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HBO Max limpa a barra de séries femininas em remakes com roupagem atual

De 'Gossip Girl' a 'Sex and The City', serviço de streaming puxa a fila de regravações feitas sob medida para um mundo feminista

Por Tamara Nassif Atualizado em 8 out 2021, 16h30 - Publicado em 7 out 2021, 14h01

Quando as primeiras críticas de Gossip Girl estamparam a mídia, era difícil de acreditar que a série teen teria o sucesso que teve. Acompanhando adolescentes milionários de Nova York, cujos segredos e picuinhas eram pautas diárias de um blog de fofoca, a produção, no ar de 2007 a 2012, era “o pesadelo de todo pai”, segundo o jornal diário The Boston Herald,  “bem desagradável” aos olhos do New York Post e “incrivelmente inapropriada” pelo órgão Parent’s Television Council, que avalia o filão infanto-juvenil pela ótica parental. De fato: via jovens na casa dos 17 anos com comportamentos adultos – de visitar bordéis a cenas de sexo semi-explícitas – e não inspirava boa conduta em espectadores facilmente impressionáveis. Hoje em dia, seria o primeiro passo para a série cair na vala de produções ou canceladas por emissoras, ou “canceladas” por espectadores mais conscientes – mas, na época, o canal The CW decidiu levar a máxima “não existe má publicidade” ao pé da letra: pegou as cutucadas e usou como campanha promocional, aliadas a cenas da série que exibiam beijos calorosos entre os jovens protagonistas. Atraindo ainda mais espectadores pelo fator do “proibido”, virou um fenômeno – a ponto de marcar no calendário o dia 26 de janeiro como o “Dia de Gossip Girl” proclamado pelo então prefeito nova-iorquino Michael Bloomberg.

Cartazes de 'Gossip Girl': críticas negativas como campanhas promocionais
Cartazes de ‘Gossip Girl’: críticas negativas como campanhas promocionais The CW/Divulgação

Em pleno 2021, nem tamanho truque publicitário faria a série sobreviver: um dos casais de protagonistas é exemplo gritante de relacionamento abusivo, há gravações não-consentidas de sexo, cenas de abuso, romantização de substâncias, preconceitos de classismo e de LGBTfobia. E, ainda assim, segue sendo vista e revista, embora os novos tempos não permitam mais fazer vista grossa para interações problemáticas. Juntando o útil ao agradável, a HBO Max pensou na solução: atualizar a trama aos valores de hoje a partir de um reboot. Com a primeira temporada lançada em julho, conquistando o posto de maior estreia da história do serviço de streaming, a próxima vem a passos galopantes para continuar a conquistar a nova geração de jovens – estes, antenados em questões sociais o bastante para promover boicotes ao que (ou quem) destoa do “politicamente correto”. E, ao que tudo indica, puxa a fila da tendência de revisitar tramas de sucesso a partir do olhar afiado da geração Z.

O reboot veio em boa hora: atraindo nostálgicos da série original e curiosos, jovens demais à época do sucesso, a nova trama é, literalmente, nova – muito embora a premissa de adolescentes milionários e uma fofoqueira digital seja a mesma. A regravação não só é racial e socialmente diversa, com atores e personagens não-brancos e LGBTs, como também critica o que a original tinha como base: o julgamento moral extremo a quem não está nas linhas da perfeição (ou seja, todos). Agora, prega gentileza, aceitação e até consciência de classe. 

A nova Gossip Girl foi, de certa forma, um termômetro para a HBO Max, que agora parece mergulhar de vez na onda de reboots de séries femininas do passado. Recentemente, a plataforma anunciou que outro sucesso, Pretty Little Liars, ganhará uma nova trama. Inspirada nos livros de Sara Shepard, a original acompanhava um grupo de amigas manipuladas por um anônimo, que sabia de todos os segredos que guardavam – alguns deles eram casos de polícia, mas boa parte só era problemática juvenil. Uma das protagonistas é lésbica; outra, bulímica – coisa que, para as audiências de hoje, gera acolhimento, não preconceito. A partir do anúncio do elenco principal, marcado por diversidade de etnias, já dá para prever que o remake deve seguir o mesmo caminho de Gossip Girl, com apelo aos nostálgicos e aceno às novas audiências.

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Sex and The City é outra que engrossa o caldo da HBO Max. No ar de 1994 a 2004, a trama das amigas Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), Samantha Jones (Kim Cattrall), Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) e Kristin Davis (Charlotte York) vinha com um ineditismo: tratar da vida sexual feminina sem preconceitos, pudores e meias palavras. Acontece que, hoje, não só não há nada de subversivo nisso, como também o tratamento “revolucionário” dado à liberdade de mulheres é até ultrapassado, ainda mais para audiências feministas. A nova produção, batizada de And Just Like That…, vai ao ar em dezembro, em revelação feita na última terça-feira, 5, por Sarah Jessica Parker – e há de se esperar que venha uma revoada de episódios feitos sob medida para a geração do cancelamento.  

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