dos anos de 1980

O roteiro foi rejeitado pela CBS. Oferecido à NBC, o canal encomendou um novo roteiro. Neste, Phelps e Barney são donos de uma Academia onde treinam novos agentes especiais. Abordados para uma nova missão, eles recrutam a ajuda de Willy, Cinnamon e Rollin. O texto de Harold Livingston era uma compilação dos episódios “Invasion”, “Ultimatum” e “Two Thousand”, mas foi rejeitado pelo estúdio.

Em 1984, o produtor Ed Feldman propôs levar “Missão: Impossível” para o cinema. O projeto chegou a ser anunciado, mas foi engavetado. Em 1988, uma nova tentativa, desta vez com roteiro de Stirling Silliphant (Cidade Nua). Mas uma greve de roteiristas fez com que o estúdio descartasse a ideia. Em 1994, Tom Cruise assumiu o comando de uma versão cinematográfica de “Missão: Impossível”. Estrelado e produzido por ele, o filme estreou em 1996, trazendo John Voight no papel de Jim Phelps. Ao tomar conhecimento do roteiro, Peter Graves se recusou a fazer participação no filme, por não concordar com o destino que foi dado ao seu personagem.

Atualmente, “Missão: Impossível” é considerada uma franquia rentável para a Paramount, que se prepara para lançar o quarto filme do cinema em dezembro deste ano.

(Texto com base em informações divulgadas no livro “The Complete Mission: Impossible Dossier“, de Patrick J. White.)

Confiram no vídeo abaixo uma compilação de algumas cenas de abertura da série original.

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