Clique e assine com até 92% de desconto
Rio Grande do Sul Por Veja correspondentes Política, negócios, urbanismo e outros temas e personagens gaúchos. Por Paula Sperb, de Porto Alegre

Dez dias depois, prefeitura silencia sobre bailarino sedado no RS

Performance de Igor Cavalcante Medina foi confundida com surto, e artista foi sedado, colocado em maca e levado pelo Samu

Por Paula Sperb Atualizado em 8 nov 2017, 13h48 - Publicado em 7 nov 2017, 19h26

Dez dias depois do episódio em que uma performance artística foi confundida com um surto psiquiátrico e o bailarino foi sedado e internado por oito horas, a prefeitura de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, ainda não se manifestou. A prefeitura havia informado que “estava apurando” os fatos e colhendo “os relatos dos envolvidos para esclarecer a situação e dar os encaminhamentos necessários”.  Além disso, havia prometido que “logo os fatos sejam esclarecidos, a prefeitura voltará a se manifestar oficialmente sobre o caso”.

Procurada por VEJA nesta terça através de sua assessoria, o governo municipal disse que não havia informação sobre o caso. A prefeitura, comandada por Daniel Guerra (PRB), é responsável pela Guarda Municipal, que abordou o bailarino, pelo Postão 24h, onde ele ficou internado, e pela Cia. Municipal de Dança, da qual o bailarino é contratado. Ele foi ouvido pela prefeitura na semana passada, mas não sabe qual será o encaminhamento legal sobre o caso.

Igor Cavalcante Medina, de 26 anos, apresentava sozinho o espetáculo Fim na Praça da Bandeira, na manhã do dia 28 de outubro, quando guardas municipais e socorristas do Samu o abordaram. O artista foi sedado e levado para o Postão 24h. O bailarino só foi liberado oito horas depois quando “acordou”, segundo o relato de um integrante da equipe a VEJA, na ocasião. A médica psiquiatra que atendeu o bailarino constatou que o artista não apresentava sinais de surto psicótico e o liberou.

“Cheguei no lugar [da apresentação] e a guarda municipal me abordou junto com o Samu. Foram invadindo sem me perguntar nada, já foram chegando. Eu falei que tinha autorização da prefeitura para estar ali, mas não quiseram me escutar. Disseram que eu tinha um surto psicótico. Me amarraram na maca e me colocaram na ambulância. Me deram uma injeção de tranquilizante e fiquei oito horas amarrados no Postão aguardando um psiquiatra atestar que eu estava lúcido”, disse Medina em entrevista anterior a VEJA.

“Falei que estava no meio de uma apresentação e não quiseram me escutar. Quando me abordaram, eu estava declamando um poema. Se tivessem parado para me ouvir, isso não tinha acontecido. Eu não tinha como reagir porque eram cinco pessoas me segurando. Tentei conversar porque não dava conta de reagir. Na ambulância, um deles pressionou o punho cerrado no meu peito para eu ficar sem fôlego e parar de falar”, relatou o artista.

Quando foi abordado, Medina fazia movimentos com o corpo e declamava uma poesia sobre questões de discriminação racial e social. “Mata, espanca, xinga , mutila, esquarteja, destrói, sangra, mas isso é só se for pobre, preto e sofredor”, dizia um trecho do texto decorado.

O bailarino é integrante da Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul e apresentava performance da programação da 8ª edição do “Caxias em Movimento”, evento com dezenas de apresentações.

  • O diretor da Guarda Municipal disse ao Pioneiro, jornal de Caxias do Sul que o departamento foi acionado para verificar o que estava acontecendo com o “homem parado” na praça. “O que chamou a atenção é que ele usava umas roupas da performance e tinha um arame farpado no pescoço. A equipe tentou falar com ele, mas o bailarino ficava mudo. Olhava para o céu, para cima e para baixo. De repente, começou a soltar frases filosóficas, citava a Somália a todo momento. Os guardas entenderam que poderia ter algum problema de saúde e acionaram o Samu”, disse.

    No material de divulgação do “Caxias em Movimento”, o espetáculo Fim é descrito como um “trabalho que aborda a violência e põe o corpo em evidência para trazer à tona as diversas formas de brutalidade do cotidiano, sejam elas físicas ou psicológicas. Os corpos vão sendo envenenados até a total desumanização. Será que já não somos nada mais além de um mero pedaço de carne incapaz de sentir, incapaz de resistir, incapaz de se rebelar?”.

  • Continua após a publicidade
    Publicidade